quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Das preces setembrinas

Quanto desejo de chuvas
E de rebrotos
E de renovos
E de ombros nus
E de amoras
Sobre as raízes descobertas!
[Manoel de Barros - Fragmentos de Canções e Poemas (9)]

Pois foi o que ocorreu
Por certo

Fui pedir a Pedro um amor
E a chuva, roguei ao Antônio

E assim se foi Setembro
Deserto
Num santo erro de endereçamento

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Singelo

E se eu conseguisse fazer um poema 
Assim tão singelo quanto
Um chumaço de algodão
Seria ele um poema
Ou uma farsa?

Seria macio
Ao menos
Suave

...

Talvez até
Fosse
Verdade

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ver sem ver

Após a (não) decisão histórica de ontem, me lembrei dessa poesia antiga, de 2006, premiada no Festival Marista daquele ano, cujo tema era "Fraternidade e pessoas com deficiência"...
Pena que a rouquidão da Política e o pouquismo da Justiça ainda estejam tão atuais!



Fui batizada de Esperança e, como minha irmã Justiça, eu sou cega.

Desde a mais tenra infância
Não sei a expressão que antecede o desmaio
Mas a cara da ignorância
Ou do hipócrita negando, eu sei.

Eu não enxergo a cor do filé mignon.
Não vi organização no 1° de maio.
Mas vi os fogos no Reveillon
e o arco-íris da parada gay.

Eu não vejo nada.
Mas vi o rombo dos cofres públicos,
Vi o estouro da última guerra
E o escândalo da ideologia negada.

Eu gritei quando invadiram o Iraque
E eu reclamo da politicagem discriminatória
E da igualdade excludente
Da incipiente solidariedade
E da falta de acesso
E da lentidão dos processos
E da burocracia, da carnificina, da violência
E da desesperança, da impavidez do colosso que se destrói.
Eu condeno o assassinato da inocência
E a falsa independência
E a grosseira incoerência.
Como dói.

Eu cuspo na cara de quem se faz mudo.
Que muito me enoja toda essa desfaçatez
De revoltas mainardianas e cultura descartável:
Inenarrável insensatez,
Impressionável eterno ídolo da vez.
Admirável próxima desilusão no fim do mês.
E preconceito das oito ao meio dia, e então até as seis.

Eu cuspo na cara de quem se faz surdo.
Do prepotente que desconhece ser ele inválido.
Dele que, ainda estando ávido por mudança,
Observa distante e pálido de espanto
O canto do último pássaro entornado em pranto.
E depois se acha no direito de apontar,
Cínico, vil, reclamar do país que não avança.

Do alto de escombros precoces
D’uma justiça de doses poucas
D’uma política de vozes roucas
Uno minhas mãos em prece.
Que não há paciência, ou milagre ou ciência
Que me impeça de dizer
Que há real deficiência em quem se declara são.

Em meio a essa névoa turva, quanto lirismo há
Na incompreensão dos outros,
Na insegurança que a cegueira dá
E no dia-a-dia que não nos vê, que nem se importa
É pura necessidade isso de lutar
E passa o tempo, passatempo, contratempo
Não interessa se é jargão
Vale muito o "mais respeito, menos discriminação,
Cuidado com o outro, tenha amor no coração".

Às vezes, é mais útil sentir que entender
Que sentir podemos todos,
Os gênios, os mortais e os chefes da nação
O menino na pré-escola, os pais e os artistas da TV
O surdo, o cego, o mudo,
Ele, ela, eu, você.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Mãos atadas


"Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro."
[Mãos Dadas - C.D.A.]

Os barcos ressurgem
Calada da noite
Balaios vazios
Já curtos pavios
Um mudo açoite.

A maré chora,
O homem chora,
E fica tudo assim:
Salgado.

(alguém avisa aí que os companheiros dos taciturnos ainda nutrem grandes esperanças)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Um bemol por que não?!


Aqueles olhos que me encantaram
Em outros cantos há muito passados
E a tantas outras decerto cantaram
E já me encheram de música
E me abarrotaram de tantos
Quando éramos tantos 
Quantos fôssemos ambos
E me bastavas até me cansar
Hoje me pedem em franco retorno
Que lhes compartilhe uma leda canção
Queda-me pois morno o peito calado
Ante tamanho furor da amiga surpresa
Assim repentina sem preambular
Que eis-me sem jeito qual desacordado violão
A buscar adequar os trejeitos
Após tantos outros cantos
Ao ritmo próprio de teus dedilhados
E revelo-me tão logo e perdida presa
Já vazia de bastas e esquecida de prantos
Repetindo instigada por que não?!
Embevecida no azul bemol de teu olhar.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Gullar revisitado

Mas é que a 
felicidade
é sempre
tão
TANTA
que
essa sim
senhores
não cabe
nunca
no 
poema!

domingo, 12 de setembro de 2010

DRs II - Discutindo a redação

Eu?! Há muito não mais teorizo: metaforizo.
Problema. Poema.

sábado, 11 de setembro de 2010

Excessos (ou Abscessos Poéticos)

Disparou o artista frenético em minha direção
A veia poética dilareçada e pulsando na mão
Arregaçado em carne viva
Vermelha sangrenta e doída.

Entranhas de versos hereges
Denunciantes de sonhos
Urgências e
Algumas
Poucas
Paixões.

Sem eufemismos,
Me corrige
Estrebuchante:

Fodam-se as libélulas e essas coisas bonitas de amor!

Sua exegese é de
Feridas purulentas,
Maledicências e
Decepções.

Por favor alguém me cale a boca! - gritou -

Antes que eu seja compreendido...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Cantaria


"Quero ler nas ruas
 fontes, cantarias
 torres e mirantes
 igrejas, sobrados.
 Nas lentas ladeiras
 que sobem angustias
 sonhos do futuro
 glórias do passado."
[Louvação a São Luís - Bandeira Tribuzzi]

São pedras de cantaria
Ao pé dos casarios azulejados
E os braços de mar sitiados
Por mangues e pobres palafitas
Que carregam teus filhos
Esquecidos pelos donos da terra
Para onde ainda cantem os sabiás.

São dias de santos e tradições
Em que palhoças abrigam
Quitutes, não filhos,
E mesas de gente sorrindo admiram
As mulheres a girar com graça
No cordão de cacuriá.

São toadas e sotaques
Em largas e abertas praças
Que gritam contra o esquecimento
E fazem dançar teus mesmos filhos
Ao som ritmado dos maracás.

Aguarda-se o desfecho da saga da língua roubada do boi que alimentou os desejos de Catirina. A ansiedade nervosa sempre inédita ante seguidos, já quase incontáveis, anos da mesma história. Capatazes se sucedem numa sequência de opressões roucas que tensionam até os cazumbás useiros de risos por trás de suas máscaras. Índios e caboclos dançam e obedecem aos vaqueiros na busca do rebelde Chico. Pobre Chico achou que poderia roubar o amo e matar-lhe o novilho mais querido para agradar a mulher e o filho que esperavam. Onde já se viu mulher de Chico ter desejo?! Resta confiar nos pajés para ressuscitar o boizinho e voltar a dançar. Nos pajés, a esperança de Chico e da dança. E agora, Chico? Chico, até quando?! Até quando o José?!

E assim suportam calados a sina.
Entretido na dança o espírito
E amortecida a barriga,
Uns poucos de camarão e cuxá
Ao resto, farinha com água.
Mal sentem falta da outra língua
Que lhes foi roubada
Pelos donos do mar.

Mas são as pedras de cantaria
Que hoje eu canto.
Destoutra jovem terra
Destas ruas que não têm teus nomes
Nem tua poesia, nem teus filhos,
Nem tuas esquinas que viveram tanto.
Sinto-me um daqueles fidalgos desterrados
A me doutorar nas leis do Império
E viver no conforto da Corte
Enquanto a minha terra tem doutores
Que desafinam os sabiás.

Na minha língua cortada do cerrado,
Secura, impotência e o gosto saudoso salgado:
Daqui amargo a distância das palmeiras de lá.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Entre orgasmos gastronômicos e barrinhas de cereal

Faz umas duas semanas que percebi que meu caso estava se agravando, quando proferi a seguinte absurdez: “Caramba! Mas essa barrinha ainda consegue ser mais gostosa do que aquela outra! E olha, só 90kcal!”. Apossou-se de mim há alguns meses uma certa mania de saúde que nunca me pertenceu. Os que me conhecem há mais tempo sabem que desde que me entendo por gente que pode recusar um aviãozinho de verdinho e optar por um belo bife com batatas fritas, tinha por certo a máxima de que comida colorida é jujuba. E assim eu era feliz. Demais. E meu estômago, então, nem se fale! Pois segui entupindo minhas artérias de pura alegria hidrogenada e transsatisfação, até que me vi em terras americanas. Fast-food à vontade, ultra-power-mega-sized-combos de coisas deliciosas, Häagen-Dazs a preços módicos, máquinas de cookies macios e crocantes com gotas de chocolate e uma Dunkin Donuts na minha esquina. Foi demais até pra mim. Após umas três semanas de overdose de orgasmos gastronômicos, não só desenvolvi um ainda mirim, mas promissor talento para a culinária, como me vi pedindo convicta o primeiro prato de salada da vida. Da adulta, pelo menos. Inacreditavelmente. E ainda paguei por ele. Em dólar!!! Nunca me esqueço de como foi difícil comer tanta folha... A saída foi o molho caesar caprichado e encher o prato de croutons. Venci-o em garfadas perseverantes, a contragosto do gosto gostoso ao qual meu sistema digestivo estava acostumado, e esse foi o começo de um processo que me levou a hoje, alguns meses depois, achar barrinhas de cereal gostosas. Comida saudável e de baixa caloria não devia ser gostosa. É um contrassenso! As prateleiras do supermercado entupidas de variedades como barra sabor trufa, brigadeiro, morango com chantilly, banana caramelizada, côco com doce de leite e, pasmem!, bolo de chocolate! E você tem que comer só uma, por que onde já se viu repetir barrinha de cereal?! Não consigo engolir a idéia de uma pessoa sã virar no meio da tarde e falar: “Nossa, mas que vontade absurda de comer uma barrinha de Nutry sabor bolo de chocolate!” Gente normal não sente vontade de comer cenoura ou barrinha de cereal, come porque é o jeito; vontade dá é de tomar cerveja ou uma coca-cola estupidamente gelada, capuccino com chantilly pra esquentar, comer coxinha de frango com catupiry, ou uma bela picanha sangrenta, ou um bife à parmegiana, ou cachorro quente com queijo e batata palha, ou batata frita com cheddar e bacon, e coroar com morango com nutella, ou vulcãozinho de doce de leite, ou banana flambada com bola de sorvete de creme, ou, ou, ou... Melhor parar por aqui que hoje meu estômago voluntarioso e mal-acostumado a ser bem-tratado já teve sua glória vespertina num prato de morangos com leite condensado. Light.

sábado, 4 de setembro de 2010

Diagnóstico: paixonite

"A experiência de nada serve à gente.
É um médico tardio distraído:
Põe-se a forjar receitas quando o doente
Já está perdido."
[Da experiência - M. Quintana]

Pois te trato como uma rinite
Que passa com a primavera
E logo não passarás dum pigarro
Irritando minhas cordas vocais

Mas como boa alérgica
De arroubos hipocondríacos
Trago o Sorine na bolsa
Que é pra descongestionar no ato
No caso duma recaída

Aí dá-lhe corticóide na bandida
Duas vezes por dia
Por umas duas semanas 
Talvez um pouco mais

E já eu volto a respirar
Já eu volto a suspirar...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dona Quarta

Dona Quarta
Reboladeira
Foi fazer feira
Pros minino comer.
Mexendo os quartos pra cá
Mexendo os quartos pra lá
Quem lhe visse jurava:
Tem sangue angolano, certeza,
Ao menos a bunda,
Isso pode apostar!
Dona Quarta cata tomate e alface fresquinha
E só compra leite da quinta do Zé
Que é pra não azedar.
Dá cá Zé o leite da Quartinha
Deixa que eu merma que vou entregar.
É a Dona Domingas Segunda
Invejosa dos quartos da Quarta
Que mexem pros lados
Fazendo o povo apontar.
Os minino abobado
Correm tudo pras bandas da quinta
Torcendo pra Quarta passar
Mas que bela bunda é essa
Dessa Dona Quarta!
Que coisa distinta
De se admirar!
E a feira parada
Parece mais feriado
Ninguém faz mais nada
De olho vidrado
Nos quartos da Quarta
Que mexem pra cá
Que mexem pra lá
Vixe, pra que tanta pressa?
Lá vai Dona Quarta,
Deixa a feira de lado,
Rebola-se dali pra outro lugar.

Aí todo mundo toma seu rumo
As moças pras cestas
Os rapazes pro fumo
Os senhores pras sestas...

Só os minino na praça matriz se põem a conjecturar:
      - E se a gente tascasse no meio do cochilo dos véio um "x"
         pra festa não se demorar?