quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Natural mente

E outubro passou sem grandes surtos verborrágicos. Não por falta de assunto. Naturalmente. Foi-me assim, inofensivo, com algumas poucas chuvas para ludibriar os mansos de coração. Digo os mansos porque eu, não, São Pedro não me enganou nem um pouco com esse projeto tosco e mal executado de princípio de estação chuvosa. Entre pseudo-precipitações, segui sentindo muito e verbalizando pouco, afogando-me em palavras contidas, banhando-me nelas, lavando a alma, como dizem, nas minhas próprias tempestades interiores. Precipitadamente. Mas isso vocês já perceberam e, acaso não, o indicador de produção ali ao lado certamente o fez. Em Brasília, os gramados estão verdes e ninguém mais sai sem guarda-chuvas dentro dos carros. Os carros estão sujos do lamaceiro da última chuva ou da preguiça dos donos, aguardando a próxima breve e intensa tempestade: meu caso. Diz que esse fim-de-semana vai despencar o toró. Capaz. Coisa mais feliz esse tal de capim do cerrado que fica verdinho com tão pouco, né mesmo?! A seca faz dessas coisas. Conversar sobre o tempo virou uma espécie de passatempo particular entre brasilienses natos e naturalizados, naturalmente como deve ser num raio de cidade que muda tanto o tempo o tempo todo. Não por falta de assunto. Naturalmente. Porque esse foi variadíssimo, aliás, tendo em vista que teve de um tudo: neblina seca, tempestade de areia, terremoto. De não ver nadinha, enxergar demais e coçar o olho com ciscos indevidos. E tremer nas bases. Eventualmente. Os percevejos, aqueles feios que se fingem de mortos e depois engatinham pelas frestas pra dentro dos aposentos, os mosquitinhos de luz, aqueles sem plano de vôo, desgovernados, que saem batendo nas paredes e no teto e vez por outra caem nos lustres produzindo um desagradável cheiro de queimado, as cigarras, aquelas que não deixam ninguém ouvir nem mesmo os seus próprios pensamentos, nem os meus que falam alto e grosso por vocação e treino; todas essas abençoadas criaturas da natureza voltaram com a simples propaganda de chuva. Infelizmente. E ah! Os chuviscos! Aqueles pretensamente inócuos, pretensiosamente impróprios, que acabam por desencadear as mais severas pneumonias... Severamente. Mamãe sempre alertou para o sereno, não sai assim, menina, vai pegar friagem. Banho de chuva, pode. Com roupa velha, tipo aquele short surrado, do Mercado Central de Fortaleza, que vira uma bolsinha, sabe? Aquela camiseta de político, tá até na moda nesses dias, bom de aproveitar. Vigorosa, impetuosa, chuva pode! Vai ver por isso sempre detestei chuvisco. Coisinha mais inha. Típico petisco tipo pistache: pode ser até gostoso, mas dá um baita trabalho e não mata a fome de ninguém. Meu negócio é tempestade. Vigoroso, impetuoso, pode. Conversa besta essa de tempo. Não por falta de assunto. Naturalmente. Mas sê tempestivo, menino, senão dá friagem.

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