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terça-feira, 12 de julho de 2016
Florescência - parte II
se tivesse que esboçar
uma prece em
pleno inverno
seria chuva de verão
flores róseas pelo chão
e um poema diminuto
se possível apetece que
entornasse em temporal
esse cerrado enxuto
e então serenasse
florescesse
e serenasse
num minuto
relampeasse
aquiescesse
e desse fruto
mais não carece
só mesmo que fosse
absoluto
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Crônica interior
"Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar"
[Ferreira Gullar - Poema Sujo
Villa Lobos - O trenzinho do caipira]
Caminhava a vida
Vagarosa e engarrafada
Até que se deu conta no passar desimpedido
De mais um vagão de trem
Contei já uns trinta
Devem ser bem de ferro
Que nem a caneca esmaltada
De café quente que dá nessas bandas e se toma sem pressa
Vai ficando longe o trenzinho
São poucos nesses dias
É que na capital ainda ontem se falava
Em importar crescimento acimentado e rodovias
E os horizontes
Haverão de ser mais limitados
Ou verdadeiramente além
Se posso contemplá-los por todos os lados?
Me importam mais as cotovias...
Caminha a vida caminhão
Aproveita a paz das pistas únicas
No interior
Ainda há tempo...
sábado, 27 de abril de 2013
Um soneto de amor
"O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo
(...)"
Gregório de Matos - Ao braço do Menino Jesus quando apareceu
Eu te dizia 'te adoro' no começo(...)"
Gregório de Matos - Ao braço do Menino Jesus quando apareceu
Se bem me lembro caçoavas
Muito teísta, reconheço, e
Incompatível com o furor que me causavas.
Se encarcerado o sentimento,
Pela impropriedade das palavras,
Incontido, rebelou-se no momento
Em que tornaste a questionar-me se dançava.
Desde então, contigo danço
Os mais doces leves passos
Rodopiando pelas toadas.
Enfim, descanso nos teus braços
E religiosamente me declaro
Por ti inteira apaixonada.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Heranças
São dela a pele alva
O nariz afilado
As sobrancelhas
Pouco arqueadas
O andar firme
De quem pisa
Nas aflições
E as recolhe todas
Coloca nas costas
Entalha nos corações
Carrega consigo
Adiante, além
A voz agravada
É dela também
A boca que não pega batom
O estômago fraco
O sono leve
O fogo na verve
O pragmatismo
Um ingênuo otimismo
Um perene saudosismo
Aguente, avante, amém
Um perene saudosismo
Aguente, avante, amém
Se deveras quem
Segue os seus
Não degenera
Está posto
No rosto, na alma,
No jeito, nos gostos
Todo amanhã
Que me espera
Segue os seus
Não degenera
Está posto
No rosto, na alma,
No jeito, nos gostos
Todo amanhã
Que me espera
Em todo recomeço
De primavera
De primavera
Com toda urgência
Toda querela
Toda querela
Sou todo o tudo
Que ela
Me dera
Só me resta
Dizer quem me dera
Dizer quem me dera
Te ser
Mãe
Ai, quem me dera...
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Amplexo
... ( Todo meu querer
É que te quero Enquanto amanheço
Entre parênteses Convexa nas côncavas
Guardados nas Covinhas de teu riso
Sombras do eclipse Que
espreito no escuro
Que espreita o futuro Pra
que nos demore o tempo
E que demore o tempo Discreto
amuleto
De um beijo Guardadas
na
Ou de uma vida Luz de um beijo
Todas as vidas
) ...sábado, 4 de agosto de 2012
Chuvas de cerrado
Olha, amor!
A chuva que cai lá fora
Deixando esse cheiro no ar
Qual teu odor expressivo
Entranhado na pele da menina
Que flutua longe do chão...
Vê, amor, que furtivo!
As nuvens demoram a passar
Cheias das lágrimas que me roubaram
Cheias dos rastros de amor que deixaste
Nos cantos da cidade sem esquina
E, é claro, em meu coração...
Pois, que coisa, amar, amor!
O poeta devia estar emotivo,
Quando achou que verbo seria
De intransitiva conjugação
Ou foi só porque não havia
Testemunhado a nossa conjunção...
No cerrado, só chover é intransitivo!
Na nossa gramática
Amar é vocação
Amor é vocativo
E se presta à reunião
Dos corpos uma vez apartados
Por ironia ou desígnio dos astros
Porém unos por definição.
Mas olha, amor!
Lá fora, a chuva que cai...
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Escarlate tropicália
Disse ele que agora
Só me amava como esposa
Não como star
Me amassou as rosas
Me queimou as fotos
Me beijou no altar
Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz"
[Chico - A história de Lily Braun]
Foi de vermelho
Que pintou-lhe as unhas
Despudorada que só ela
Com as longas garras afiadas
Cravadas no casco d'uma Stella.
Escarlate cor nos lábios
Rente ao copo, rente ao corpo
Estes pequenos grandes lábios
Levemente arroxeados
Os dentes brancos
A língua rija
Molhando os dedos que folheiam os alfarrábios
E lhe percorrem entumecidos rumo ao inferno
Ou ao interno astrolábio.
São dedos de baixista
Tocam rock dum dum dum
Geram da cevada mais o vinho
Nem borboletas, nem pirilampos
Senão relâmpagos que despencam no estômago
Explodem em choque anafilático
Percorrem todo o âmago e inda
Desbravam sem que matem na batalha
A mata atlântica tropicália
Que é vermelha
Ela também!
Quente e úmida
Quente e úmida...
Vão rumo ao estreito sul
Onde, entocada, a muralha
Segue impávida-pálida
Intocada pelo sol
E sobre as faces,
Essas rubras,
Resta o disfarce
Da dissimulada da Amália
Puro, casto e angelical.
Quente e úmida
Quente e úmida....
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Dos romances findos
E quando escutar um samba-canção.
Assim como: "Eu preciso aprender a ser só".
Reagir e ouvir o coração responder:
"Eu preciso aprender a só ser."
[Gilberto Gil - Eu preciso aprender a só ser]
Com o tempo e alguma experiência,
Constata-se que romance encerrado
É processo arquivado:
Só serve de jurisprudência.
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alfinetes,
Confissões de um projeto de jurista,
eu-amante
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Dor de amor de um desalmado
Ah, meu coração quem nunca amou
Não merece ser amado
Vai meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade
[Vinícius e Tom - Insensatez]
Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risadas do grande amor
MENTIRA
[Chico - Samba do Grande Amor]
[Vinícius e Tom - Insensatez]
Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risadas do grande amor
MENTIRA
[Chico - Samba do Grande Amor]
- Mas é claro que eu sei que toda dor de amor, como tudo, um dia passa...
...acontece que eu não gosto de passar.
domingo, 10 de julho de 2011
Desmedida
"Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea
Seu par, sua irmã
Eu sou seu incesto
Sou igual a você
Eu nasci pra você
Eu não presto
Eu não presto"
[Chico Buarque - Sob medida]
Verdade que te deixo com vontade
E um gostinho de sempre quero
E por mais que queira
Nem sempre supro
E por mais que arda
Nem sempre sopro
E quando o corpo reclama
A boca retrai, e ai!
Mordo a língua
E nem dói tanto
O frio bate
E nem tem manto
Sou ser humano
Não sou santo!
Quanto mais te quero
Mais te afasto
E te busco
E me escondo
Eu maltrato
Te cuidando
Eu te aprovo
Não falando
Eu te testo
Não sei se te amo
Sei bem que eu não presto.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Sabiamente
Gonçalves Dias não sabia da verdade.
Pois minha Terra tem palmeiras, meu senhor
Mas tem também bem-te-vi e beija-flor.
Saberá só o curioso sabiá
E tal e coisa, e coisa e pá.
Encurto a história pra não gastar.
Passa a semana
No contratempo
Intervalo do sempre mesmo pensamento
E eu não passo.
Mais mais mais
E faz, traz, gás
Enlaça-me como lençóis no teu abraço...
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Basta
"Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."
[Álvaro de Campos - Estou cansado]
A minha única pretensão é o fim.
Nada mais além de mim
Mas que nada além do mais
Além do que, que sou eu senão nada
E um grande nódulo de tensão no meio das costas se não nado
Falta de tesão e um velho calção de banho
Inútil deixado de lado
Uma velha canção de ninar
Que desafina e encontra seu destino junto à prateleira dos ursinhos aposentados da menina
Ora moça.
Ora, ora, moça
Desenganada, desnuda, um nada.
Fracasso até em chegar à condição de destroçada.
Não viveu desastres, não viu causas,
Só esse troço mesmo mal explicado.
E um caroço que se diz garganta e faz um barulho agravado
Dando à voz do nada um quê de rouquidão.
A voz que se dá ao nada
Que já não articula palavras
É só dor e pigarro.
(e também, com o perdão do palavreio xulo e do assunto sujo, um bocado de catarro)
Constrangimento não há
E, do contrário, se fingiria.
Só o nojinho do catarro
O entojo do pigarro
O cansaço da dor
E a vontade de reaver a voz havida um dia
Parece que faz tanto tempo...
Bom é quando a boca não serve nem pra falar!
Melhor dizendo, até serve
A gente que não se serve dela só pra esse mundano ofício de falar
Um sorriso basta
Um sorriso sempre deveria bastar.
Só que quando o beiço teima em se arquear em meia-lua pra baixo
E não adianta o quanto se tente fazer ele se virar
Sobra o que além de frustração?
O que resta é poetar
Ou calar a boca num belo de um beijo.
Pois bem,
Por bem eu falo
E falo, falo, falo
Me engasgo de tanto falar
E continuo falando
Até que a minha própria voz se trai
Se irrita de si mesma
Se enche de tamanha falação
Se esvai...
E fica só o sopro
Só o engodo
Só o trago quente e rápido de alguma bebida à mão
Sem muito esforço
Descendo em movimentos peristálticos prum intestino repleto de m
Digestão difícil e lerda
Como o nosso próprio processo de fagocitose
Digo, viver.
Dá raiva de pensar
Que tanto bom poeta
Já sofreu mais
E antes de mim!
Que não tenho nem doença daquelas incuráveis
Com algum nome bacana, polissílabo
Ou desilusão conhecida e compartilhada
Pelas mentes mais sensíveis
Mal do século
De gente seleta
De artista, de esteta
Nem que fosse só pelo modismo.
Mas é mesmo tão limitada a minha capacidade
Medíocre, até tosca toda essa tradução
Em versos que, mesmo sentidos,
Nunca serão lidos e relidos
No máximo reproduzidos por algum adolescente desesperado
Malgrado a frouxidão desse coração escangalhado
E o meu leve toque de cinismo...
Daí que da imortalidade desisti há muito
Pois imortalidade não é desse tempo
Quando a eternidade dura no máximo um "atualizar"...
Que me joguem fora então dobrada em origami!
Ou a folha bem aberta
Como são as entranhas de um poeta
Amador.
Bem que eu podia criar um pseudônimo
Talvez outro de mim
Sob outro nome autônomo
Conseguisse algum sucesso
Na tarefa que jamais se encerra
De ser palavras
E desmaterializar-se pouco a pouco
Até que não reste nada além de um toco
De árvore de tronco largo e raízes expostas sobre a terra
Atrapalhando o caminho público.
A troco de quê?
Um sorriso bobo e tosco
Bastante.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Pá de cal
Não merece ser amado."
[Tom Jobim e Vinícius de Moraes - Insensatez]
[Tom Jobim e Vinícius de Moraes - Insensatez]
Feito cal jogada no breu
Na calada da noite
Tanto calando-se-nos
Disse ele e, então, eu...
Agora me falta-lhe o fôlego.
Desfeitos nesse mudo açoite
De verborrágicos suspiros
Trôpegos
Desconfiados descortinam-se todos
Dando vazão a um sinestésico grito.
Que na ausência das palavras
Certezas críveis e estruturadas
Sobra o inexprimível.
E, por hora, com ele me deito.
sábado, 19 de março de 2011
Tosado
"Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo
Em mim"
[Caetano - Coração Vagabundo]
eu
queria
uma
vez
viver
um
amor
em
prosa
,
,
mas
o
danado
só
me
vem
em
versinho
:
:
pelado
magrinho
e se
achando
o
tal
.
sabe
cãozinho
de
madame
na
volta
da
tosa
?
pois
bem
-
igual
!
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Delírios
"Uma parte de mim
pesa, pondera
outra parte
delira.
(...)
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?"
[Ferreira Gullar - Traduzir-se]
Sobe no meu colo e grita alto.
Aperta, forte, não larga,
Encosta perto, afasta, sai coberto de razão.
Molha meu rosto com teu choro,
Mela meu corpo, me olha torto,
Me deixa louca de paixão.
Esquece o barulho dos carros, esquece os problemas vários.
Concentra na minha voz rouca gritando ais.
Supera o vazio dos loucos, degusta a loucura em tragos.
Suspira contrários, acende pavios, descumpre contratos.
Concentra na minha voz fraca te pedindo mais.
Morde minha boca, arranha minhas costas,
Me olha e me agarra como se eu fosse faltar.
Me toca com as pontas dos dedos, me puxa pelos cabelos,
Me deixa assaltada com falta de ar.
E baixinho, ao pé do ouvido,
Mais pelo gosto quente que sai de ti
Que pelas sílabas tão desalinhadas,
Cheias de peso e de marra que eu nunca engoli.
Diga que me quer e me aqueça,
Me faça mulher e perder a cabeça.
Até que a tensa cobiça que nos apavora reste por um fio
E o contexto se esqueça de nos despertar.
Até que o clímax impeça a razão de tentar intervir
E o pretexto não seja desculpa pra te maltratar.
Até que impregne teu cheiro em mim,
Não distinga contornos, não consiga falar,
Não tenha mais onde me esconder, pra onde fugir, o que alegar
E me entregue de vez.
Até que o peito ofegue alto, frouxo, manso, drogado, carente de ar,
E sucumbamos, sôfregos, num riso bobo...
Gotas de suor e delírio na tez.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Vamos dançar um tango argentino?
"Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. "
[Manuel Bandeira - Pneumotórax] Tem pra febre amarela e varicela
E a pior de todas: BCG -
Aquela que deixa a marca feiosa
No bracinho gordo do bebê
Da secular variola vaccinia
Agora tem até pra HPV
Inda inventaram a tal gotinha
Pra ver se parava de doer
Tem tríplices contra vírus
E outras contra polio e hepatite
No meu cartão tem proteção
Desde gripe a meningite
Mas me diga seu doutor
domingo, 9 de janeiro de 2011
Poerótica
"Face
Adulta
Adúltera
Famita
Lasciva
Nociva
Noctívaga
Que vaga
Perdida
Dentro de mim".
"Poemas e pecados. É disso que nos alimentamos no
limbo da Terra. Do que sacia a vontade que a Igreja
enterra. Pra gente como nós, todo verso é um grito, todo
pecado, um rito. É a passagem e a busca da margem.
O que dá aos atropófagos coragem.
[28 e 58, respectivamente- Paula Taitelbaum]
Adulta
Adúltera
Famita
Lasciva
Nociva
Noctívaga
Que vaga
Perdida
Dentro de mim".
"Poemas e pecados. É disso que nos alimentamos no
limbo da Terra. Do que sacia a vontade que a Igreja
enterra. Pra gente como nós, todo verso é um grito, todo
pecado, um rito. É a passagem e a busca da margem.
O que dá aos atropófagos coragem.
[28 e 58, respectivamente- Paula Taitelbaum]
O que você fez com minhas rimas?
Meu raciocínio tá que só pensa num ritmo engraçado
De vem e vai, sobe e desce, morde e assopra.
O que será que sucedeu com as minhas meninas?
Agora são tão pobres, são toscas,
E só sabem falar de desejo...
Cadê as libélulas, as estrelas,
As palmeiras, os passarinhos,
Piu-pius, au-aus, bem-te-vis, pica-paus...
Cadê a quebrada das ondas, o silêncio das rondas
Não penso em problemas, firulas, quizombas...
Tanto menos em política, naquilo de ser canal indignado de transformação,
Senhora de mim, cheia de opinião.
Sequer me voltei para os ismos,
Cinismos, niilismos, parnasianismos, neologismos...
Cinismos, niilismos, parnasianismos, neologismos...
Onde foi parar minha enorme exigência de tempos atrás?
Meu método, minha métrica, meu jeito certinho,
Meus esquemas sonoros bem arquitetados de
"as" com "bês" e "cês" com "as"?
Só penso em morangos e champagne.
Hmm.. na curva das taças, na curva dos dedos, na curva das coxas,
E no aroma espumante que explode em um bocado de b
__________________________________________olh______as!
____________________________________________________________inh
Estou perdendo o foco, mais uma vez.
Então antes que pule pruma próxima estrofe cheia das mais desbocadas heresias
E desnude meus monstrinhos, minhas posições preferidas e ah... as minhas fantasias...
Assim que se recompor me diga
O que diabos você fez com as minhas rimas?
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
O dia em que matei Bilac de desgosto
Românticos são limpos
E pirados
Que choram com baladas
Que amam sem vergonha
E sem juízo...
São tipos populares
Que vivem pelos bares
E mesmo certos
Vão pedir perdão
Que passam a noite em claro
Conhecem o gosto raro
De amar sem medo
De outra desilusão...
Romântico
É uma espécie em extinção!
[Vander Lee - Românticos]
Ó baita desejo desvairado!
Sucumbido ao pânico sôfrego,
Em trânsito fuleiro e embasbacado,
Saliente e danado vai tomando fôlego.
Malucas e toscas palavras me escapam
Assim como quem escorrega e acha graça.
Rebuscamentos e uma puta linguagem crassa
Versificam-se, pois, e logo infartam.
Esse projeto sonético seria risível, nem métrico
Nem muito menos tampouco sequer racional.
Só pra falar dum sentimento estranho conhecido,
Que me apanha, por passar comum e batido.
Reputado a princípio amorzinho somente, "normal",
Modernos e puristas, unânimes, ora (direis) incrível! Incrível!
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pátio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."
[Olavo Bilac - Ora (direis) ouvir estrelas]
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Águas de Novembro
Sou guapo como um leão.
Índio velho sem governo,
Minha lei é o coração."
[Érico Veríssimo - Um Certo Capitão Rodrigo]
Sob esse céu pouco estrelado
Por fora de minha janela
Todo encoberto de nuvens e desagrados
Ao som da água que escorre
Por detrás de minhas esperas
Deitada em mim eu me questiono
No costumeiro atraso de meu sono
Nem sei se ouves
Nem sei se sentes
Que te sussurro distante e ingenuamente
Vem de teus campos e tuas tantas primaveras
Dá-me esse corpo ora preso em minha tela
Me acalma o peito, me preenche o leito e me socorre
Te intimo humilde umidamente
Acaso não ouças
Decerto sentes
Que por detrás da chuva que nos espera
O tom é manso desse ano que já morre
E deitada em ti eu me derramo
Ao nosso certeiro passo, eu te amo
Toda descoberta de vertigens e musicados
Por dentro de minha querela
Sob esse céu rouco e carregado
"O que a princípio fora apenas desejo carnal agora
era também um pouco ternura: era amor. E o cap.
Cambará inquietava-se por isso. Porque sempre lhe
parecera que o único amor digno dum homem era
esse que apenas pede cama. O amor de fazer ou cantar
versos e mandar flores, esse amor de doer no peito,
de dar saudade era amor de homem fraco. Ele cantava
versos que falavam em tiranias, saudade e mágoa, só
por brincadeira, sem sentir de verdade as coisas que
dizia. No entanto, agora estava enfeitiçado por Bibiana
Terra. E, em fins daquele dezembro quente e parado,
Rodrigo Cambará pela primeira vez compreendeu
o profundo sentido dum ditado popular:
'Quem anda cego de amor não sabe se é noite ou se é dia'".
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Pôr-do-sol
Ah, meu menino
Ah, menino meu.
Nem menino, nem meu.
Mas ah! Menino...
Quão bom seria
Te ter e me teres,
Noites, crepúsculos, amanheceres,
Mulher me fazeres e
Seres, tu.
Dois seres, um corpo e ardia.
Mas, menino! Nem menino mais.
Que fazes, dez fases, desfazes.
Sem bases, mil ases de copas num jogo de cartas.
Todavia, o dia jaz.
E ouço ao longe,
Sussurro intermitente,
O vento nas folhas,
Carinho, a gente.
Teus olhos em curva,
Minha boca te sente
Um brinquedo de bolhas.
O vinho e a uva.
O mel em teu riso.
Cativos ao léu
Meus lábios, seus...
Réus.
Menino, mais?
Sai a rolha, entra o jazz
Vai a canção, desce o sol,
Fim da rua, minha lua sob teus pés.
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