terça-feira, 12 de julho de 2016

Florescência - parte II


se tivesse que esboçar
uma prece em
pleno inverno

seria chuva de verão
flores rosa pelo chão
e um poema diminuto

se possível apetece que
entornasse em temporal
esse cerrado enxuto

e então serenasse

florescesse
e serenasse
num minuto

relampeasse
aquiescesse
e desse fruto

mais não carece
só mesmo que fosse
absoluto

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Florescência - parte I


Pois qual Brasília
É na seca
Que floresço

Ave Marias

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
[Adélia Prado - Com licença poética]


Sangrar dias e dias
Contorcer o ventre latejante
Seguir bela e forte
     estuporada a pele
     impregnado o cheiro de
     calor e juventude
Chorar um choro intenso
     copioso das dores
     todas juntas e das juntas
     do corpo e da alma da gente
     fêmeas do mundo todo
Penso que é mesmo
     um imenso poder
     a se apossar

E nesse passo
Mês a mês
Poder
Vis-à-vis
Gritar-lhe
     contorcida
Eis-me vida
     cheia de graça
Bela forte
Latejante
Quente
Estuporada

Eis-me
     sangue e criação
     que vaza e dá vazão
     à dor vermelha
     dessa prece
     desse peso
     dessa potência
Profana e sagrada
     que preza
     sangra
     cria
     e passa.

Penso que é mesmo
     um poder imenso
     esse nosso.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Transitoriedade


Contorno o vazio
Vezes seguidas
Como quem perde a saída
Da tesourinha

Estar no trânsito
Ou no caminho
É sempre um caso
De perspectivas

Retorno do transe
Às voltas do eixo
A L4 logo ali
Só minha

Então só acelero
E me ultrapasso
Inteira minha

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Entre resoluções de ano novo e ter a vida resolvida

"Eu canto porque o instante existe."
[Cecília - Motivo]

O ano de dois mil e dezesseis começou há quarenta e seis dias.

Esse foi o tempo que eu precisei para cumprir a primeira das resoluções deste novo ano que consistia, basicamente, em escrever sobre as resoluções do ano novo. Resoluções que, na verdade, começaram a ser maturadas, como de costume, no final do ano passado, mais especificamente no dia de meu aniversário: a minha virada de ano particular. Setenta e um dias, pois. Check.

Há alguns anos, por muitos anos, as resoluções de uma menina excessivamente metódica e exigente consigo mesma perpassavam uma premissa subliminar de que aos vinte e seis anos ela já estaria com "a vida resolvida". Essa foi a idade em que mamãe me deu à luz. Já estaria formada há três anos, já teria ultrapassado a linha média dos vinte, rumando convictamente em direção aos trinta, aquela idade mítica. Ora, nada mais razoável supor e se propor a resolver a vida até os vinte e seis anos.

Chegado o fatídico marco autoimposto, percebi finalmente: nada razoável supor e se propor a resolver a vida até os vinte e seis anos. Nada razoável supor e se propor a resolver a vida em nenhuma idade, para ser precisa. Pois o que se resolvem são problemas e não me parece razoável encarar a vida, esse maravilhoso absurdo, como um problema equacionável, se sua riqueza reside exatamente na mais absoluta imprecisão. Mais ainda, o que mesmo restaria de vida uma vez que se lhe resolvesse?

Eis a grande virada que os vinte e tantos me proporcionaram: resolvi fazer um esforço consciente para parar de buscar tantas resoluções.

Por certo, não será tarefa de um dia, ou mesmo de um ano sequer. Inauguro, assim, a lista das resoluções de ano novo que precisam de mais que um ano para serem cumpridas. Quiçá de uma vida inteira... Desejo que eu tenha ainda muito tempo, que enfrente inúmeros contratempos, que trace algumas tantas resoluções, mas que persista no compromisso de não encarar a vida como algo a ser resolvido.

Ao final, viver apenas é sempre a definitiva resolução.