terça-feira, 17 de agosto de 2010

Poema verde

Sinto que minha arte carece de maturação.
Qual fruto caído precoce da árvore,
qual infante amor entalhado - prematuro - na árvore,
falta-lhe decerto alguma maturação.

Se fosse outra de mim
e tivesse vazio o estômago,
tivesse uma úlcera, um câncer, um pneumotórax, uma convulsão.
Se tivesse vazio o estômago
ou cheio de mágoa esse coração,
e meus precoces amores talhados na árvore
agonizassem caídos e apodrecessem no chão.
E se doesse o coração por vazio,
o estômago ulcerado de raiva ou decepção,
mas não.

Se tivesse uma casa na árvore
e lá entulhasse as infantes lembranças
de frutos caídos precoces
e dores talhadas no estômago
os guardasse a salvo do esquecimento
e de toda resignação...

Se saqueasse
os casais
que talham
seus nomes
na árvore
lhes roubasse
um vintém
de paixão
e do poeta
absorto
na sombra
da árvore
alguma
inspiração...

E se tivesse vazio o estômago!

Me fizesse
vermelha
e pregasse
na árvore
chamados pra
revolução
ou me fizesse
beata
e pregasse
da árvore
a ressurreição...

Nem que entornasse
o orvalho
das folhas,
nem que roubasse
dos pintassilgos
nos galhos
toda a composição,
ou virava poema
ou virava canção.
Se me restasse
alguma imaginação
e tivesse vazio o estômago.

Pois que me falta maturação,
me entalho no tronco
da árvore:
iniciais erodidas
em um só coração.
Pois que quero vazio o estômago
lanço aos canteiros
o fruto do âmago
ainda em gestação.
Aos canteiros,
os frutos
e a úlcera
do estômago
talhada
por toda essa
insatisfação.

Se tivesse vazio o estômago
e o coração houvesse
caído no chão,
haveria de restar
de tal falta de fôlego
alguma respiração.
Haveria de restar
de tal falta de fôlego
mesmo alguma razão,
se tivesse uma casa na árvore
ou encrustada uma úlcera no coração.

E caberia na arte todo lirismo,
os protocolares puristas,
quiçá o parnasianismo,
pois que vazio o estômago,
liberto até da libertação.

Mas não.

Sou fruto caído
precoce
da árvore
sem maturação.

2 comentários:

  1. Nem semente, nem fruto caído precoce da árvore: você é flor e exala o cheiro da poesia.

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  2. Fiquei com o adubo.
    Inspiro-me nos velhos tempos da metapoesia.
    È bom, é muito bom. :o)

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