segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


Ao meu vô Daniel, 
com toda a minha saudade 
e admiração
pelos seus 82 anos
e outros tantos que virão.
 

Os avôzinhos
São feitos de uma substância
Que tem um quê de querência
Um susto de sustância
E sopro de pura infância
Contra o tique besta do relógio.

Presença de muita relevância
Dos idos tempos de criança
Em dunas, castelos de almofada e varianças
E nas danças do colégio.

Com uma firmeza que não se encerra
E uma grandeza que não se toca
Conquistou uma rainha, mundos, fundos e corações.
Ele veio lá da Meruoca
Casinha humilde meio à serra
Longe que nem um impropério.

Pois o meu vô é um caso sério
Matéria de sonhos e canções
Por tudo isso e o que não sei...

Márrapaz...
Que descoberta!
Capaz de num ser vô, mas rei!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Adomingando Descartes


Consta que o filósofo calculista disse
Penso, logo existo.
Mas logo?
Não dá pra ser só daqui a pouco?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Delírios


"Uma parte de mim
pesa, pondera
outra parte
delira.
(...)
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?"
[Ferreira Gullar - Traduzir-se]

Sobe no meu colo e grita alto.
Aperta, forte, não larga,
Encosta perto, afasta, sai coberto de razão.
Molha meu rosto com teu choro,
Mela meu corpo, me olha torto,
Me deixa louca de paixão.

Esquece o barulho dos carros, esquece os problemas vários.
Concentra na minha voz rouca gritando ais.
Supera o vazio dos loucos, degusta a loucura em tragos.
Suspira contrários, acende pavios, descumpre contratos.
Concentra na minha voz fraca te pedindo mais.

Morde minha boca, arranha minhas costas,
Me olha e me agarra como se eu fosse faltar.
Me toca com as pontas dos dedos, me puxa pelos cabelos,
Me deixa assaltada com falta de ar.

E baixinho, ao pé do ouvido,
Mais pelo gosto quente que sai de ti
Que pelas sílabas tão desalinhadas,
Cheias de peso e de marra que eu nunca engoli.
Diga que me quer e me aqueça,
Me faça mulher e perder a cabeça.

Até que a tensa cobiça que nos apavora reste por um fio
E o contexto se esqueça de nos despertar.
Até que o clímax impeça a razão de tentar intervir
E o pretexto não seja desculpa pra te maltratar.
Até que impregne teu cheiro em mim,
Não distinga contornos, não consiga falar,
Não tenha mais onde me esconder, pra onde fugir, o que alegar
E me entregue de vez.

Até que o peito ofegue alto, frouxo, manso, drogado, carente de ar,
E sucumbamos, sôfregos, num riso bobo...
Gotas de suor e delírio na tez.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Balzaquiana


Cantava tão bem
Subiam-lhe oitavas
Tantas tão claras
Na garganta alva
Que toda vizinhança
Passou a invejá-la.
(As mulheres, eu digo,
porque os maridos
às pampas excitados
de lhe ouvir os trinados,
a cada noite
em suas gordas consortes
enfiavam os bagos).
Curvadas, claudicantes
De xerecas inchadas
Maldizendo a sorte
Resolveram calar
A cantora gritante.
Certa noite... de muita escuridão
De lua negra e chuvas
Amarraram o jumento Fodão a um toco negro.
E pelos gorgomilos
Arrastaram também
A Garganta Alva
Pros baixios do bicho.
Petrificado
O jumento Fodão
Eternizou o nabo
Na garganta-tesão... aquela
Que cantava tão bem
Oitavas tão claras
Na garganta alva.

Moral da estória:
Se o teu canto é bonito,
Cuida que não seja um grito.
[Hilda Hilst - A Cantora Gritante]


Daí chegou o momento de conhecer a casa
Finamente decorada, muito estilo e bom gosto
Com toques pessoais, rústicos, cults e um ou outro santo
Da viajante madura e independente
Perfeita materialização da mulher moderna
Que aquela noite era nossa anfitriã.
No quarto, qual a surpresa dos convidados!
Sobre a cama, nas prateleiras, na mesinha da varanda
Inúmeros bichos de pelúcia amontoados.
Tantos que diante da inusitada cena,
Um curioso impertinente logo soltou:
Bichos de pelúcia han! Quem diria!
Não sabia que eras fã!
A mulher então irrompeu em colérico pranto.
Falava como uma autêntica adolescente,
Rejuvenescida em dois atos:
São todos presentes do meu ex-namorado...
Encheu o lugar com esses fofinhos, que encanto.
Entupiu o quarto e debandou, o desgraçado
Em cinco anos nunca percebeu que eu tinha alergia!