quinta-feira, 30 de junho de 2016

Florescência - parte I


Pois qual Brasília
É na seca
Que floresço

Ave Marias

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
[Adélia Prado - Com licença poética]


Sangrar dias e dias
Contorcer o ventre latejante

Seguir bela e forte
estuporado o torso
supurada a pele
impregnado o cheiro de
          calor e juventude

Chorar um choro intenso
copioso das dores
todas juntas e das juntas
do corpo e da alma da gente
          fêmeas do mundo todo

Penso que é mesmo
um imenso poder
          a se apossar

E nesse passo
          mês a mês
Poder
          vis-à-vis
Gritar-lhe
          contorcida
Eis-me vida
          cheia de graça
Bela forte
          latejante
Quente
          estuporada

Eis-me
          sangue e criação
que vaza e dá vazão
à dor vermelha
          dessa prece
          desse peso
          dessa potência

Eis-me púrpura!

Profana e sagrada
que preza
reza
sangra
cria
liberta
          e passa.

Penso que é mesmo
um poder imenso
esse nosso.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Transitoriedade


Contorno o vazio
Vezes seguidas
Como quem perde a saída
Da tesourinha

Estar no trânsito
Ou no caminho
Não é nada além
De perspectivas

Retorno do transe
Às voltas do eixo
A L4 logo ali
Só minha

Então só acelero
E me ultrapasso
Inteira minha