terça-feira, 14 de março de 2017

Lembranças de um carnaval

No primeiro dia, fui guerrilheira
E no segundo, danada que sou
Formei logo um bando e subi a ladeira
Lampião me tomou pelo braço
Então, me fiz Miranda e cantei
Ao tico-tico, ao elefante, sambadeira
Mas inda não consegui largar o cangaço
Confesso
Vesti-me de doce e destilei ambiguidades
Achei o que é pouco bem bastante
Até que enfim, desarmada
Na cidade antiga do lado
Dancei na chuva, sambei
Molhada em transe, eu gritei
Vi os fogos num grande encontro
Existi e cantei a cada instante
Na ciranda, maracatu e sinergia
Desejei feliz ano novo e poesia
Comi uma tapioca, frevei e dormi
Pelo chão do quarto, as fantasias
Uma hora depois e já era dia
Enquanto recolhia o batalhão
Esticava a perna que doía
Já com saudades da revolução
Bem fundo do peito, que também já chiava
Dando sinais de que vinha congestão
Tomada por uma carnavália infinda
Eu sabia, ah eu sabia!
Feliz quem se entrega inteirinha a Olinda!

quarta-feira, 8 de março de 2017

Sororidade

"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. 
Nenhum destino biológico, psíquico, econômico 
define a forma que a fêmea humana assume no 
seio da sociedade; é o conjunto da civilização que 
elabora esse produto intermediário entre o macho 
e o castrado que qualificam de feminino".
[Simone de Beauvoir - O Segundo Sexo]

A menina que ouvia Elis entoar e
pensava
nunca cantará como ela

A menina que lia Cecília compor e
pensava
nunca versará como ela

A menina que via Frida colorir e
pensava
nunca voará como ela

A menina que descobria Olga a lutar e
pensava
nunca resistirá como ela

A menina que sentia Simone libertar e
pensava
nunca se tornará como ela

As meninas
enfim
se iriam

E a mulher então

restaria

Sendo e seguindo
inúmeras
como elas

Mas pensava e crescia

E à mulher então

restaria

Seguir sendo
infinita
como ela

Mais pensava e crescia

E sendo, seguiu
braços dados
com elas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Flora silvestre

Olhos cerrados
Voz pantanosa
Umidade amazônica

E o desejo que mata
Atlanticamente

Pra que sertão
Se posso
Ser tua

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Canção do Exílio


Minha terra tem palmeiras
Tem Josué e tem Gullar
Tem o Gonçalves de outros Dias
Dias de sol, lençóis de mar

Minha terra tem palmeiras
Tem cuxá e sarnambis
Tem bacuri e babaçu
Turiaçu e o mais doce dos abacaxis

Minha terra tem palmeiras
Tem cultura popular
No São João, bumba meu boi
Gira menina no cacuriá

Minha terra tem palmeiras
Sangue indígena, negras veias
É portuguesa em suas correias
E quase nada tem da França

Minha terra tem palmeiras
Tem cantaria e casario
Azulejado azul anil
Com amarelo de Bragança

E ainda que noutras ladeiras
Eu cantarolo e anuncio
Das trincheiras de criança
Escancarado o meu baú:

A minha terra tem palmeiras!
Foi a Ilha que me pariu!
Em qualquer canto do Brasil
Sou filha de Upaon-Açu!

Pois no sotaque e na lembrança
Vida é manha e abastança
E onde eu danço, teimo e chio
Teu você será meu tu.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Eixo monumental


Vê-de Brasília e seu contraste:
Verde e concreto em toda parte
Acima o céu mais alto e
Vasto que qualquer plano
Que voa e cobre esse Planalto
Realizado pouso e aeroplano
Resiliente, vário e soberano
Que tanto é barro e seca quente
Quanto vida, cor e gente
Exílio de tronco torto e raiz funda
E um Lago à beira que me inunda
Mesmo que cartesiano.