segunda-feira, 27 de junho de 2011

Segundas-feiras



"Monday has come around again
I'm in the same old place
With the same old faces always watching me 
(...)
Soon be like a man that's on the run
And live from day to day
Never needing anyone
Play hide and seek, 
Throughout the week"
[Supertramp - From now on]


Manhã que amanhece fria
Mais cedo, bem antes do que deveria

Neblina que se dissipa lenta
Bocejos com gosto recente de menta

Trabalho que se multiplica grosso
Cochilo de praxe depois do almoço

Dívidas que aguardam o próximo mês
Compasso diário de sonho com as seis

Começa tudo de novo
É segunda-feira outra vez...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sobre Júris e Pais Chicos

"Escutou-se, de repente, um disparo. Parecia mais um
relâmpago, mas um segundo tiro não nos deixou dúvidas.
Razão tinha o nosso militar: 
perante o tiro, certo ou falhado, toda a gente sempre morre".
[Mia Couto - Antes de nascer o mundo]

É semana de São João. Na minha terra, São João é época de Pai Chico e sua saga para saciar o desejo da amada Catirina, grávida e sedenta pela língua do boizinho preferido do dono da fazenda. Essa estória é recontada todos os anos em diversos sotaques, zabumba, orquestra, pandeirão, ao som dos maracás. Dançamos todos encantados, índios, pajés, vaqueiros, e os meros entusiastas como eu.  Em festa enfeitada por fogueira, bandeirinhas, barracas de palha e paetês...
Mas esses dias outro Chico me tomou a mente e, desde então, sinto-me como na obrigação de retratar sua história. Essa que não tem melodia e muito menos o brilho e as cores das fitas do bumba-meu-boi. Essa estória com h.
Pai Chico matou o boizinho. Chico matou alguns. Pai Chico matou pra alimentar a mulher grávida. A motivação íntima do outro Chico se desconhece por inteiro, mas diz-se revestida por torpeza. E parece que uma vez assim qualificado o ato, desqualifica-se o acusado na mesma proporção...
Chico não ostentava chapéu, tampouco paetês. Só uma camisa branca surrada, com um colarinho que teimava em virar pra fora, disforme, de tão velho que estava. E pensar que o colarinho branco em outros tem sentido e consequências completamente distintas... Talvez porque melhor lavado. Talvez porque o caso fosse de lavagem, mesmo.
Pai Chico recorreu a pajés, índios e caboclos para ressuscitar o boizinho precioso. Chico tinha a seu lado estudantes e advogados confiantes na sua inocência. Pai Chico lutava contra vaqueiros. Chico precisava convencer 7 cidadãos do povo, de notória idoneidade, de que apesar de não ser tão "idôneo", aquele crime não fora ele quem cometera.
Mas a dança do júri é mais cruel que o bumba-boi e segue a um triste compasso em que uma vez condenado, para sempre culpado, para sempre bandido, para sempre marginal... Ainda mais se traficante, ainda mais se homicida, ainda mais se preto, ainda mais se pobre, ainda mais se lá da estrutural...
Ê boi...

terça-feira, 21 de junho de 2011

Da sabiádoria



"Veja lá meu bem
Um sabiá cantou
Um cego foi quem viu
Um mudo repetiu
Um surdo me ouviu
Só você que não sentiu

Por amor se vive
Por amor se morre
Por amor se mata
Por amor se é
Por amor eu canto
Choro, sofro, danço
Suo e não me canso
Alivia a dor
Por amor eu sigo
No que acredito
Não me nego e digo
Assim que eu sou
Por amor eu vou."
[Gonzaguinha - Um sabiá contou]

O sabichão olhou e viu de novo,
E revirou com atenção.
Amargos segundos se passaram,
E ele disse lamentoso:
- O assunto é complicado,
Posso estar meio enganado,
Mas o tempo é apertado,
Acho eu que não dá, não.

Mal sabia o sábio homem
Que estava e muito errado
Um sabiá intrometido,
Que se viu interessado,
Outra hora havia ouvido
O joão-de-barro asseverar
Que não há lugar impróprio
Para quem queira trabalhar.

Rebole longe o tal do ópio
E vê se larga desse ócio:
Aqui quem manda é o joão-de-barro
Aqui quem sabe é o sabiá.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Noite


"Se não existisse o sol, como seria pra Terra se aquecer?
E se não existisse o mar, como seria pra natureza sobreviver?
E se não existisse o luar, o homem viveria na escuridão.
E se não existisse o luar, o homem viveria na escuridão...
E como existe tudo isso, ô meu povo
Eu vou guarnecer o meu batalhão de novo..."
[Boi da Maioba - Se não existisse o sol...]

Ah noite... 
A noite dos enamorados
Dos apaixonados
Dos encantados 
Mesma noite dos desiludidos 
Dos mal-amados 
Dos solitários corações.

Noite ainda das crianças
Do sono tranquilo
Da inocência
Do aconchego dos edredons.

É também noite dos maltrapilhos
Marginais
Violentados
Atormentados pelo frio
Pelo silêncio 
E pelo vazio
Da vida
Da noite
Do amanhã que demora demais.

Ah, noite! 
E minhas
Vívidas e 
Lívidas 
Dúvidas
Duma vida ainda pouco
Vivida
Intrépidas e
Tépidas
Dívidas
Duma vida inda há pouco
Vivida.

Noite paradoxal
Que ameaça e une
Acalenta e assusta
No descanso, tão curta
No desalento, abissal.

Pois que o dia some.
À noite, sou-me.

Desponta a luz mais nítida
Na escuridão a esmo...
Se na calada da noite
Ninguém é de ninguém
Que se seja, então, de si mesmo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Boquiaberta


"Como santo me revele como sinto como passo
Carne viva atrás da pele aqui vive-se à mingua
Não tenho papas na língua
Não trago padres na alma
Minha pátria é minha íngua
Me conheço como a palma da platéia calorosa
Eu vi o calo na rosa eu vi a ferida aberta
Eu tenho a palavra certa pra doutor não reclamar
Mas a minha mente boquiaberta
Precisa mesmo deserta
Aprender aprender a soletrar
"
[Zeca Baleiro - Piercing]

Na minha boca há
Cordas vocais inflamadas,
Gritos gritados, outros contidos,
Sussurros, gemidos e
Algumas amigdalites mal curadas.
Tem lábios rachados
De descuido, nervoso e cerrado,
Língua sem papas, igrejas, nem freios,
24 dentes remanescentes corrigidos à força,
Um beijo guardado pra ti
E um sorriso infindo.