sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Índio: que é índio?!




"Índio que é índio
Anda pelado
Ou veste tanga
Mora na floresta
Em casa de palha
Tem cara pintada
Não sai do mato
Come mandioca
Usa cocar e apito
Caça de arco e flecha
E se chama Iracema
Ou Guaraci".
Já que branco que é branco
Anda de carruagem
Viaja de caravela
Se comunica por carta
Ou pombo correio
Mora em castelo
Defende seu rei
O enviado de Deus
Usa ceroula
E fala vosmecê.

Mas índio que é índio
Anda aqui do lado
Nem tem mais floresta
Que agora é clarão
Pasto, soja ou favela
Morre de grilagem
De fome, abandono
Desespero e de guerra
Quando não consegue
Nem um pedaço de terra
Que sempre é demasiada
Pra tão pouco índio
(Se morrerem mais rápido
Dá pra economizar!)

Pois desde 1500
Quando o branco descobriu
O Brasil varonil
Lugar de índio
- "índio de verdade" -
É bem longe no mato
No museu, nos romances
Na peça do colégio 
Nas novelas da Globo
E no 19 de abril.

No resto do tempo
Nada lhe resta
Do direito de ser índio
- Leia-se de sobreviver
Já que o que é ser índio
Pelo visto quem diz
É você.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Sol majestade



Precisa ver que maravilha
É o sol pós chuva
Do outubro de Brasília
Porque brilha corajoso
Com vontade.

Até parece que na vida –
Ou até o fim da tarde –
Nunca mais irá chover.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Amplexo


... (                             Todo meu querer
É que te quero                         Enquanto amanheço
Entre parênteses                      Convexa nas côncavas
Guardados nas                         Covinhas de teu riso
Sombras do eclipse                 Que espreito no escuro
Que espreita o futuro               Pra que nos demore o tempo
E que demore o tempo            Discreto amuleto
De um beijo                             Guardadas na
Ou de uma vida                       Luz de um beijo
Todas as vidas
) ...


sábado, 4 de agosto de 2012

Chuvas de cerrado


Olha, amor!
A chuva que cai lá fora
Deixando esse cheiro no ar
Qual teu odor expressivo
Entranhado na pele da menina
Que flutua longe do chão...

Vê, amor, que furtivo!
As nuvens demoram a passar
Cheias das lágrimas que me roubaram
Cheias dos rastros de amor que deixaste
Nos cantos da cidade sem esquina
E, é claro, em meu coração...

Pois, que coisa, amar, amor!

O poeta devia estar emotivo,
Quando achou que verbo seria
De intransitiva conjugação
Ou foi só porque não havia
Testemunhado a nossa conjunção...

No cerrado, só chover é intransitivo!

Na nossa gramática
Amar é vocação
Amor é vocativo
E se presta à reunião
Dos corpos uma vez apartados
Por ironia ou desígnio dos astros
Porém unos por definição.

Mas olha, amor!
Lá fora, a chuva que cai...

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Escarlate tropicália


"Como amar esposa
Disse ele que agora
Só me amava como esposa
Não como star
Me amassou as rosas
Me queimou as fotos
Me beijou no altar

Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz"
[Chico - A história de Lily Braun]

Foi de vermelho
Que pintou-lhe as unhas
Despudorada que só ela
Com as longas garras afiadas
Cravadas no casco d'uma Stella.

Escarlate cor nos lábios
Rente ao copo, rente ao corpo
Estes pequenos grandes lábios
Levemente arroxeados
Os dentes brancos
A língua rija
Molhando os dedos que folheiam os alfarrábios
E lhe percorrem entumecidos rumo ao inferno
Ou ao interno astrolábio.

São dedos de guitarrista
Tocam rock dum dum dum
Geram da cevada mais o vinho
Nem borboletas, nem pirilampos
Senão relâmpagos que despencam no estômago
Explodem em choque anafilático
Percorrem todo o âmago e inda
Desbravam sem que matem na batalha
A mata atlântica tropicália
Que é vermelha
Ela também!
Quente e úmida
Quente e úmida...

Vão rumo ao estreito sul
Onde, entocada, a muralha
Segue impávida-pálida
Intocada pelo sol
E sobre as faces,
Essas rubras,
Resta o disfarce
Da dissimulada da Amália
Puro, casto e angelical.

Quente e úmida
            Quente e úmida....

domingo, 15 de abril de 2012

Ficar com certeza maluco beleza

"Misturarei anáguas de viúva
Com tampinhas de pepsi e fanta uva
Um penico com água da última chuva,
Ampolas de injeção de penicilina

Desmaterializando a matéria
Com a arte pulsando na artéria
Boto fogo no gelo da Sibéria
Faço até cair neve em Teresina
Com o clarão do raio da silibrina
Desintegro o poder da bactéria"
[Zeca Baleiro - Bienal]

Acho que chega de ensaio. O início de toda prosa requer a conjugação violenta de aquecimento e impulso. Calor, pulsão. Tanto que larguei a temperatura amena da varanda por mangas compridas e algum abafamento. Que me abafasse por fora e liberasse por dentro toda essa calefação. Autores amadores - e amantes, e atores - compartilham esse quê de firme indecisão. Começaria, assim, com uma frase de efeito ou um título curioso que pouco tivesse a ver com o conteúdo do restante. Como uma cantada perfeita ou a entrada contundente no palco a calar a audiência ou lhe arrancar palmas. Ou almas, com sorte.

Fato é que estas mal traçadas linhas vêm sendo maturadas já há alguns dias. Desde que, andando sozinha, a céu aberto, de repente ouço tilintar e vejo semi-quicar no chão um parafuso preto de cerca de cinco centímetros que realmente não tinha de onde ter saído. O puro retrato da ironia escancarada. Eu, caminhando, a céu aberto, e um parafuso. Do nada. No chão.

Olhei para baixo com surpresa e rindo da inusitada situação. Então para cima. Para baixo. Para os lados. De fato não havia sinais de onde o parafuso tivesse se desprendido. Salvo da minha cabeça, claro, essa conclusão infame também me veio de imediato.

Mas, de onde? A que porca cerebral corresponderia aquele pequeno pedaço de metal fundido e levemente enferrujado? Todos esses dias essa indagação estúpida e levemente nerd vez por outra despontava.

Diz que o principal hemisfério cerebral, em quase todos os seres humanos, é o esquerdo, que controla o pensamento lógico e a competência comunicativa, enquanto o simbolismo e a criatividade ficariam a cargo do lado direito do cérebro. Pois pronto. A completa incapacidade de narrar o dia em que um parafuso caiu da minha cabeça poderia ser explicada por uma pane geral em qualquer um dos meus dois hemisférios. E isso sem falar nos córtex, no hipotálamo, nos lobos, na amígdala... A ironia só aumentava.

Só que nada disso mais importa. Porque há cerca de vinte e sete minutos, quando finalmente me sentei, de mangas compridas listradas cor de rosa, morta de calor, em frente ao computador, decidida a filosofar sobre o famigerado parafuso, achei que estivesse chegado a alguma frase de efeito bacana para iniciar esse texto, levantei para pegar o parafuso - que obviamente havia guardado (para a posteridade ou alguma intervenção cirúrgica que vai que fosse necessária)-, este havia se desintegrado. Sumiu. Tomodoriu. Escafedeu-se.

Pois pronto. Fui condenada a ficar com um parafuso a menos pro resto da vida. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

A casa, a cama e a sexta-feira a noite

Vai chovendo e vou ficando velha demais pra ser jovem.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Esplanada

Eu sou surfista do Lago Paranoá
Eu sei que o Havaí não é aqui, que o mar está longe daqui
Mas pra quê que eu quero o mar se tenho o lago pra mim
[Natiruts - Surfista do Lago Paranoá]


Faz sol
Na
Esplanada

Daqui do alto
Do nono andar
Do primeiro prédio
Do lado esquerdo
De quem olha de frente
Para o Congresso
Vê-se o mar

Que no Planalto
É represado
Meio poluído
Quase restrito
Aos bem nascidos
Da capital
Mas brilha azul
E tem jacaré

Corre o burocrata
Com a pasta debaixo do braço
A coragem vai dentro da pasta
Será?

Corre que hoje é quarta
E tem sessão
Desabotoa o paletó
Que tá calor

Faz

Na
Ex
Pra
Nada

quinta-feira, 1 de março de 2012

Capítulo XXII: Queda e ascensão do Império Humano


"Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?"
[Paulinho Moska - A Seta e o Alvo]

Controle-se, controle-se, controle-se. 

A sensação que eu tenho é que boa parte do tempo, nos últimos tempos (ou em todos os tempos dessa vida curta), a gente perde um bom tempo ouvindo essa autosequência mandona, teimosa e semipsicótica ordenando que se controle. 
Controle impulsos, controle pulsões, controle, sobretudo, qualquer ímpeto vagabundo de achar que se vive num mundo panda repleto de flores onde você finalmente pode se deixar descontrolar, um pouco, aos poucos, aos muitos, que lindo!
Tem algo mais bonito que isso de saltar rumo ao nada?! 
Exceto quando você pára pra pensar que... pera, o que diabos você tá pensando? Rumo ao NADA. 
Se não tem nada lá, por que diabos você vai saltar?! Só porque você não é mais um pré-adolescente desengonçado, eventualmente com óculos de lentes fotocromáticas, aparelho ortodôntico, canelas finas e/ou uma pochete térmica da Sadia na cintura, não significa que você virou uma borboleta e ganhou asas! Não, querido. Você pode até ter saído do casulo, mas asas tendo levemente a achar que ainda não desenvolveu… Você esqueceu que aquela mesma música lá do começo (aquela mesma que faz você se sentir pseudorevolucionário e destemido por postar no facebook) traz já nos primeiros versos "eu falo de amor à vida".
Você quer cair, por acaso? Então, quer saltar por que mesmo?
A verdade é que ninguém salta pela queda. Pelo menos não ninguém normal. Tudo bem. Pelo menos não ninguém que eu ache normal. E eu acho que eu tenho uns achismos bem certeiros (mamãe também!).
Parece-me mais razoável que a gente salte pela chegada ao chão. Ou uma cama elástica que nos permita ficar indefinidamente saltando e voltando ao chão, instável, mas chão. Ou - e aí vou soar eu agora como aquela pré-adolescente ingênua e romântica que ainda acha que um dia virará borboleta - pela esperança de por algum motivo mágico cósmico ficar flutuando no ar…
Quem salta pela queda, desculpem leitores que acreditam na beleza da incerteza dos caminhos, é suicida. Mesmo porque não há nada de incerto em cair. O fim é bem certo, óbvio e inarredável: dar de cara no chão.

(Mas aí controle-se. E, pelo amor, não faça corpo mole e se levante logo pra começar o quanto antes a subir de novo rumo aos futuros saltos.)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Saudade



Meu primo, Telinho, nosso pequeno bon vivant,
vai com Deus e descanse em paz... 
Cuidaremos dos seus.


Não há lugar mais vazio no mundo que um cemitério.
Nem toda dor, que preenche até transbordar os corações dos presentes
Nem o semblante tranquilo, que ao olhar descuidado - e ao esperançoso, incrédulo -
até parece dormir, de quem se vai
Nem as coroas de flores que emolduram e amontoam-se pelas paredes
Nem a lágrima, nem o grito, nem o silêncio
Nem a tristeza embalada a vácuo
Nada, nada, nada…

Não há lugar mais vazio no mundo que um cemitério
Porque ele todo é feito de ausências...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Para Ju

Que ainda não sabe ler
(Mas é sabida que só!)

"É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr
E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter"
[Vinícius de Moraes - O filho que eu quero ter]

Recostada ela cochila em meu ventre
Com dedos passeio nos cabelos seus
Quisera restar aqui para sempre
Na doce companhia - e macia! - destes camafeus.

Admirada suspiro tranquila
Quase esqueço a hora do adeus
Inebriada pela camomila
Que exala e enfeitiça nobres e plebeus.

És do mundo a oitava maravilha
Perfeita obra prima de Deus.

Te chamo, meu bem, quase filha
Te amo muito mais do que eu...

domingo, 8 de janeiro de 2012

Bodas de prata




(A pedidos, aqui vai a mensagem que falei aos meus pais na missa de bodas de prata, no último dia 6).

Boa noite a todos os amigos aqui presentes. Boa noite pai, mãe.
                                        
Eis que recebi a importante tarefa de falar sobre os 25 anos de casamento de meus pais. Em princípio pensei, bom, destes 25 anos, vivenciei e testemunhei 22, quase a totalidade. Isso deveria me dar alguma tranquilidade e muita propriedade para tratar do assunto. Rapidamente, porém, com alguma reflexão, os 22 passaram a ser apenas 10, cujas lembranças eram mais vívidas e quando a minha idade não tão tenra já me permitia de fato apreender, em lições diárias, o que torna esse casamento tão especial... Lembro que uma vez perguntei pra mamãe a receita, ao que ela me respondeu: "Ahh minha filha, só o que sustenta uma relação por tanto tempo é respeito, admiração e muito amor".

Mas ora! Amor é o tipo da coisa que criança talvez saiba bem melhor que adultos. E amor eu conheço desde o comecinho da vida. Salva pelo gongo!

Há alguns anos foi feita uma pesquisa com crianças de 4 a 8 anos sobre a definição de amor. Uma das respostas mais interessantes foi que amor é quando você fala para alguém algo ruim sobre si mesmo e sente medo que essa pessoa não venha a te amar por saber disso, aí você se surpreende, porque a pessoa não só continua te amando, como agora te ama mais ainda. Pois já há algum tempo venho achando que a gente se apaixona não pelas qualidades das pessoas, mas pelos defeitos. É quando as falhas, que todos temos, tornam-se toleráveis, admissíveis e até engraçadinhas, encantadoras, que o amor floresce.

Sinto decepcionar aqueles que ainda estão em busca de seu par perfeito, mas, cada vez mais, parece-me que amores perfeitos não existem. Primeiro porque somos todos imperfeitos. Depois, o amor, para dar certo, é sempre incompleto, pois demanda que sejam depositadas novas doses de amor todos os dias; e é assim, nesse permanente e constante processo de completar-se, que se revela pleno.

Há 25 anos, meus pais se amam todos os dias. Amam e admiram as inúmeras qualidades que saltam aos olhos em um e outro e aquelas mais escondidas, que requerem segundos, terceiros, vigésimos quintos olhares... E amam e respeitam as pequenas falhas que vez por outra despontam. Amam-se na imperfeição que nos torna humanos. Amam a imperfeição que torna o próprio amor possível.

Mas aos meus olhos de filha, apaixonada aprendiz, eles ainda são um casal de super-heróis, um romântico par shakespeariano, um casal protagonista de comédias românticas ou novelas das nove... E eu os amo, admiro e respeito, absolutamente.