domingo, 13 de novembro de 2016

Outono


"Quando se abriu um buraco nas nuvens, 
me pareceu que sobrevoávamos Budapeste, 
cortada por um rio, O Danúbio, pensei, era 
o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a
cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, 
os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, 
eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, 
mas Budapeste era amarela."
[Chico Buarque - Budapeste]

Lá no topo da Citadella era tudo um amarelo só
e de vez em quando um alaranjado
mais queimado pelo tempo ou pelo sol

Nestas bandas bastante esplanadas
tanto amarelo seria terra ou talvez fosse flor
colorindo o concreto discreto do eixão

Porém lá era amarelo em proliferação
e dançavam balé saltitantes no vento
as folhas restantes em subversão

Era tanto amarelo saltimbanco no olhar atento
que se punha a contento disposto em tantos
e tão penetrantes e já tão distantes tons

Que no se pôr acizentado destes dias 
sem sombra de som nem de sol ou de sono
ainda resta um bom amarelo por cá

Ainda resta se pondo e supondo
com quantos e quais amarelos
se faz um outono passar

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Jet lag

é um estômago embrulhado
quando você acha que o futuro já devia ter chegado
enquanto você dormia.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Florescência - parte II


se tivesse que esboçar
uma prece em
pleno inverno

seria chuva de verão
flores cor-de-rosa pelo chão
e um poema diminuto

se possível apetece que
entornasse em temporal
esse cerrado enxuto

e então serenasse

florescesse
e serenasse
num minuto

relampeasse
aquiescesse
e desse fruto

mais não carece

só mesmo que fosse
absoluto

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Florescência - parte I


Pois qual Brasília
É na seca
Que floresço

Ave Marias

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
[Adélia Prado - Com licença poética]


Sangrar dias e dias
Contorcer o ventre latejante
Seguir bela e forte
     estuporada a pele
     impregnado o cheiro de
     calor e juventude
Chorar um choro intenso
     copioso das dores
     todas juntas e das juntas
     do corpo e da alma da gente
     fêmeas do mundo todo
Penso que é mesmo
     um imenso poder
     a se apossar

E nesse passo
Mês a mês
Poder
Vis-à-vis
Gritar-lhe
     contorcida
Eis-me vida
     cheia de graça
Bela forte
Latejante
Quente
Estuporada

Eis-me
     sangue e criação
     que vaza e dá vazão
     à dor vermelha
     dessa prece
     desse peso
     dessa potência
Profana e sagrada
     que preza
     sangra
     cria
     e passa.

Penso que é mesmo
     um poder imenso
     esse nosso.