segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Bailarina


Era uma vez uma menina qualquer.

Apaixonada, desiludida,
Chorosa, carente,
Que se achava bastante mulher.
Só se via, se era,
Vivia ao seu lado.
Só dançava seu fado.
Privada da sua convivência,
Aguardaria com toda a paciência
E seu jeito doce meio abnegado
Virgem sem um pingo de pecado
Outra chance de lhe deslumbrar.

Olhe como ela equilibra franzina esse fardo!
Enquanto rodopia nas pontas dos dedos do pé
Tamanho 33 -
Diga como Bandeira trinta e três... trinta e três... trinta e três...
E respire. E suspire.
Não parece mulher o bastante
Não passa outra vez
De só uma menina qualquer.
Mas como ela nos fascina!
Enquanto se aproxima
Nessa tenra pantomina
Com essa suave timidez...

É jovem moça e de belos traços dourados praianos.
Ou será cachoeira, ou mesmo piscina,
Ou rio Paranoá represado em lago
Na falta que faz oceano...
Mas quanta languidez!
Plácida, ora embota, até que flutua na lama.
Sem nascente, sem curso, sem rumo,
Segue sem desembaraço
Em seu encalço
Em lentos e tristes passos
Em errantes e lazarentos passos
Em certeiros e apaixonantes tropeços
Em direção ao tormento da foz.

Eis que serelepe ela rodopia
Rodopia, rodopia...
É mais uma vez uma linda bailarina!
Não há palavra que exprima
Tamanha beleza traquina
Façanha que faz a intensa menina
Que ensaia transbordar-se na densa mata
Formando igapós...

Ela desce, ela dança, ela flutua acima 
Com todos os possíveis compassos
E domina cada pedaço do palco
Tomando pra si também o aeroespaço
Sem que causasse qualquer estardalhaço
Ainda que risse mais risos do que todos nós.

Então sói soltarem-se os laços
Então desce a cortina feroz
Ao que os mortais
Mortificados em transe
Timidamente aplaudimos
Sem voz...