sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ver sem ver

Após a (não) decisão histórica de ontem, me lembrei dessa poesia antiga, de 2006, premiada no Festival Marista daquele ano, cujo tema era "Fraternidade e pessoas com deficiência"...
Pena que a rouquidão da Política e o pouquismo da Justiça ainda estejam tão atuais!



Fui batizada de Esperança e, como minha irmã Justiça, eu sou cega.

Desde a mais tenra infância
Não sei a expressão que antecede o desmaio
Mas a cara da ignorância
Ou do hipócrita negando, eu sei.

Eu não enxergo a cor do filé mignon.
Não vi organização no 1° de maio.
Mas vi os fogos no Reveillon
e o arco-íris da parada gay.

Eu não vejo nada.
Mas vi o rombo dos cofres públicos,
Vi o estouro da última guerra
E o escândalo da ideologia negada.

Eu gritei quando invadiram o Iraque
E eu reclamo da politicagem discriminatória
E da igualdade excludente
Da incipiente solidariedade
E da falta de acesso
E da lentidão dos processos
E da burocracia, da carnificina, da violência
E da desesperança, da impavidez do colosso que se destrói.
Eu condeno o assassinato da inocência
E a falsa independência
E a grosseira incoerência.
Como dói.

Eu cuspo na cara de quem se faz mudo.
Que muito me enoja toda essa desfaçatez
De revoltas mainardianas e cultura descartável:
Inenarrável insensatez,
Impressionável eterno ídolo da vez.
Admirável próxima desilusão no fim do mês.
E preconceito das oito ao meio dia, e então até as seis.

Eu cuspo na cara de quem se faz surdo.
Do prepotente que desconhece ser ele inválido.
Dele que, ainda estando ávido por mudança,
Observa distante e pálido de espanto
O canto do último pássaro entornado em pranto.
E depois se acha no direito de apontar,
Cínico, vil, reclamar do país que não avança.

Do alto de escombros precoces
D’uma justiça de doses poucas
D’uma política de vozes roucas
Uno minhas mãos em prece.
Que não há paciência, ou milagre ou ciência
Que me impeça de dizer
Que há real deficiência em quem se declara são.

Em meio a essa névoa turva, quanto lirismo há
Na incompreensão dos outros,
Na insegurança que a cegueira dá
E no dia-a-dia que não nos vê, que nem se importa
É pura necessidade isso de lutar
E passa o tempo, passatempo, contratempo
Não interessa se é jargão
Vale muito o "mais respeito, menos discriminação,
Cuidado com o outro, tenha amor no coração".

Às vezes, é mais útil sentir que entender
Que sentir podemos todos,
Os gênios, os mortais e os chefes da nação
O menino na pré-escola, os pais e os artistas da TV
O surdo, o cego, o mudo,
Ele, ela, eu, você.

Um comentário:

  1. Enquanto há peito, poeta; enquanto inquietação, gente.

    Um texto em que a pouca idade não envergonha.Belo.

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