quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sabiamente


Gonçalves Dias não sabia da verdade.
Pois minha Terra tem palmeiras, meu senhor
Mas tem também bem-te-vi e beija-flor.

Saberá só o curioso sabiá
E tal e coisa, e coisa e pá.

Encurto a história pra não gastar.

Passa a semana
No contratempo
Intervalo do sempre mesmo pensamento
E eu não passo.

Mais mais mais
E faz, traz, gás
Enlaça-me como lençóis no teu abraço...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Basta


   "Estou cansado, é claro,
   Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
   De que estou cansado, não sei:
   De nada me serviria sabê-lo,
   Pois o cansaço fica na mesma.
   A ferida dói como dói
   E não em função da causa que a produziu.
   Sim, estou cansado,
   E um pouco sorridente
   De o cansaço ser só isto —
   Uma vontade de sono no corpo,
   Um desejo de não pensar na alma,
   E por cima de tudo uma transparência lúcida
   Do entendimento retrospectivo…
   E a luxúria única de não ter já esperanças?
   Sou inteligente; eis tudo.
   Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
   E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
   Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."

[Álvaro de Campos - Estou cansado]

A minha única pretensão é o fim.

Nada mais além de mim
Mas que nada além do mais
Além do que, que sou eu senão nada
E um grande nódulo de tensão no meio das costas se não nado
Falta de tesão e um velho calção de banho
Inútil deixado de lado
Uma velha canção de ninar
Que desafina e encontra seu destino junto à prateleira dos ursinhos aposentados da menina
Ora moça.

Ora, ora, moça
Desenganada, desnuda, um nada.
Fracasso até em chegar à condição de destroçada.
Não viveu desastres, não viu causas,
Só esse troço mesmo mal explicado.
E um caroço que se diz garganta e faz um barulho agravado
Dando à voz do nada um quê de rouquidão.

A voz que se dá ao nada
Que já não articula palavras
É só dor e pigarro.
(e também, com o perdão do palavreio xulo e do assunto sujo, um bocado de catarro)
Constrangimento não há
E, do contrário, se fingiria.
Só o nojinho do catarro
O entojo do pigarro
O cansaço da dor
E a vontade de reaver a voz havida um dia
Parece que faz tanto tempo...

Bom é quando a boca não serve nem pra falar!
Melhor dizendo, até serve
A gente que não se serve dela só pra esse mundano ofício de falar
Um sorriso basta
Um sorriso sempre deveria bastar.
Só que quando o beiço teima em se arquear em meia-lua pra baixo
E não adianta o quanto se tente fazer ele se virar
Sobra o que além de frustração?
O que resta é poetar
Ou calar a boca num belo de um beijo.

Pois bem,
Por bem eu falo
E falo, falo, falo
Me engasgo de tanto falar
E continuo falando
Até que a minha própria voz se trai
Se irrita de si mesma
Se enche de tamanha falação
Se esvai...

E fica só o sopro
Só o engodo
Só o trago quente e rápido de alguma bebida à mão
Sem muito esforço
Descendo em movimentos peristálticos prum intestino repleto de m
Digestão difícil e lerda
Como o nosso próprio processo de fagocitose
Digo, viver.

Dá raiva de pensar
Que tanto bom poeta
Já sofreu mais
E antes de mim!
Que não tenho nem doença daquelas incuráveis
Com algum nome bacana, polissílabo
Ou desilusão conhecida e compartilhada
Pelas mentes mais sensíveis
Mal do século
De gente seleta
De artista, de esteta
Nem que fosse só pelo modismo.

Mas é mesmo tão limitada a minha capacidade
Medíocre, até tosca toda essa tradução
Em versos que, mesmo sentidos,
Nunca serão lidos e relidos
No máximo reproduzidos por algum adolescente desesperado
Malgrado a frouxidão desse coração escangalhado
E o meu leve toque de cinismo...

Daí que da imortalidade desisti há muito
Pois imortalidade não é desse tempo
Quando a eternidade dura no máximo um "atualizar"...
Que me joguem fora então dobrada em origami!
Ou a folha bem aberta
Como são as entranhas de um poeta
Amador.

Bem que eu podia criar um pseudônimo
Talvez outro de mim
Sob outro nome autônomo
Conseguisse algum sucesso
Na tarefa que jamais se encerra
De ser palavras
E desmaterializar-se pouco a pouco
Até que não reste nada além de um toco
De árvore de tronco largo e raízes expostas sobre a terra
Atrapalhando o caminho público.

A troco de quê?
Um sorriso bobo e tosco
Bastante.