sábado, 31 de julho de 2010

A lixeira do poeta

O costume de se ser elaborado é uma praga.

Trata-se tudo elaboradamente. Refinadamente. Ritmadamente.
Sílabas contadas, metáforas deslocadas.
Perfeccionista trabalho do poeta.

Metódica arte quieta
Que se busca ferir com barroca adaga
Em ordem invertida a frase, o golpe sempre reto;
Como se isso a tornaria mais romântica, menos rasa.

Expressão de uma literatura esvaziada.

Poetei sempre, em meus canteiros de caderno
Rimando a princípio obviedades, como pai e terno,
Até que perdi o jeito.
Ou foi o talento, que diziam existir, quem me deu as costas.
Outro dia tentei de novo
Sobre a mesa debruçada em minhas influências -
Aquelas outras mentes de que se gosta -
Nada saiu. Perdi o jeito.

Papéis amassados, com raiva, amontoados embaixo de mim.
Vazios de versos, sem rimas, encantos, nem cantos, enfim.

...

Meu Deus! Quanta poesia tinha ali!

6 comentários:

  1. Ainda dá tempo de migrar pro Wordpress, hein.

    Gostei da ideia do texto. E é basicamente a graça, a liberdade que um blog dá. Publique tudo, sem medo do erro. Vá produzindo. Uma hora você gostará tanto do que faz quanto as outras pessoas, essas que vão gostar sempre.

    Boa poetagem.

    ResponderExcluir
  2. As palavras mostram o que há dentro de você, mesmo que, muitas vezes, elas não sejam fiéis à sua riqueza interna. O importante, querida amiga, é que elas sejam ditas e, quando for para deixar marcas, escritas; e para que, sobretudo, você não se sinta sufocada pela imensidão, por essa vastidão que há dentro do seu ser!
    Um beijo da sua primeira seguidora, no bom sentido do substantivo.
    Cândida.

    ResponderExcluir
  3. Entendo um tanto disso. Bons eram os tempos em que fui poeta em crise de mim mesmo e a obra só transbordava. Mas daí me surgiu também um desses períodos de crise de poesia. Esses dias em que não 'há versos, nem cantos, nem encantos'. O que fazer quando a nossa própria poesia carece de poesia?

    Boa Sorte!

    Paulo César di Linharez

    Ludovicense te sei, visita o blogue dos Salvadores!

    ResponderExcluir
  4. Serra Pelada? Minas de Diamantes??? Acho que da sua lixeira sai muito mais riquezas que todos esses lugares juntos...

    ResponderExcluir
  5. "Papéis amassados, com raiva, amontoados embaixo de mim."

    Acho que não só embaixo, mas dentro.
    Adoro poesia em lugares inimagináveis.
    Vou vir colher sempre por aqui.

    =*

    ResponderExcluir
  6. Tomei a liberdade de compartilhar sua arte por meio do twitter. Espero que não se importe. Qualquer coisa, pode dar uma olhada lá @eslabf

    ResponderExcluir