domingo, 8 de agosto de 2010

Era uma vez... E depois eram duas. E logo eram três.


"Titótó, titótó,
água fresquinha para beber
Nhoque, nhoque, nhoque, nhoque, nhoque, nhoque
grama verdinha para comer"

“Mas vocês são de um egocentrismo exacerbado!” Para além de todas as outras qualidades, que lhe são muitas, vastas e as mais variadas, ele sempre primou pela extensão de nosso vocabulário. Estórias, contou-nos muitas: de fadas, de heróis, príncipes encantados, cavalos alados, sapos, cabritos e cabras-cabrês. Escondido por trás de uma voz suave, ele não sabia, mas a perspicácia que desde cedo aguçou em nós permitiu-nos descobrir logo que se tratava do Rei do Magnífico Reino de Titotó. Ele próprio, em pessoa! Travestido de estoriador.

Os desavisados que não lograram conhecê-lo e se aperceberem de toda sua glória ririam de meus relatos, afirmando simplesmente “Freud explica”. Pobres coitados! Não sabem a asneira que estariam a falar! Fato é que o tal psicanalista não chegaria perto de explicar-lhe. Minto. Talvez lhe restasse uma chance. É que ao que me consta ele tem alguma experiência no campo dos sonhos... E Sua Majestade tem muito de sonho. Fantasia, utopia... Quanto idealismo! Quantas quimeras! Quantas quintanescas estrelas inatingíveis em seu caminho! Tudo parece feito de sonho em suas mãos. Até a guerra. Sim, não achem que por sua doçura, ele deixa desguarnecido seu reino. Nunca! Antes lhe faltaria fôlego, descanso, sangue, que proteção aos seus. E ele combate o “estado de animosidade permanente” com primor, conquistando alianças inimagináveis! “Belicosas, não passam disso!”, dirá recorrentemente. E suas palavras se tornam verdade. Taí, deve ser por isso que não passamos jamais... Mesmo porque nessa terra não se passa, se passarinha. Decerto é nela que os poetas buscam inspiração.

O Reino de Titotó exala, ainda, um pouco de um comunismo anárquico. Às vezes há mais igualdade que o recomendável... Todos aqui partilham de um ímpeto totalitário, bebem de uma fonte inesgotável de beligerância e urgência petulante. E como falam alto esses absolutistas! Apaixonados por causas, quaisquer que sejam, as perdidas de preferência. Apaixonados pelo amor. Nem que seja à argumentação.

Aqui se ama demais... Se é que se pode dizer que qualquer amor é demais. Melhor seria então falar que aqui se ama o suficiente? Também impreciso. Como delimitar a suficiência no que toca ao amor? Direi que aqui se ama, então, e tão-somente ama-se. Perdão, mais uma vez. "E tão-conjuntamente ama-se". Agora sim.

Certa feita me sorriu a sorte e pude dividir com Sua Majestade um jardim. Havia tanto o que lhe perguntar... De que modo agir? Como se portar? Que escudos vestir? Que lutas travar? Quais alianças formar? Quando e em que ritmo seguir? E pra onde? Quando esperar? E mais um milhão de porquês característicos e "mas e se" escalafobéticos. Mas (pasme!) as perguntas todas me fugiram...

Com meu totalitarismo particular completamente devastado, encontrava-me perdidamente segura em seus braços.

“Olha a Babu, filha”, ele falou.

E basta.

Sempre me bastou.

Um comentário:

  1. juro mesmo, não me lembrar de algum dia ter testemunhado um texto tão singelo e absoluto, tão cativante e eficiente, para falar de um pai. Contagia esse amor que tu fez questão de fazer exalar em cada palavra. brigado, natália. (;

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