segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Fantasia candanga

Esses dias, Brasília anda mais realista.
O céu azul tá acizentado.
E o verde que resiste amarelou.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Agosto que quer ser setembro

"Como num conto de fada
Ou como alguém rolando a escada
Vou pra civilização
Cabeleira incendiada
No barranco, na boléia
Uma candeia em cada mão
Eu quero um amor de primavera"
[Veneta - Chico Buarque e Edu Lobo]

Cá estou erodida e esturricada
24% é a umidade relativa do ar
Lua cheia e um desconforto
Que chega arde
E jogo uma água na cara
E tomo uns goles de Bohemia pra aliviar.

A secura não condiz
Com esta minha mocidade
Aí enfio as raízes fundo
Na argila do cerrado
Pra ver se fundo eu acho
Algum indício de sei lá
Qualquer coisa que me agrade
Sertão cerrado é tão difícil de irrigar...

Eu desejo hoje coisas que minha gasta formação
Minha vasta presunção e essa voluntariedade
Me dão gosto em nominar
Nas linhas que escrevo tortas de propósito,
Pois falta tempo e disposição pra endireitar.
Além do que o retorcido já faz parte do cenário.

Quero mais é pegar fogo igual o verde bonito que tinha ali do lado de casa todo preservado.
Queimar toda e já e perto que é pra se ver o estrago
Fumaça, cinza, chama, fogo, tudo em tudo quanto é parte desse Lago.

O bom da secura é que precisa só duma fagulhazinha de nada pro incêndio começar.

Enquanto a primavera atrasa
Visto minha poesia desgostosa de Agosto
Vejo a lua a sentir pena do cerrado em brasa a inflamar
Essa terra que já está pronta faz um tempo
Preparada, fértil e toda prosa
Que é pra quando ele vir, ah...
Quando Setembro chegar
Eu viver de pegar fogo,
Eu morrer de tanto amar.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tinha uma muriçoca sugando meu sangue embaixo da mesa

Tinha uma muriçoca sugando meu sangue embaixo da mesa.
Não nego que senti a ardência, desde o comecinho, mas deixei que a bandida prosseguisse no seu ato instintivo, animalesco, de roubar algumas gotas de meu sangue. De fato, assim se sucedeu, numa catarse meio masoquista mesmo. Paralisada de sentidos por breves segundos, eu suportei aquela coceira com uma solidariedade admirável para com o pobre inseto que, coitado, só estava a se alimentar. Sempre simpática com as coisas da natureza, herança de alguém criada por um ambientalista, alfabetizada numa escola que organizava passeatas para revitalização de parques e recolhimento de lixo nas praias. Ah, bons tempos aqueles! Quantas muriçocas me morderam naquela terra quente e úmida que me gestou. Quem hoje me encontra nessas bandas secas e retorcidas do Planalto, saiba que sou filha do manguezal, areada, úmida, lamacenta, meio suja até. É que eu trago de berço a capacidade de fincar raízes até mesmo na lama. E nem tente desqualificá-las por frágeis que porventura sejam, ainda assim, serão raízes... Em terra de mangue, desde cedo se aprende que andar caranguejando não quer dizer andar pros lados sem seguir adiante, mas sim seguir sempre olhando pra frente, nem que seja pra enfiar a cara inteira, mas ela todinha mesmo, de frente, na lama. Hoje eu ando devagar porque eu tenho pressa e não gosto de voltar atrás pra perceber que errei o caminho, que caminho certo a gente inventa. E, às vezes, eu caranguejo na lama – aí é que faço uma festa! O mangue fica pelas beiradas, gosta de margens, de reentrâncias. É lá que se instala, no meio do caminho entre a terra e a água, a salobra, de preferência. Sujeito ao regime das marés, numa obediência lerda, ciente de sua coadjuvância ou sabedora presunçosa da fartura da biodiversidade que tem escondida na sua sujeira, na pobreza do seu solo, na deficiência de seu oxigênio. Também me falta o ar, recorrentes vezes inclusive, mas é de hipereficiência da minha expiração. Nisso tenho que admitir dever ao mangue em aprendizado... Em mim fala mais forte o ímpeto das marés, essa sanha de ser arrebatadora a cada quebrar de ondas, violenta força erosiva de encostas, de formações rochosas, e, sem querer, de castelos de areia... Mas é que sou filha também do litoral. Na amplidão das praias onde desde cedo me vi brincar, munida de minhas armas imbatíveis – baldinho, protetor solar e uma curiosidade saliente –, eu desnudo dunas e esconderijos de índios imaginários, e caminho encarando o vento só pelo sabor sem igual que me chega à língua pelo nariz irritado, pelos poros abertos de sol, pelos pés afundados na terra. É um gosto de salmoura que, desde que fui transportada pra esse outro ecossistema donde hoje me derramo nessa catarse, identifico como sendo o (dis)sabor da saudade. Essa salmoura corre nas minhas veias abertas e escancaradas como a praia do Araçagi, que pulsam em volume máximo na balbúrdia dominical do Meio; um sangue familiar, nostálgico de eras douradas e esperançoso de glórias vindouras como o Olho d`Água. A saudade, pra mim, é salgada. E ela corre nas minhas veias! É um tempero que, com tamanha presença, caprichado, dizem fazer mal à saúde, por indigesto e comprometedor da pressão. Aos que não têm costume, de fato, tem pleno cabimento a advertência... Mas eu o trago nas veias, pulsante, costeiro, lamacento, frágil feito mangue, impetuoso feito maré, irrigando cada pedaço de mim!
Pobre muriçoca atrás de sangue doce...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Impositivos

Lei
A leio
Alheia
Não sei se
Há meia
Lei;
Mas, sim,
Amei-a,
Lei.
Roguei:
Floreia
Lei!
Então
Heil
Rei.
Errei:
Sombreia
Lei.
Correia
Dos fatos
Tateia
De fato
Lei.
Então
Cadê a
Lei?
Corre, eia.
Lei!
Cadeia.
E Amarro
a veia que pulsa, que corta, que urge, que tange, que julga, que suga,
que manda, que prende, que range, que finge,
que guia, que queima, que briga,
 que grita
que cala
castiga e
confina.
E lutas, lei?
Que luto, lei?
Que veia velha que
chama tão fraca
que grito
que
lei?!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Quadrinha vagabunda

Perdoe o poema vagabundo
Que rima por profissão de fé.
Acaso seria ele mais profundo
Se não tivesse uma rima sequer?


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Pediram para eu conversar com os leitores. Aliás, qual a minha gratíssima surpresa ao descobrir que caramba! Em que ponto chegamos?! Até eu agora tenho leitores! Mas é que esse blog não é um blog-blog. Era pra ser um blog-repositório. Ou supositório, dependendo da sua intenção... Fato é que eu falo demais e sou meio rouca por isso. Ou talvez não tenha qualquer relação. Enfim, no fundo é que se eu começar a falar, as pessoas vão descobrir que eu sou chata. E não passo dum projeto tosco e mal-acabado de literatura, lutando dia após dia pra continuar assim...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Poema verde

Sinto que minha arte carece de maturação.
Qual fruto caído precoce da árvore,
qual infante amor entalhado - prematuro - na árvore,
falta-lhe decerto alguma maturação.

Se fosse outra de mim
e tivesse vazio o estômago,
tivesse uma úlcera, um câncer, um pneumotórax, uma convulsão.
Se tivesse vazio o estômago
ou cheio de mágoa esse coração,
e meus precoces amores talhados na árvore
agonizassem caídos e apodrecessem no chão.
E se doesse o coração por vazio,
o estômago ulcerado de raiva ou decepção,
mas não.

Se tivesse uma casa na árvore
e lá entulhasse as infantes lembranças
de frutos caídos precoces
e dores talhadas no estômago
os guardasse a salvo do esquecimento
e de toda resignação...

Se saqueasse
os casais
que talham
seus nomes
na árvore
lhes roubasse
um vintém
de paixão
e do poeta
absorto
na sombra
da árvore
alguma
inspiração...

E se tivesse vazio o estômago!

Me fizesse
vermelha
e pregasse
na árvore
chamados pra
revolução
ou me fizesse
beata
e pregasse
da árvore
a ressurreição...

Nem que entornasse
o orvalho
das folhas,
nem que roubasse
dos pintassilgos
nos galhos
toda a composição,
ou virava poema
ou virava canção.
Se me restasse
alguma imaginação
e tivesse vazio o estômago.

Pois que me falta maturação,
me entalho no tronco
da árvore:
iniciais erodidas
em um só coração.
Pois que quero vazio o estômago
lanço aos canteiros
o fruto do âmago
ainda em gestação.
Aos canteiros,
os frutos
e a úlcera
do estômago
talhada
por toda essa
insatisfação.

Se tivesse vazio o estômago
e o coração houvesse
caído no chão,
haveria de restar
de tal falta de fôlego
alguma respiração.
Haveria de restar
de tal falta de fôlego
mesmo alguma razão,
se tivesse uma casa na árvore
ou encrustada uma úlcera no coração.

E caberia na arte todo lirismo,
os protocolares puristas,
quiçá o parnasianismo,
pois que vazio o estômago,
liberto até da libertação.

Mas não.

Sou fruto caído
precoce
da árvore
sem maturação.

sábado, 14 de agosto de 2010

Não

Então eu vivi um não e foi lindo. As palavras pequenas sempre me incomodaram, megalômana de imediatismos, de inteiros e de instintos que sempre me soube. Mas aquele não, definitivamente, foi lindo. Nele cabiam todas as negativas do mundo, a fragilidade da existência humana, a crise pós-moderna, a efemeridade das relações, a fadiga muscular, a fome, o sono, a cólica. Lindo. Foi um não assertivo, firme e quente, com gosto de saliva maturada, de noite mal dormida assombrada por fantasmas de outras e dessas mesmas vidas, com jeito de vida alguma, pouca morte e nenhuma ressurreição. Ou curta vida, morte nenhuma e futura ressurreição. Um sonho de não. Negativa a escapar pelos lábios entrefechados, fugindo das entranhas useiras de gestarem apenas sins, no máximo um gentil pois não, em que posso ajudá-lo, deixe comigo, por favor, e encaminhando-se furtivamente aos meus ouvidos encantados com tanta plenitude do que não poderia ser. Imenso em três letras sussurradas, subliminares, sublinguais. Era sublime aquele não. Sublimava e evaporava no ar e me sugava e me roubava o meu oxigênio todo, e de repente eu já estava ali, asfixiada, pairando insólita diante de tamanha impossibilidade, confrontada com as minhas urgências, minha semi-depressão, meu pós-sentir, minha ex-amargura. Não sentir, não pensar, não sofrer, não passar de um esforço dissimulado, frívolo, inútil e desperdiçado de não ser. Ou de ser demais, de gritar demais e espernear demais e transbordar todas essas adolescências tardias antes que morra afogada e rouca. Mas hoje eu não falei. Queimei, incendiária, eu incinerei todas as vísceras e os traços de encanto, e os sorrisos mais irresistíveis, e os olhares mais desesperadores e tudo aquilo que sabia nominar e não quis. Não poder, não bastar, não conseguir. Observei o pleno conflito, debatendo passados e explicações e injustificativas e vontades de retidões e condutas moralmente impecáveis e carinho, cuidado, fogo calmo no meu pretenso inverno meio cerrado, meio mangue, e não intervim. Só queimei infartada e admirei assaltada e quedei muda numa pequenez silente inédita, qualquer coisa de repartição, fragmentação de uma Natália qualquer, passada, adolescente, perdida e recuperada em tempo dentro de mim. Em tempo, senti o ardor em brasa dentro do meu peito e fora e ao lado, queimando tudo, pleno, sublime, rouco, frágil, efêmero, pós-moderno. E gritava, debatia-se, calmo, terno, suave, esgoelava-se e reafirmava-se todo em querer, sentir, cuidar, queimar, não agora, depois, queimar, queimar, inflamado, perder-se em cinzas, preservado, eterno, combustível cumpridor de seu destino, aquecedor de invernos interiores, destruidor de cerrados e mangues e florestas amazônicas, até, quem sabe, depois, não agora, um dia, talvez, certamente que sim... 
Mas hoje, naquele momento pedaço de sempre, para aqueles nós ainda não houve sim. Só um não lindo...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Atrevimento

Daí que estava no trânsito, concentrada em remoer o nada, ouvindo os últimos acordes de um samba de João Gilberto antes de o locutor anunciar que iria começar a Voz do Brasil. Tocou aquela musiquinha característica, algo entre uma pretensa fusão de vários ritmos e expressão de coisa nenhuma. Aliás, permita-me registrar que acho que falta é muita brasilidade nessa vinheta. Podia ser um sambinha, mais animado, algo como, vem aí, vem aí, a voz do Brasil, olha que ela vem aí, abre a roda pra ela entrar, olha que ela vem, não se vá, pararaticutum! Acho que Carlos Gomes não ia se importar.

Mas sim, lá me encontrava, por trás do volante, pés descalços do salto de todo dia, um de lado, à toa, o outro parado sobre o freio, também à toa. Já tinha deixado o carro à toa no ponto morto e levantado o freio de mão. Estava, pois, completamente à toa naquele engarrafamento que não ia andar nunca mesmo. Notícias da Câmara dos Deputados: projeto de lei aprovado à toa no plenário e etc. e tal. Tudo bem à toa como pede uma véspera de sexta-feira.

Começou como uma troca de olhares. Daqueles meio de relance, uma balançada de cabeça, uma expressão mais séria para disfarçar. Mulheres sempre fazem isso, procurando defeitos, obviamente. Mas sempre com o cuidado de ser sutil, pra que reste à outra algum espaço de achar que, na verdade, foi sua bolsa nova que chamou atenção e ficar se sentindo bestamente orgulhosa. Coisas da cumplicidade feminina.

Foi quando eu percebi que a desgraçada estava era rindo de mim! E não era um riso escrachado, nããão. Tinha aquele tom de cinismo, ar de superioridade fajuta, como quem quer te convencer de que tua cara é mesmo muito da risível. A filha da puta estava rindo cinicamente na minha cara! E ali, no meio da rua, pra todo mundo ver. Logo, logo, iam todos perceber a piada e começar a rir de mim também. O que era que tinha de tão cômico? Nem alface, nem feijão eu comi hoje. Minha maquiagem também não estava borrada. Sempre fecho a braguilha da calça e com certeza o cofrinho não estava aparecendo - era de cintura alta. O carro estava limpo, passei hoje mesmo no lava-jato e dei um grau, foram-se todas as obras de pombos e a carinha dando língua ao lado do dizer: LAVE-ME PELO AMOR DE DEUS. Então de que diabos ela ria?

Aliás, quem ela achava que era pra rir de mim assim? Também estava sozinha ali no escuro, também não ia fazer nada demais no resto da noite e tampouco nos dias que se seguissem. Ia continuar ali, bestando, prostrada, com sua solidão escancarada pra qualquer um enxergar. No fim de semana inteiro e se duvidar ainda em alguns dias da semana que vem.

E esse engarrafamento que não anda?! Já está quase nas notícias do Poder Judiciário e, sinto muito, mas chega de trabalho por hoje. Não tinha nenhum CD, nenhuma revista pra folhear, nenhuma propaganda de concurso ou de empreendimentos-imobiliários-seu-sonho-realizado-pronto-pra-morar e a bateria do celular havia acabado em uma ligação que também não deu em nada. Nem pra aparecerem aqueles malabaristas de rua com uma roupa engraçada, brincando com suas bolinhas e derrubando uma e outra no chão, só pra que a gente sinta mais pena e dê alguns trocados a mais. Nem isso. Também, não tinha trocado algum pra dar mesmo.

Espiei pelo retrovisor e a vagabunda continuava ostentando seu sorriso desavergonhado pra cima de mim. Foi quando eu me enchi de tamanha petulância e resolvi revidar. Só que a minha vingança nunca teve espaço pra pouquismos. Soltei-lhe logo foi uma gargalhada, forçada, declaradamente falsa mesmo, e apontei com o dedo pra fora do vidro:

- RÁ-RÁ-RÁ-RÁ-RÁ! Sua minguante, você está torta!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Geni (ou Rotina - Parte 2)

Abriu a janela e pensou
- Mas que quarta
Simpática!
Voltou para o meio
Do quarto
Apática.
Hoje não estava muito pra
Papo.
Rumou para dentro
De si
Tomou uns goles de samba
Deu uns tragos de Vandré
Contou pílulas de uma vida
Pública, pouca, medíocre e
Fulgás.
Lavou a imunda cara
Como quem leva um belo
Sopapo
E saiu por aí.
Cogitabunda e
Patética.
Procurando por
Mais.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Rotina

Autômata ela almoçou correndo.
Atônita tropeçou varrendo.
Anônima remoçou morrendo.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Motivo

"Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada."
[C.Meireles]

Sei que berro. E o grito é surdo.
Faz sangue, inferno de brasa escancarada.
E um dia sei que estarei rouca:
- mas, ah! dá nada.

domingo, 8 de agosto de 2010

Era uma vez... E depois eram duas. E logo eram três.


"Titótó, titótó,
água fresquinha para beber
Nhoque, nhoque, nhoque, nhoque, nhoque, nhoque
grama verdinha para comer"

“Mas vocês são de um egocentrismo exacerbado!” Para além de todas as outras qualidades, que lhe são muitas, vastas e as mais variadas, ele sempre primou pela extensão de nosso vocabulário. Estórias, contou-nos muitas: de fadas, de heróis, príncipes encantados, cavalos alados, sapos, cabritos e cabras-cabrês. Escondido por trás de uma voz suave, ele não sabia, mas a perspicácia que desde cedo aguçou em nós permitiu-nos descobrir logo que se tratava do Rei do Magnífico Reino de Titotó. Ele próprio, em pessoa! Travestido de estoriador.

Os desavisados que não lograram conhecê-lo e se aperceberem de toda sua glória ririam de meus relatos, afirmando simplesmente “Freud explica”. Pobres coitados! Não sabem a asneira que estariam a falar! Fato é que o tal psicanalista não chegaria perto de explicar-lhe. Minto. Talvez lhe restasse uma chance. É que ao que me consta ele tem alguma experiência no campo dos sonhos... E Sua Majestade tem muito de sonho. Fantasia, utopia... Quanto idealismo! Quantas quimeras! Quantas quintanescas estrelas inatingíveis em seu caminho! Tudo parece feito de sonho em suas mãos. Até a guerra. Sim, não achem que por sua doçura, ele deixa desguarnecido seu reino. Nunca! Antes lhe faltaria fôlego, descanso, sangue, que proteção aos seus. E ele combate o “estado de animosidade permanente” com primor, conquistando alianças inimagináveis! “Belicosas, não passam disso!”, dirá recorrentemente. E suas palavras se tornam verdade. Taí, deve ser por isso que não passamos jamais... Mesmo porque nessa terra não se passa, se passarinha. Decerto é nela que os poetas buscam inspiração.

O Reino de Titotó exala, ainda, um pouco de um comunismo anárquico. Às vezes há mais igualdade que o recomendável... Todos aqui partilham de um ímpeto totalitário, bebem de uma fonte inesgotável de beligerância e urgência petulante. E como falam alto esses absolutistas! Apaixonados por causas, quaisquer que sejam, as perdidas de preferência. Apaixonados pelo amor. Nem que seja à argumentação.

Aqui se ama demais... Se é que se pode dizer que qualquer amor é demais. Melhor seria então falar que aqui se ama o suficiente? Também impreciso. Como delimitar a suficiência no que toca ao amor? Direi que aqui se ama, então, e tão-somente ama-se. Perdão, mais uma vez. "E tão-conjuntamente ama-se". Agora sim.

Certa feita me sorriu a sorte e pude dividir com Sua Majestade um jardim. Havia tanto o que lhe perguntar... De que modo agir? Como se portar? Que escudos vestir? Que lutas travar? Quais alianças formar? Quando e em que ritmo seguir? E pra onde? Quando esperar? E mais um milhão de porquês característicos e "mas e se" escalafobéticos. Mas (pasme!) as perguntas todas me fugiram...

Com meu totalitarismo particular completamente devastado, encontrava-me perdidamente segura em seus braços.

“Olha a Babu, filha”, ele falou.

E basta.

Sempre me bastou.

sábado, 7 de agosto de 2010

Pas de deux


Me tira pra dança.
Me roda, me gira, me lança.
Me puxa, me joga, me larga, me enlaça.
Me dita o compasso.
Me mede em esquadro.
Me rege em escuro.
Me descompassa.

Me compra, me ganha, me faz uma manha.
Me rende, me entende, me vende.
Me testa, me atenta, me tenta.
Me resta, me nino, me tido.
Me roga, me droga, me molda.
Me sente, me mente, me lê a mente.
Me esconde, me prostra, meu mestre, me mostra.

Me deixa, me busca, me leva.
Me ludibria, me chama.
Me noite, me dia.

Me esconde, me acha, me cansa.
Me tira da dança.
Mentira.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Sem título

"Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham."
[C.D.A]

E hoje já é sexta. Êta vida besta!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Cerrado



Plic ploc ploc plic plic
Faz a chuva lá fora na poça.
E aqui dentro
Tão seco...

Tão seca por dentro
Plic____plic
___ploc____ploc
Faz a moça na chuva
___plic____plic
Ploc___ploc
Com a face molhada,
Ela pula na poça.

Ploc plic plic ploc ploc
Faz a chuva aqui dentro da moça.
E lá fora
Tão seco...

Para ser

Paracetamol.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Retorno


O mofo, a traça, o cupim, o cheiro de guardado.
O cloro, o sujo na água, o gramado crescido, o mato,
O canto escondido, o ferrolho quebrado, o pé encardido,
O livro querido guardado com esmero esperando um retorno que não vinha mais.

A salmoura da água, a salmoura do choro,
A brancura do sal, a brancura da cal que ornava as palmeiras erguidas ali.
Os latidos felinos, as batidas de porta, os copos coloridos de requeijão,
alguns meio trincados, virados pro chão.

À meia-luz, na imensidão dos cômodos um incômodo vazio tilintava em mim.

Os versos rimados decorados com mímicas para o jogral.
O medo do escuro,
a farda do colégio,
o doce sonho cor-de-rosa,
as fotos desbotadas no mural...

Sobre a bancada de muitas notas
Pimenta,_____acerola,_____manga,
______pitomba,_____bacuri,_____cupu
Saudade, família, amigos,
______________________côco babaçu.

O mudo reflexo do tempo mudado no espelho
Era o mesmo primeiro adeus, com um quê de déjà vu.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Exéquias

Ela veio, passou, fiquei.
Marcou, doeu, gritei.
Ardeu, soprou, curei.
Partiu, corri, tentei.
Fui eu, fugi, chorei.

Brisa convertida em tufão violento
Riso, sarcasmo, descaso, vento
Lebre. Febre. Lento.
Soco, marasmo, atraso. Cama.
Rasgo, mora, furo. Fora!
Chamo-me chama mundo afora.
Volta, peço: vai-te embora.

Quente o som
Azeda a cor
Confusão
Fusão de tudo.
Odor.

Corro cego,
Córrego.
Morre ego.
Escorrega o tempo...

e então enterro.