quinta-feira, 26 de abril de 2012

Escarlate tropicália


"Como amar esposa
Disse ele que agora
Só me amava como esposa
Não como star
Me amassou as rosas
Me queimou as fotos
Me beijou no altar

Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz"
[Chico - A história de Lily Braun]

Foi de vermelho
Que pintou-lhe as unhas
Despudorada que só ela
Com as longas garras afiadas
Cravadas no casco d'uma Stella.

Escarlate cor nos lábios
Rente ao copo, rente ao corpo
Estes pequenos grandes lábios
Levemente arroxeados
Os dentes brancos
A língua rija
Molhando os dedos que folheiam os alfarrábios
E lhe percorrem entumecidos rumo ao inferno
Ou ao interno astrolábio.

São dedos de guitarrista
Tocam rock dum dum dum
Geram da cevada mais o vinho
Nem borboletas, nem pirilampos
Senão relâmpagos que despencam no estômago
Explodem em choque anafilático
Percorrem todo o âmago e inda
Desbravam sem que matem na batalha
A mata atlântica tropicália
Que é vermelha
Ela também!
Quente e úmida
Quente e úmida...

Vão rumo ao estreito sul
Onde, entocada, a muralha
Segue impávida-pálida
Intocada pelo sol
E sobre as faces,
Essas rubras,
Resta o disfarce
Da dissimulada da Amália
Puro, casto e angelical.

Quente e úmida
            Quente e úmida....

domingo, 15 de abril de 2012

Ficar com certeza maluco beleza

"Misturarei anáguas de viúva
Com tampinhas de pepsi e fanta uva
Um penico com água da última chuva,
Ampolas de injeção de penicilina

Desmaterializando a matéria
Com a arte pulsando na artéria
Boto fogo no gelo da Sibéria
Faço até cair neve em Teresina
Com o clarão do raio da silibrina
Desintegro o poder da bactéria"
[Zeca Baleiro - Bienal]

Acho que chega de ensaio. O início de toda prosa requer a conjugação violenta de aquecimento e impulso. Calor, pulsão. Tanto que larguei a temperatura amena da varanda por mangas compridas e algum abafamento. Que me abafasse por fora e liberasse por dentro toda essa calefação. Autores amadores - e amantes, e atores - compartilham esse quê de firme indecisão. Começaria, assim, com uma frase de efeito ou um título curioso que pouco tivesse a ver com o conteúdo do restante. Como uma cantada perfeita ou a entrada contundente no palco a calar a audiência ou lhe arrancar palmas. Ou almas, com sorte.

Fato é que estas mal traçadas linhas vêm sendo maturadas já há alguns dias. Desde que, andando sozinha, a céu aberto, de repente ouço tilintar e vejo semi-quicar no chão um parafuso preto de cerca de cinco centímetros que realmente não tinha de onde ter saído. O puro retrato da ironia escancarada. Eu, caminhando, a céu aberto, e um parafuso. Do nada. No chão.

Olhei para baixo com surpresa e rindo da inusitada situação. Então para cima. Para baixo. Para os lados. De fato não havia sinais de onde o parafuso tivesse se desprendido. Salvo da minha cabeça, claro, essa conclusão infame também me veio de imediato.

Mas, de onde? A que porca cerebral corresponderia aquele pequeno pedaço de metal fundido e levemente enferrujado? Todos esses dias essa indagação estúpida e levemente nerd vez por outra despontava.

Diz que o principal hemisfério cerebral, em quase todos os seres humanos, é o esquerdo, que controla o pensamento lógico e a competência comunicativa, enquanto o simbolismo e a criatividade ficariam a cargo do lado direito do cérebro. Pois pronto. A completa incapacidade de narrar o dia em que um parafuso caiu da minha cabeça poderia ser explicada por uma pane geral em qualquer um dos meus dois hemisférios. E isso sem falar nos córtex, no hipotálamo, nos lobos, na amígdala... A ironia só aumentava.

Só que nada disso mais importa. Porque há cerca de vinte e sete minutos, quando finalmente me sentei, de mangas compridas listradas cor de rosa, morta de calor, em frente ao computador, decidida a filosofar sobre o famigerado parafuso, achei que estivesse chegado a alguma frase de efeito bacana para iniciar esse texto, levantei para pegar o parafuso - que obviamente havia guardado (para a posteridade ou alguma intervenção cirúrgica que vai que fosse necessária)-, este havia se desintegrado. Sumiu. Tomodoriu. Escafedeu-se.

Pois pronto. Fui condenada a ficar com um parafuso a menos pro resto da vida.