domingo, 12 de dezembro de 2010

Vade Vida Vã



(...)"Ela lua pequenininha
não tem batom, planeta, caneta,
diário, hemisfério,
Sem entender seu mistério,
ela luta até dormir
mas é menina ainda;
chupa o dedo
E tem medo
de ser estuprada
pelos bêbados mendigos do Aterro
tem medo de ser machucada, medo.
Depois menstrua e muda de medo
o de ser engravidada, emprenhada,
na noite do mesmo Aterro.
Tem medo do pai desse filho ser preso,
tem medo, medo
Ela que nunca pôde ser ela direito,
ela que nem ensaiou o jeito com a boneca
vai ter que ser mãe depressa na calçada
ter filho sem pensar, ter filho por azar"(...)
[Elisa Lucinda - Lua Nova Demais] 

Eu e a mulher do outro lado
Mãe das iniciais no processo
De fora do carro, de longe do plano
Temos tanta coisa em comum
E tanto que nos separa...

A sua tristeza é desespero
A minha é distúrbio psicológico
Combatida com chocolates e divã
Vida dissecada e destrinchada:
Perto da vida dela, seca nas trincheiras
Tão pequena, tão mesquinha e vã
Que envergonha e dói.

Mas a minha dor não é pneumonia de resfriados não tratados
Nem fome no estômago vazio de qualquer coisa de comer
É fibromialgia de tensão e descompasso
De nervos tensos, frescos e irritantemente exagerados
Produção de endorfina insuficiente?!?!
Como pode eu e ela sermos assim tão diferentes?

Dia após dia, com meu Vade Mecum, eu luto por igualdade
Subjetivar direitos, justiça social e mais oportunidades
Só que a minha violência de gênero
É ter que usar terno, falar grosso e afirmar minha sexualidade
Ela busca proteção, eu desejo liberdade
Eu tenho até direito de querer um homem que me agrade!
Ela perdeu cedo o hímen, apanha do homem, apanha do filho
E eu aqui procurando algo que rime com gênero...

Vida destrinchada e seca nas trincheiras
Esperando e construindo... e esperando um amanhã
Vã, vida... Vade vida vã...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O dia em que matei Bilac de desgosto

Românticos são lindos
Românticos são limpos
E pirados
Que choram com baladas
Que amam sem vergonha
E sem juízo...
São tipos populares
Que vivem pelos bares
E mesmo certos
Vão pedir perdão
Que passam a noite em claro
Conhecem o gosto raro
De amar sem medo
De outra desilusão...
Romântico
É uma espécie em extinção!
[Vander Lee - Românticos]


Ó baita desejo desvairado!
Sucumbido ao pânico sôfrego,
Em trânsito fuleiro e embasbacado,
Saliente e danado vai tomando fôlego.

Malucas e toscas palavras me escapam
Assim como quem escorrega e acha graça.
Rebuscamentos e uma puta linguagem crassa
Versificam-se, pois, e logo infartam.

Esse projeto sonético seria risível, nem métrico
Nem muito menos tampouco sequer racional.
Só pra falar dum sentimento estranho conhecido,

Que me apanha, por passar comum e batido.
Reputado a princípio amorzinho somente, "normal",
Modernos e puristas, unânimes, ora (direis) incrível! Incrível!



"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pátio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."
[Olavo Bilac - Ora (direis) ouvir estrelas]

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Águas de Novembro

"Sou valente como as armas,
Sou guapo como um leão.
Índio velho sem governo,
Minha lei é o coração."
[Érico Veríssimo - Um Certo Capitão Rodrigo]

Sob esse céu pouco estrelado
Por fora de minha janela
Todo encoberto de nuvens e desagrados

Ao som da água que escorre
Por detrás de minhas esperas
Deitada em mim eu me questiono
No costumeiro atraso de meu sono

Nem sei se ouves 
Nem sei se sentes
Que te sussurro distante e ingenuamente
Vem de teus campos e tuas tantas primaveras
Dá-me esse corpo ora preso em minha tela
Me acalma o peito, me preenche o leito e me socorre
Te intimo humilde umidamente
Acaso não ouças
Decerto sentes

Que por detrás da chuva que nos espera
O tom é manso desse ano que já morre
E deitada em ti eu me derramo
Ao nosso certeiro passo, eu te amo

Toda descoberta de vertigens e musicados
Por dentro de minha querela
Sob esse céu rouco e carregado


"O que a princípio fora apenas desejo carnal agora 
era também um pouco ternura: era amor. E o cap. 
Cambará  inquietava-se por isso. Porque sempre lhe 
parecera que o único amor digno dum homem era 
esse  que apenas pede cama. O amor de fazer ou cantar 
 versos e mandar flores, esse amor de doer no peito, 
de dar saudade era amor de homem fraco. Ele cantava
 versos que falavam em tiranias, saudade e mágoa, só
por brincadeira, sem sentir de verdade as coisas que
 dizia. No entanto, agora estava enfeitiçado por Bibiana 
Terra. E, em fins daquele dezembro quente e parado, 
Rodrigo Cambará pela primeira vez compreendeu 
o profundo sentido dum ditado popular: 
'Quem anda cego de amor não sabe se é noite ou se é dia'".

sábado, 27 de novembro de 2010

Meu desajeito



"For what is a man, what has he got?
If not himself, than he has naugth
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows, I took the blows
And did it my way"
[Frank Sinatra/Paul Anka  - My way] 

Hoje amanheço sem ter sono
Entardeço sem temer
Rio bem leve
Riso breve
Riso sonso

Observo a flor florir
O tempo fluir
O rei ruir
- ainda sim -
Eu permaneço
Não me desfaço
Nem desfaleço

E me reformo
Ao meu contento
E se desconstruo
Me reinvento

Rumo pra trás
Volto adiante
E vou errante
Vôo rasante
Avante
Vento

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Da insólita dessolidão


E se subvertêssemos a solidão, sem retirar dela o silêncio, a melancolia, o denso vazio?! Em palavras que materializam em bytes, energia. Uma nudez de diálogos escancarados, um perfeito despropósito mesmo para preferências anunciadas por monólogos. E se transfigurássemos a solidão em companhia?!
De repente escrever em prosa é tão complicado, mas não há espaço para versos nessa estória. Não há espaço para versos em mim. É que vislumbro essa pura poesia tão perfeita em sua abstração, que tentar traduzi-la seria um crime, um pecado, uma desfaçatez. 
Permanece esse silêncio dominical numa curiosidade impaciente, característica, famigerada, maturada e mal digerida, entalada na garganta, ácida, breve, grossa, voluntariosa e um tanto tímida. Sinceridades não interessam; desinteresses, doutra sorte, exercem diuturnamente e, em especial, madrugadamente, sua atração insustentável, diagnosticada em tempo, ora em franco e confesso tratamento de contenção. 
As maçãs do rosto em fogo, por calor, ou seria o efeito da adolescência tardia na pele jovem e, ainda, sem marcas; ou seria o efeito da adolescência revivida, que não passará de todo nunca, aquela perfeitamente visível nas marcas talhadas precocemente na pele por baixo da pele. 
Quieta, sorrateira, tangente e intangível, a inconfundível solidão acompanhada introduz um novo carinho no meu vocabulário, sem palavras para descrever o ofício de acariciar a alma. E a distância se faz quietamente presente, uma metafísica áurea, uma concretude ao avesso, excessos contidos, contenções inexistentes, mesmo porque necessariamente insuficientes pra almas que transcendem os limites descabidos do corpo, dos termos, do tempo, da normalidade. 
Então o que restaria de um tal processo de dessolidão?! Insolitude... E uma satisfeita sonolência...

domingo, 7 de novembro de 2010

Insolação


Uma noite de lua pálida e gerânios 
ele viria com boca e mãos incríveis 
tocar flauta no jardim. 
Estou no começo do meu desespero 
e só vejo dois caminhos: 
ou viro doida ou santa. 
Eu que rejeito e exprobro 
o que não for natural como sangue e veias 
descubro que estou chorando todo dia, 
os cabelos entristecidos, 
a pele assaltada de indecisão. 
Quando ele vier, porque é certo que vem, 
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? 
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos 
— só a mulher entre as coisas envelhece. 
De que modo vou abrir a janela, se não for doida? 
Como a fecharei, se não for santa?
(Adélia Prado - A serenata)


Não via o sol há muito tempo
Mas ali livre estava
Cabelos voando nas
Rasas rajadas de vento.

Impune insanidade
Serva, amante, sedenta
Salobra impiedade
Moça, nada sacra, nada santa
Abafando gritos, afogando mitos
Me bebo, embebo, então bêbada
Me fumo, me puno, recupero e reperco meu rumo.

Fagulhas, agulhas, agruras barrocas
Contrastes, trocados, bordados...
Inchar toda essa coisa pouca
Preencher toda essa vida oca
E de repente é preciso amar o vão para se renascer - louca!

Eis que desmaia o sol
Esvai-se de minha pele
E deixa apenas a vermelhidão...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Natural mente

E outubro passou sem grandes surtos verborrágicos. Não por falta de assunto. Naturalmente. Foi-me assim, inofensivo, com algumas poucas chuvas para ludibriar os mansos de coração. Digo os mansos porque eu, não, São Pedro não me enganou nem um pouco com esse projeto tosco e mal executado de princípio de estação chuvosa. Entre pseudo-precipitações, segui sentindo muito e verbalizando pouco, afogando-me em palavras contidas, banhando-me nelas, lavando a alma, como dizem, nas minhas próprias tempestades interiores. Precipitadamente. Mas isso vocês já perceberam e, acaso não, o indicador de produção ali ao lado certamente o fez. Em Brasília, os gramados estão verdes e ninguém mais sai sem guarda-chuvas dentro dos carros. Os carros estão sujos do lamaceiro da última chuva ou da preguiça dos donos, aguardando a próxima breve e intensa tempestade: meu caso. Diz que esse fim-de-semana vai despencar o toró. Capaz. Coisa mais feliz esse tal de capim do cerrado que fica verdinho com tão pouco, né mesmo?! A seca faz dessas coisas. Conversar sobre o tempo virou uma espécie de passatempo particular entre brasilienses natos e naturalizados, naturalmente como deve ser num raio de cidade que muda tanto o tempo o tempo todo. Não por falta de assunto. Naturalmente. Porque esse foi variadíssimo, aliás, tendo em vista que teve de um tudo: neblina seca, tempestade de areia, terremoto. De não ver nadinha, enxergar demais e coçar o olho com ciscos indevidos. E tremer nas bases. Eventualmente. Os percevejos, aqueles feios que se fingem de mortos e depois engatinham pelas frestas pra dentro dos aposentos, os mosquitinhos de luz, aqueles sem plano de vôo, desgovernados, que saem batendo nas paredes e no teto e vez por outra caem nos lustres produzindo um desagradável cheiro de queimado, as cigarras, aquelas que não deixam ninguém ouvir nem mesmo os seus próprios pensamentos, nem os meus que falam alto e grosso por vocação e treino; todas essas abençoadas criaturas da natureza voltaram com a simples propaganda de chuva. Infelizmente. E ah! Os chuviscos! Aqueles pretensamente inócuos, pretensiosamente impróprios, que acabam por desencadear as mais severas pneumonias... Severamente. Mamãe sempre alertou para o sereno, não sai assim, menina, vai pegar friagem. Banho de chuva, pode. Com roupa velha, tipo aquele short surrado, do Mercado Central de Fortaleza, que vira uma bolsinha, sabe? Aquela camiseta de político, tá até na moda nesses dias, bom de aproveitar. Vigorosa, impetuosa, chuva pode! Vai ver por isso sempre detestei chuvisco. Coisinha mais inha. Típico petisco tipo pistache: pode ser até gostoso, mas dá um baita trabalho e não mata a fome de ninguém. Meu negócio é tempestade. Vigoroso, impetuoso, pode. Conversa besta essa de tempo. Não por falta de assunto. Naturalmente. Mas sê tempestivo, menino, senão dá friagem.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Pôr-do-sol



Ah, meu menino
Ah, menino meu.
Nem menino, nem meu.
Mas ah! Menino...

Quão bom seria
Te ter e me teres,
Noites, crepúsculos, amanheceres,
Mulher me fazeres e
Seres, tu.
Dois seres, um corpo e ardia.

Mas, menino! Nem menino mais.
Que fazes, dez fases, desfazes.
Sem bases, mil ases de copas num jogo de cartas.
Todavia, o dia jaz.

E ouço ao longe,
Sussurro intermitente,
O vento nas folhas,
Carinho, a gente.
Teus olhos em curva,
Minha boca te sente
Um brinquedo de bolhas.

O vinho e a uva.
O mel em teu riso.
Cativos ao léu
Meus lábios, seus...
Réus.

Menino, mais?
Sai a rolha, entra o jazz
Vai a canção, desce o sol,
Fim da rua, minha lua sob teus pés.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Aguaceiro


Puxa, que chuva!
Danças na chuva 
Chuvas na dança 
Danças de chuva 
Não cansas? 
Te lança na chuva, criança! 
Canta, roda, dança, pula 
Lambança

Chuva, que puxa!
Molha-me 
Lava-me 
Limpa-me 
Rega-me

Do sereno que foras um dia
Plácida, 
Agora só resta a gota vultosa

Me murcha 
Me suja 
Me enodoa 
Me seca 
Chuva ácida!

Chuva, ó chuva!

Não! 
Só mais um pouquinho
Depois eu saio 
Depois me enxugo 
Troco de roupa 
Troco de chuva 
Mais tarde 
Agora não.

(Atchin!)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Confissões de um projeto de jurista - II

II

Dos primeiros horários matinais

Que aula chata,
Meu Deus,
Que aula chata!
Aula de louco, aula de lero,
Aula de nada.
Os meus olhos
Entre pescadas freqüentes
Correm a sala,
Vazia de aula.
Nervosa e impaciente,
Sentei-me bem à frente
E tentei me distrair:
E a lide é um conflito 
Intersubjetivo de interesses
Qualificado
Por uma pretensão
Resistida.
Ora, professor, conflito é entre a minha pálpebra de baixo e a de cima 
Quase me desqualificando
Aqui pra toda a gente
Mas resisto. 
Meio brava, 
Mas resisto bravamente.
Vontade de correr dali
Mais uma vez...
Um quarto de aula venci,
Faltam outros três.
Meu deus!
Que aula maçante,
Vou voltar pra minha cama,
Tão fofinha e aconchegante,
Que amanhã tem outra aula
E mais doutas cantigas de ninar 
Doutro aclamado doutrinador.
E eu que ainda pensei
Foi por pouco que não apertei
O botão diabólico
Dos cinco minutinhos no despertador...
Enquanto o professor cantarola
Só o que me consola
É pensar no Processo de amanhã
Mais plural, célere e efetivo
E, claro, menos enfadonho:
Menos vade mecum 
E mais sonho
(E sem aulas de manhã!)
Nana neném, possibilidade... jurídica... do bocejo
Do bocejo não, do pedido
Mais cinco minutinhos, 
Só o que peço
Depois eu juro que louvarei a Carnelutti e ao Processo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Confissões de um projeto de jurista - I

I

Do revolucionarismo calouro

Data venia, excelência
Mas com tanta violência
À nossa Constituição
Resgatemos então
Contra a hermenêutica hermética:
Maiêutica, poesia e dialética.

Gestar e parir revolução!

sábado, 2 de outubro de 2010

Chico pelas tabelas**

Veja as coisas como elas são: a carroça, a dama, o louco, o trunfo, a mão, o enforcado, a dançarina, numa cortina, o encarnado, a dançarina... E existe pecado do lado de cá do Equador! Foi um sonho medonho desses que às vezes a gente sonha e não tem linhas sua palma! E a muralha ecoa e incomodada estou, num corpo estranho: um galeão no lodo, jogada num quintal, enxuta, a concha que guarda o mar. Sou sem nome, sem lar, sou aquela. Filha da rua, escura onde a dura perdura e não dura muito se cansa e vai chorar atrás da porta. E peito o querubim chato que decretou que eu estava predestinada a ser errada assim. Mas não, não choro ainda não porque a medida do bonfim não me valeu, trocando em miúdos posso guardar que algum futuro amante tenha um violão e nós vamos cantar. A felicidade é de samba e fica por aqui mesmo, de todas as maneiras que há de amar, com açúcar, com afeto, com meus doces prediletos. Agora já passa da hora, meu caro amigo, me perdoe por favor, se eu falo muda, palavras sutis, se gosto de senhas, sussurros ardis. Eu trago no bolso a contravenção e deixo o dito e redito por não dito. Pois é... Tira as mãos de mim, põe as mãos em mim! Meu caro amigo, eu bem queria lhe escrever e mesmo com o correio andando arisco, me arrisco nessa noite de mascarados. Quem é você? Adivinha se gosta de mim. Tão menina, tão menina, entre colombinas, pierrôs. Mas é carnaval! Não me diga mais quem é você, sei que vai querer cantar, e na cantiga talvez um novo amigo vá bater um samba antigo pra você rememorar. Mas a gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando essa gema! Imagina, imagina, hoje a noite a gente se perdeu! E assim adentro a casa amanhecida caminhando na ponta dos pés, como quem pisa nos corações. E assim me vou sumindo por aí, e a cidade não passa de um vão, os letreiros, o colorir, o embaraço da minha visão. Frouxa, frouxa de rir. Tinha cá pra mim que agora sim é fatal que o faz de conta termine, enfim. Mentira... É que pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz. Quem te viu, quem te vê: olha a morena sambando em paz! Cantando e sambando na lama de sapato branco. Olê, olê, olê, olá! Faz samba e amor até mais tarde e tem muito sono de manhã.  E de close em close foi perdendo a pose e até sorriu feliz. Daquela vez como se fosse a última, com seu passo tímido, como se fosse máquina, no meio do passeio náufrago, feito um pacote bêbado, como se fosse sábado...


**Todo esse texto foi construído com recortes de canções de Chico Buarque. Tratam-se, nessa ordem de aparição, das seguintes: As Cartas, Não existe pecado ao sul do Equador, Não sonho mais, Sonhos sonhos são, A ostra e o vento, Sob medida, Atrás da porta, Até o fim, Olê, Olá, Trocando em miúdos, Futuros AmantesDe todas as maneirasCom açúcar, com afetoMeu caro amigoHino de DuranPois éTira as mãos de mimNoite dos MascaradosVai levandoImaginaA volta do malandroAs vitrinesSamba do grande amorJoão e MariaQuem te viu, quem te vêDeixa a meninaCantando no toróSamba e amorA história de Lily BraunConstrução.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Um galo sozinho não tece uma manhã...

Se tenho uma certeza é do quanto conversar é bom. O quanto o diálogo enriquece o canto, o quanto cantar junto é bem mais divertido que um solitário à capela. Com isso em mente, pensei nos quadrinhos que se situam abaixo de cada texto, como formas de saber como os meus sentimentos, as minhas lembranças, as minhas vontades, que aqui busco traduzir, afetam você que gentilmente escuta o meu canto (e muitas vezes, meu desafinamento, meu grito, minha tagarelice ou meu desejo desesperado de calar a boca). Muita gente escreve para se fazer ouvir. Eu escrevo para me fazer calar um pouco, para transbordar isso tudo que me preenche, expulsar das entranhas, antes que eu morra afogada e rouca. E eu escrevo também para conversar.

Assim, esteja sempre à vontade para comentar, criticar, sugerir, falar de algo nada a ver que veio à mente, algo que aconteceu no dia, algo parecido que viveu... As coisas que planto aqui nos meus canteiros são, para mim, como mudinhas que precisam da atenção de um jardineiro para que vinguem e, quem sabe até, com sorte, um dia floresçam. Os quadrinhos "No seu canteiro foi..." servem de mera sugestão e provocação, sendo uma opção para os dias mais corridos. Semente, se despertarem algo novo; adubo, se contribuírem para que algum sentimento/idéia pré-existente, pré-conhecido, tome forma  e se desenvolva; flor, se  enfeitarem algo que já está pleno e consolidado dentro de você; praga, se fizerem mal, machucarem, contaminarem o seu "jardim interior". É meio brega, eu sei, quase ridículo. Mas "todas as cartas de amor são ridículas". E todo lirismo é de amor.

Fica aqui um convite para que você também compartilhe comigo o seu canto, "para que a manhã, desde uma tela tênue, se vá tecendo, entre todos os galos".

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Das preces setembrinas

Quanto desejo de chuvas
E de rebrotos
E de renovos
E de ombros nus
E de amoras
Sobre as raízes descobertas!
[Manoel de Barros - Fragmentos de Canções e Poemas (9)]

Pois foi o que ocorreu
Por certo

Fui pedir a Pedro um amor
E a chuva, roguei ao Antônio

E assim se foi Setembro
Deserto
Num santo erro de endereçamento

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Singelo

E se eu conseguisse fazer um poema 
Assim tão singelo quanto
Um chumaço de algodão
Seria ele um poema
Ou uma farsa?

Seria macio
Ao menos
Suave

...

Talvez até
Fosse
Verdade

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ver sem ver

Após a (não) decisão histórica de ontem, me lembrei dessa poesia antiga, de 2006, premiada no Festival Marista daquele ano, cujo tema era "Fraternidade e pessoas com deficiência"...
Pena que a rouquidão da Política e o pouquismo da Justiça ainda estejam tão atuais!



Fui batizada de Esperança e, como minha irmã Justiça, eu sou cega.

Desde a mais tenra infância
Não sei a expressão que antecede o desmaio
Mas a cara da ignorância
Ou do hipócrita negando, eu sei.

Eu não enxergo a cor do filé mignon.
Não vi organização no 1° de maio.
Mas vi os fogos no Reveillon
e o arco-íris da parada gay.

Eu não vejo nada.
Mas vi o rombo dos cofres públicos,
Vi o estouro da última guerra
E o escândalo da ideologia negada.

Eu gritei quando invadiram o Iraque
E eu reclamo da politicagem discriminatória
E da igualdade excludente
Da incipiente solidariedade
E da falta de acesso
E da lentidão dos processos
E da burocracia, da carnificina, da violência
E da desesperança, da impavidez do colosso que se destrói.
Eu condeno o assassinato da inocência
E a falsa independência
E a grosseira incoerência.
Como dói.

Eu cuspo na cara de quem se faz mudo.
Que muito me enoja toda essa desfaçatez
De revoltas mainardianas e cultura descartável:
Inenarrável insensatez,
Impressionável eterno ídolo da vez.
Admirável próxima desilusão no fim do mês.
E preconceito das oito ao meio dia, e então até as seis.

Eu cuspo na cara de quem se faz surdo.
Do prepotente que desconhece ser ele inválido.
Dele que, ainda estando ávido por mudança,
Observa distante e pálido de espanto
O canto do último pássaro entornado em pranto.
E depois se acha no direito de apontar,
Cínico, vil, reclamar do país que não avança.

Do alto de escombros precoces
D’uma justiça de doses poucas
D’uma política de vozes roucas
Uno minhas mãos em prece.
Que não há paciência, ou milagre ou ciência
Que me impeça de dizer
Que há real deficiência em quem se declara são.

Em meio a essa névoa turva, quanto lirismo há
Na incompreensão dos outros,
Na insegurança que a cegueira dá
E no dia-a-dia que não nos vê, que nem se importa
É pura necessidade isso de lutar
E passa o tempo, passatempo, contratempo
Não interessa se é jargão
Vale muito o "mais respeito, menos discriminação,
Cuidado com o outro, tenha amor no coração".

Às vezes, é mais útil sentir que entender
Que sentir podemos todos,
Os gênios, os mortais e os chefes da nação
O menino na pré-escola, os pais e os artistas da TV
O surdo, o cego, o mudo,
Ele, ela, eu, você.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Mãos atadas


"Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro."
[Mãos Dadas - C.D.A.]

Os barcos ressurgem
Calada da noite
Balaios vazios
Já curtos pavios
Um mudo açoite.

A maré chora,
O homem chora,
E fica tudo assim:
Salgado.

(alguém avisa aí que os companheiros dos taciturnos ainda nutrem grandes esperanças)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Um bemol por que não?!


Aqueles olhos que me encantaram
Em outros cantos há muito passados
E a tantas outras decerto cantaram
E já me encheram de música
E me abarrotaram de tantos
Quando éramos tantos 
Quantos fôssemos ambos
E me bastavas até me cansar
Hoje me pedem em franco retorno
Que lhes compartilhe uma leda canção
Queda-me pois morno o peito calado
Ante tamanho furor da amiga surpresa
Assim repentina sem preambular
Que eis-me sem jeito qual desacordado violão
A buscar adequar os trejeitos
Após tantos outros cantos
Ao ritmo próprio de teus dedilhados
E revelo-me tão logo e perdida presa
Já vazia de bastas e esquecida de prantos
Repetindo instigada por que não?!
Embevecida no azul bemol de teu olhar.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Gullar revisitado

Mas é que a 
felicidade
é sempre
tão
TANTA
que
essa sim
senhores
não cabe
nunca
no 
poema!

domingo, 12 de setembro de 2010

DRs II - Discutindo a redação

Eu?! Há muito não mais teorizo: metaforizo.
Problema. Poema.

sábado, 11 de setembro de 2010

Excessos (ou Abscessos Poéticos)

Disparou o artista frenético em minha direção
A veia poética dilareçada e pulsando na mão
Arregaçado em carne viva
Vermelha sangrenta e doída.

Entranhas de versos hereges
Denunciantes de sonhos
Urgências e
Algumas
Poucas
Paixões.

Sem eufemismos,
Me corrige
Estrebuchante:

Fodam-se as libélulas e essas coisas bonitas de amor!

Sua exegese é de
Feridas purulentas,
Maledicências e
Decepções.

Por favor alguém me cale a boca! - gritou -

Antes que eu seja compreendido...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Cantaria


"Quero ler nas ruas
 fontes, cantarias
 torres e mirantes
 igrejas, sobrados.
 Nas lentas ladeiras
 que sobem angustias
 sonhos do futuro
 glórias do passado."
[Louvação a São Luís - Bandeira Tribuzzi]

São pedras de cantaria
Ao pé dos casarios azulejados
E os braços de mar sitiados
Por mangues e pobres palafitas
Que carregam teus filhos
Esquecidos pelos donos da terra
Para onde ainda cantem os sabiás.

São dias de santos e tradições
Em que palhoças abrigam
Quitutes, não filhos,
E mesas de gente sorrindo admiram
As mulheres a girar com graça
No cordão de cacuriá.

São toadas e sotaques
Em largas e abertas praças
Que gritam contra o esquecimento
E fazem dançar teus mesmos filhos
Ao som ritmado dos maracás.

Aguarda-se o desfecho da saga da língua roubada do boi que alimentou os desejos de Catirina. A ansiedade nervosa sempre inédita ante seguidos, já quase incontáveis, anos da mesma história. Capatazes se sucedem numa sequência de opressões roucas que tensionam até os cazumbás useiros de risos por trás de suas máscaras. Índios e caboclos dançam e obedecem aos vaqueiros na busca do rebelde Chico. Pobre Chico achou que poderia roubar o amo e matar-lhe o novilho mais querido para agradar a mulher e o filho que esperavam. Onde já se viu mulher de Chico ter desejo?! Resta confiar nos pajés para ressuscitar o boizinho e voltar a dançar. Nos pajés, a esperança de Chico e da dança. E agora, Chico? Chico, até quando?! Até quando o José?!

E assim suportam calados a sina.
Entretido na dança o espírito
E amortecida a barriga,
Uns poucos de camarão e cuxá
Ao resto, farinha com água.
Mal sentem falta da outra língua
Que lhes foi roubada
Pelos donos do mar.

Mas são as pedras de cantaria
Que hoje eu canto.
Destoutra jovem terra
Destas ruas que não têm teus nomes
Nem tua poesia, nem teus filhos,
Nem tuas esquinas que viveram tanto.
Sinto-me um daqueles fidalgos desterrados
A me doutorar nas leis do Império
E viver no conforto da Corte
Enquanto a minha terra tem doutores
Que desafinam os sabiás.

Na minha língua cortada do cerrado,
Secura, impotência e o gosto saudoso salgado:
Daqui amargo a distância das palmeiras de lá.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Entre orgasmos gastronômicos e barrinhas de cereal

Faz umas duas semanas que percebi que meu caso estava se agravando, quando proferi a seguinte absurdez: “Caramba! Mas essa barrinha ainda consegue ser mais gostosa do que aquela outra! E olha, só 90kcal!”. Apossou-se de mim há alguns meses uma certa mania de saúde que nunca me pertenceu. Os que me conhecem há mais tempo sabem que desde que me entendo por gente que pode recusar um aviãozinho de verdinho e optar por um belo bife com batatas fritas, tinha por certo a máxima de que comida colorida é jujuba. E assim eu era feliz. Demais. E meu estômago, então, nem se fale! Pois segui entupindo minhas artérias de pura alegria hidrogenada e transsatisfação, até que me vi em terras americanas. Fast-food à vontade, ultra-power-mega-sized-combos de coisas deliciosas, Häagen-Dazs a preços módicos, máquinas de cookies macios e crocantes com gotas de chocolate e uma Dunkin Donuts na minha esquina. Foi demais até pra mim. Após umas três semanas de overdose de orgasmos gastronômicos, não só desenvolvi um ainda mirim, mas promissor talento para a culinária, como me vi pedindo convicta o primeiro prato de salada da vida. Da adulta, pelo menos. Inacreditavelmente. E ainda paguei por ele. Em dólar!!! Nunca me esqueço de como foi difícil comer tanta folha... A saída foi o molho caesar caprichado e encher o prato de croutons. Venci-o em garfadas perseverantes, a contragosto do gosto gostoso ao qual meu sistema digestivo estava acostumado, e esse foi o começo de um processo que me levou a hoje, alguns meses depois, achar barrinhas de cereal gostosas. Comida saudável e de baixa caloria não devia ser gostosa. É um contrassenso! As prateleiras do supermercado entupidas de variedades como barra sabor trufa, brigadeiro, morango com chantilly, banana caramelizada, côco com doce de leite e, pasmem!, bolo de chocolate! E você tem que comer só uma, por que onde já se viu repetir barrinha de cereal?! Não consigo engolir a idéia de uma pessoa sã virar no meio da tarde e falar: “Nossa, mas que vontade absurda de comer uma barrinha de Nutry sabor bolo de chocolate!” Gente normal não sente vontade de comer cenoura ou barrinha de cereal, come porque é o jeito; vontade dá é de tomar cerveja ou uma coca-cola estupidamente gelada, capuccino com chantilly pra esquentar, comer coxinha de frango com catupiry, ou uma bela picanha sangrenta, ou um bife à parmegiana, ou cachorro quente com queijo e batata palha, ou batata frita com cheddar e bacon, e coroar com morango com nutella, ou vulcãozinho de doce de leite, ou banana flambada com bola de sorvete de creme, ou, ou, ou... Melhor parar por aqui que hoje meu estômago voluntarioso e mal-acostumado a ser bem-tratado já teve sua glória vespertina num prato de morangos com leite condensado. Light.

sábado, 4 de setembro de 2010

Diagnóstico: paixonite

"A experiência de nada serve à gente.
É um médico tardio distraído:
Põe-se a forjar receitas quando o doente
Já está perdido."
[Da experiência - M. Quintana]

Pois te trato como uma rinite
Que passa com a primavera
E logo não passarás dum pigarro
Irritando minhas cordas vocais

Mas como boa alérgica
De arroubos hipocondríacos
Trago o Sorine na bolsa
Que é pra descongestionar no ato
No caso duma recaída

Aí dá-lhe corticóide na bandida
Duas vezes por dia
Por umas duas semanas 
Talvez um pouco mais

E já eu volto a respirar
Já eu volto a suspirar...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dona Quarta

Dona Quarta
Reboladeira
Foi fazer feira
Pros minino comer.
Mexendo os quartos pra cá
Mexendo os quartos pra lá
Quem lhe visse jurava:
Tem sangue angolano, certeza,
Ao menos a bunda,
Isso pode apostar!
Dona Quarta cata tomate e alface fresquinha
E só compra leite da quinta do Zé
Que é pra não azedar.
Dá cá Zé o leite da Quartinha
Deixa que eu merma que vou entregar.
É a Dona Domingas Segunda
Invejosa dos quartos da Quarta
Que mexem pros lados
Fazendo o povo apontar.
Os minino abobado
Correm tudo pras bandas da quinta
Torcendo pra Quarta passar
Mas que bela bunda é essa
Dessa Dona Quarta!
Que coisa distinta
De se admirar!
E a feira parada
Parece mais feriado
Ninguém faz mais nada
De olho vidrado
Nos quartos da Quarta
Que mexem pra cá
Que mexem pra lá
Vixe, pra que tanta pressa?
Lá vai Dona Quarta,
Deixa a feira de lado,
Rebola-se dali pra outro lugar.

Aí todo mundo toma seu rumo
As moças pras cestas
Os rapazes pro fumo
Os senhores pras sestas...

Só os minino na praça matriz se põem a conjecturar:
      - E se a gente tascasse no meio do cochilo dos véio um "x"
         pra festa não se demorar?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Fantasia candanga

Esses dias, Brasília anda mais realista.
O céu azul tá acizentado.
E o verde que resiste amarelou.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Agosto que quer ser setembro

"Como num conto de fada
Ou como alguém rolando a escada
Vou pra civilização
Cabeleira incendiada
No barranco, na boléia
Uma candeia em cada mão
Eu quero um amor de primavera"
[Veneta - Chico Buarque e Edu Lobo]

Cá estou erodida e esturricada
24% é a umidade relativa do ar
Lua cheia e um desconforto
Que chega arde
E jogo uma água na cara
E tomo uns goles de Bohemia pra aliviar.

A secura não condiz
Com esta minha mocidade
Aí enfio as raízes fundo
Na argila do cerrado
Pra ver se fundo eu acho
Algum indício de sei lá
Qualquer coisa que me agrade
Sertão cerrado é tão difícil de irrigar...

Eu desejo hoje coisas que minha gasta formação
Minha vasta presunção e essa voluntariedade
Me dão gosto em nominar
Nas linhas que escrevo tortas de propósito,
Pois falta tempo e disposição pra endireitar.
Além do que o retorcido já faz parte do cenário.

Quero mais é pegar fogo igual o verde bonito que tinha ali do lado de casa todo preservado.
Queimar toda e já e perto que é pra se ver o estrago
Fumaça, cinza, chama, fogo, tudo em tudo quanto é parte desse Lago.

O bom da secura é que precisa só duma fagulhazinha de nada pro incêndio começar.

Enquanto a primavera atrasa
Visto minha poesia desgostosa de Agosto
Vejo a lua a sentir pena do cerrado em brasa a inflamar
Essa terra que já está pronta faz um tempo
Preparada, fértil e toda prosa
Que é pra quando ele vir, ah...
Quando Setembro chegar
Eu viver de pegar fogo,
Eu morrer de tanto amar.