Tecendo a manhã - João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

2 comentários:

  1. "Cacarejos tecelões". Sempre gostei dessa figura. O poema do JC explora bem a idéia, mas acho que seria interessante pensar outras figuras nessa mitologia.

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  2. Às vezes penso que nada pode ser maior que a literatura brasileira.

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