terça-feira, 3 de novembro de 2015

Pragmático


Eu não tenho tempo
Eu não sei voar
Dias passam como nuvens
Em brancas nuvens
Eu não vou passar
[Zeca Baleiro - Não tenho tempo]

O diagnóstico foi pragmatismo

Mal súbito
Sintomático de versos nublados
Randômicos e mal dispostos
Num guardanapo de avião usado

Porque deveras há poesia em guardanapos
Na modernidade dos Antônios
Ou nas marcas de beijos desde a brilhante ideia de colorir os lábios

Cada resto de batom num guardanapo traz em si uma poesia inteira
Qualquer resto limpado do canto dos lábios
Mas que tenha cor

A poesia é a libertação do pragmático
É o distintivo entre o asfixiado e o asmático
Só o segundo vive

Lá fora o céu azul encomprida
Preenche os espaços de infinitude
E o pássaro de ferro que me transporta
Me carrega pra mais perto de mim

É preciso perceber pra sentir
O céu colorindo o sorriso de azul

terça-feira, 31 de março de 2015

O que separa os meninos dos homens

Autoproclamam-se eles
Vestidos em ternos
Os homens de bem

Os homens de bem
Vociferam uma cólera eterna
Travestidos de defensores
Mas de quem?

Dizem deles
Os meninos mal vestidos
Vieram direto do inferno

Dizem
Longe deles
O mais longe possível deles

Bradam
- Instrumentos do mal!
- Não são mais crianças!
- Redução da maioridade penal!
- Não são mais crianças!
- São monstros!
- Não são mais crianças!

Os meninos duvidam
Resistem à certeza medonha
Resistência é sina
Desconfiar, esperança

Se lhes fosse dada a palavra
Talvez perguntassem
- Senhor homem de bem
Que dia foi esse
Que a gente era criança?