terça-feira, 30 de novembro de 2010

Águas de Novembro

"Sou valente como as armas,
Sou guapo como um leão.
Índio velho sem governo,
Minha lei é o coração."
[Érico Veríssimo - Um Certo Capitão Rodrigo]

Sob esse céu pouco estrelado
Por fora de minha janela
Todo encoberto de nuvens e desagrados

Ao som da água que escorre
Por detrás de minhas esperas
Deitada em mim eu me questiono
No costumeiro atraso de meu sono

Nem sei se ouves 
Nem sei se sentes
Que te sussurro distante e ingenuamente
Vem de teus campos e tuas tantas primaveras
Dá-me esse corpo ora preso em minha tela
Me acalma o peito, me preenche o leito e me socorre
Te intimo humilde umidamente
Acaso não ouças
Decerto sentes

Que por detrás da chuva que nos espera
O tom é manso desse ano que já morre
E deitada em ti eu me derramo
Ao nosso certeiro passo, eu te amo

Toda descoberta de vertigens e musicados
Por dentro de minha querela
Sob esse céu rouco e carregado


"O que a princípio fora apenas desejo carnal agora 
era também um pouco ternura: era amor. E o cap. 
Cambará  inquietava-se por isso. Porque sempre lhe 
parecera que o único amor digno dum homem era 
esse  que apenas pede cama. O amor de fazer ou cantar 
 versos e mandar flores, esse amor de doer no peito, 
de dar saudade era amor de homem fraco. Ele cantava
 versos que falavam em tiranias, saudade e mágoa, só
por brincadeira, sem sentir de verdade as coisas que
 dizia. No entanto, agora estava enfeitiçado por Bibiana 
Terra. E, em fins daquele dezembro quente e parado, 
Rodrigo Cambará pela primeira vez compreendeu 
o profundo sentido dum ditado popular: 
'Quem anda cego de amor não sabe se é noite ou se é dia'".

sábado, 27 de novembro de 2010

Meu desajeito



"For what is a man, what has he got?
If not himself, than he has naugth
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows, I took the blows
And did it my way"
[Frank Sinatra/Paul Anka  - My way] 

Hoje amanheço sem ter sono
Entardeço sem temer
Rio bem leve
Riso breve
Riso sonso

Observo a flor florir
O tempo fluir
O rei ruir
- ainda sim -
Eu permaneço
Não me desfaço
Nem desfaleço

E me reformo
Ao meu contento
E se desconstruo
Me reinvento

Rumo pra trás
Volto adiante
E vou errante
Vôo rasante
Avante
Vento

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Da insólita dessolidão


E se subvertêssemos a solidão, sem retirar dela o silêncio, a melancolia, o denso vazio?! Em palavras que materializam em bytes, energia. Uma nudez de diálogos escancarados, um perfeito despropósito mesmo para preferências anunciadas por monólogos. E se transfigurássemos a solidão em companhia?!
De repente escrever em prosa é tão complicado, mas não há espaço para versos nessa estória. Não há espaço para versos em mim. É que vislumbro essa pura poesia tão perfeita em sua abstração, que tentar traduzi-la seria um crime, um pecado, uma desfaçatez. 
Permanece esse silêncio dominical numa curiosidade impaciente, característica, famigerada, maturada e mal digerida, entalada na garganta, ácida, breve, grossa, voluntariosa e um tanto tímida. Sinceridades não interessam; desinteresses, doutra sorte, exercem diuturnamente e, em especial, madrugadamente, sua atração insustentável, diagnosticada em tempo, ora em franco e confesso tratamento de contenção. 
As maçãs do rosto em fogo, por calor, ou seria o efeito da adolescência tardia na pele jovem e, ainda, sem marcas; ou seria o efeito da adolescência revivida, que não passará de todo nunca, aquela perfeitamente visível nas marcas talhadas precocemente na pele por baixo da pele. 
Quieta, sorrateira, tangente e intangível, a inconfundível solidão acompanhada introduz um novo carinho no meu vocabulário, sem palavras para descrever o ofício de acariciar a alma. E a distância se faz quietamente presente, uma metafísica áurea, uma concretude ao avesso, excessos contidos, contenções inexistentes, mesmo porque necessariamente insuficientes pra almas que transcendem os limites descabidos do corpo, dos termos, do tempo, da normalidade. 
Então o que restaria de um tal processo de dessolidão?! Insolitude... E uma satisfeita sonolência...

domingo, 7 de novembro de 2010

Insolação


Uma noite de lua pálida e gerânios 
ele viria com boca e mãos incríveis 
tocar flauta no jardim. 
Estou no começo do meu desespero 
e só vejo dois caminhos: 
ou viro doida ou santa. 
Eu que rejeito e exprobro 
o que não for natural como sangue e veias 
descubro que estou chorando todo dia, 
os cabelos entristecidos, 
a pele assaltada de indecisão. 
Quando ele vier, porque é certo que vem, 
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? 
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos 
— só a mulher entre as coisas envelhece. 
De que modo vou abrir a janela, se não for doida? 
Como a fecharei, se não for santa?
(Adélia Prado - A serenata)


Não via o sol há muito tempo
Mas ali livre estava
Cabelos voando nas
Rasas rajadas de vento.

Impune insanidade
Serva, amante, sedenta
Salobra impiedade
Moça, nada sacra, nada santa
Abafando gritos, afogando mitos
Me bebo, embebo, então bêbada
Me fumo, me puno, recupero e reperco meu rumo.

Fagulhas, agulhas, agruras barrocas
Contrastes, trocados, bordados...
Inchar toda essa coisa pouca
Preencher toda essa vida oca
E de repente é preciso amar o vão para se renascer - louca!

Eis que desmaia o sol
Esvai-se de minha pele
E deixa apenas a vermelhidão...