quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Art. 135 c/c art. 29 do Código Penal



"Pensem nas crianças mudas, telepáticas

Pensem nas meninas cegas, inexatas
Pensem nas mulheres rotas, alteradas
Pensem nas feridas como rosas cálidas
Mas so não se esqueça da rosa, da rosa
Da rosa de Hiroxima, rosa hereditária
A rosa radioativa estúpida e inválida
A rosa com cirrose a anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume sem rosa, sem nada"
[Vinicius de Moraes - A rosa de Hiroxima]

"Mas as pessoas na sala de jantar
Essas pessoas na sala de jantar
São as pessoas da sala de jantar
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer"
[Caetano Veloso e Gilberto Gil - Panis et circenses]

O cruzamento era perigoso e já passava das onze,
Tive que parar
Vi um menino se aproximar do carro
Bem franzino ele era...
Mas subi os vidros,
Por segurança.
Ele bateu os dedos magros na janela,
Pedindo um trocado, "qualquer coisa" falou
Mantive os vidros fechados,
Por segurança.
Ou foi medo.
Ele então se afastou maltrapilho,
Cambaleante.
De fome ou talvez fosse droga,
Quem vai saber.
O sinal abriu e eu arranquei.
Já estou em casa,
Em segurança.
Mas tanta miséria não permite que rime.
Tampouco eu.

Tão pouca, eu,
Solteira estudante residente e domiciliada,
Ré omissa flagrante e continuada,
Ante o exposto,
Denuncio-me partícipe desse diuturno crime.


Art. 135 - Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública.

Art. 29 - Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade.

*A menção aos referidos dispositivos normativos é meramente simbólica, não técnica.

domingo, 23 de janeiro de 2011

UMDIADEPOISDOOUTRODIA

Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser...
[Gonzaguinha - O que é, o que é?]

Concretar a ideia abstrata para absorvê-la



Abstrair para concretizá-la.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Vamos dançar um tango argentino?

"Mandou chamar o médico: 

- Diga trinta e três. 
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três... 
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. 
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? 
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. "
[Manuel Bandeira - Pneumotórax] 

Tem pra febre amarela e varicela
E a pior de todas: BCG -
Aquela que deixa a marca feiosa
No bracinho gordo do bebê

Da secular variola vaccinia
Agora tem até pra HPV
Inda inventaram a tal gotinha
Pra ver se parava de doer

Tem tríplices contra vírus
E outras contra polio e hepatite
No meu cartão tem proteção
Desde gripe a meningite

Mas me diga seu doutor
Onde que eu acho uma vacina contra o amor?

(variação do mesmo tema, v. Diagnóstico: paixonite)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Quadrinha nerd

Quando o burro apontou o nerd
E todo mundo deste zombou
A roda já tinha sido criada
Mas ainda assim a carroça tombou.

(Outros curtinhos na tag "alfinetes")

domingo, 9 de janeiro de 2011

Poerótica

"Face
Adulta
Adúltera
Famita
Lasciva
Nociva
Noctívaga
Que vaga
Perdida
Dentro de mim".

"Poemas e pecados. É disso que nos alimentamos no 
limbo da Terra. Do que sacia a vontade que a Igreja 
enterra. Pra gente como nós, todo verso é um grito, todo 
pecado, um rito. É a  passagem e a busca  da margem. 
O que dá aos atropófagos coragem.
[28 e 58, respectivamente- Paula Taitelbaum]

O que você fez com minhas rimas?
Meu raciocínio tá que só pensa num ritmo engraçado
De vem e vai, sobe e desce, morde e assopra.
O que será que sucedeu com as minhas meninas?
Agora são tão pobres, são toscas,
E só sabem falar de desejo...

Cadê as libélulas, as estrelas,
As palmeiras, os passarinhos,
Piu-pius, au-aus, bem-te-vis, pica-paus...
Cadê a quebrada das ondas, o silêncio das rondas
Não penso em problemas, firulas, quizombas...
Tanto menos em política, naquilo de ser canal indignado de transformação,
Senhora de mim, cheia de opinião.

Sequer me voltei para os ismos,
Cinismos, niilismos, parnasianismos, neologismos...
Onde foi parar minha enorme exigência de tempos atrás?
Meu método, minha métrica, meu jeito certinho,
Meus esquemas sonoros bem arquitetados de
"as" com "bês" e "cês" com "as"?
Só penso em morangos e champagne.
Hmm.. na curva das taças, na curva dos dedos, na curva das coxas,
E no aroma espumante que explode em um bocado de b
                          __________________________________________olh______as!
____________________________________________________________inh

Estou perdendo o foco, mais uma vez.
Então antes que pule pruma próxima estrofe cheia das mais desbocadas heresias
E desnude meus monstrinhos, minhas posições preferidas e ah... as minhas fantasias...
Assim que se recompor me diga
O que diabos você fez com as minhas rimas?

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Feliz ano de novo


Hoje já é dia 5 de janeiro do ano novo e eu sei que um texto celebrativo do ano novo está 5 dias atrasado porque o ano novo já começou com todas as suas novidades, há quase uma semana. Esse texto, só por isso, já nasce obsoleto. Não bastasse, um texto sobre anos novos em si não tem nada de novo, afinal, todos os anos novos, várias pessoas - novas e velhas - escrevem novos textos fora de moda, tempestivos ou temporões, sobre o novo ano novo recém-chegado.

Mas ora, se o ano pode ser novo todos os anos sem que, por isso, se torne ultrapassado, afonsino, carunchoso, sem graça, so last season; se as pessoas se conformam - e se confortam - em ano após ano elaborarem listas de resoluções - umas sucintas, outras bem compridas-, ainda que não sejam cumpridas, ainda que não sejam sequer lembradas; se o branco pode estar na crista da onda fashion, recheando todas as vitrines, enfeitado ora de paetês, ora de elementos rústicos, ora de itens neon, ora sem nada, só ele, branco, clássico, gelo, nude; também eu posso escrever um texto de feliz ano de novo. Mesmo atrasada. Mesmo fora de tempo, mesmo não vestindo branco, mesmo desejando as mesmas coisas de todo ano.

Então feliz ano de novo!

Feliz ano de novas oportunidades de ser feliz a cada dia. Feliz ano de novos dias longos ansiosos pelo fim de semana inatingível. Feliz ano de fins-de-semana inesquecíveis. Feliz ano de novas noites mal dormidas, feliz ano de sonos profundos, de novos sonhos, de novos despertares. Feliz ano de novas ânsias, novos medos, novas angústias. Feliz ano de novas certezas, novos impulsos, e novos arrependimentos. Feliz ano de novas conquistas. Feliz ano de novas derrotas e, com elas, feliz ano de novas superações. Feliz ano de novos cantos, de novos encantos, de novas cantadas, de novos canteiros.

Feliz ano de nova prosperidade. Feliz ano de falsa sensação de prosperidade e surpresas - não tão inesperadas assim - no fim do mês. Feliz ano de novas surpresas e de mil-e-uma novas sensações, e das sensações velhas conhecidas que nos fazem feliz, como o cheirinho inigualável da chuva, como o frescor e a liberdade do vento no rosto, como os pirilampos no estômago dos novos amores, como o conforto seguro dos maduros. Feliz ano de novas companhias, feliz ano da companhia maravilhosa das antigas companhias. Feliz ano de  novos momentos de solidão, feliz ano de novo individualismo, feliz ano de autoconhecimento. Feliz ano de novos enlaces, de novos entraves, de beijos na trave, de gols.

Feliz ano de novo horizonte, feliz ano de novas estrelas quintanescas, feliz ano de novos moinhos de vento. Feliz ano de novos pores-do-sol e de novos nasceres também. Feliz ano de renascimentos.  Feliz ano de novo, Amor! (Olha a gente aqui, Seu Amor, desejando ao senhor feliz ano de novo; vê se se cuida hein, que eu tou no seu encalço e da Dona Felicidade. Vê se dá feliz ano novo pra essa gente também!) E um feliz ano de novos amores. Feliz ano de nova renovação. Feliz ano, de novo... e sempre.