terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tinha uma muriçoca sugando meu sangue embaixo da mesa

Tinha uma muriçoca sugando meu sangue embaixo da mesa.
Não nego que senti a ardência, desde o comecinho, mas deixei que a bandida prosseguisse no seu ato instintivo, animalesco, de roubar algumas gotas de meu sangue. De fato, assim se sucedeu, numa catarse meio masoquista mesmo. Paralisada de sentidos por breves segundos, eu suportei aquela coceira com uma solidariedade admirável para com o pobre inseto que, coitado, só estava a se alimentar. Sempre simpática com as coisas da natureza, herança de alguém criada por um ambientalista, alfabetizada numa escola que organizava passeatas para revitalização de parques e recolhimento de lixo nas praias. Ah, bons tempos aqueles! Quantas muriçocas me morderam naquela terra quente e úmida que me gestou. Quem hoje me encontra nessas bandas secas e retorcidas do Planalto, saiba que sou filha do manguezal, areada, úmida, lamacenta, meio suja até. É que eu trago de berço a capacidade de fincar raízes até mesmo na lama. E nem tente desqualificá-las por frágeis que porventura sejam, ainda assim, serão raízes... Em terra de mangue, desde cedo se aprende que andar caranguejando não quer dizer andar pros lados sem seguir adiante, mas sim seguir sempre olhando pra frente, nem que seja pra enfiar a cara inteira, mas ela todinha mesmo, de frente, na lama. Hoje eu ando devagar porque eu tenho pressa e não gosto de voltar atrás pra perceber que errei o caminho, que caminho certo a gente inventa. E, às vezes, eu caranguejo na lama – aí é que faço uma festa! O mangue fica pelas beiradas, gosta de margens, de reentrâncias. É lá que se instala, no meio do caminho entre a terra e a água, a salobra, de preferência. Sujeito ao regime das marés, numa obediência lerda, ciente de sua coadjuvância ou sabedora presunçosa da fartura da biodiversidade que tem escondida na sua sujeira, na pobreza do seu solo, na deficiência de seu oxigênio. Também me falta o ar, recorrentes vezes inclusive, mas é de hipereficiência da minha expiração. Nisso tenho que admitir dever ao mangue em aprendizado... Em mim fala mais forte o ímpeto das marés, essa sanha de ser arrebatadora a cada quebrar de ondas, violenta força erosiva de encostas, de formações rochosas, e, sem querer, de castelos de areia... Mas é que sou filha também do litoral. Na amplidão das praias onde desde cedo me vi brincar, munida de minhas armas imbatíveis – baldinho, protetor solar e uma curiosidade saliente –, eu desnudo dunas e esconderijos de índios imaginários, e caminho encarando o vento só pelo sabor sem igual que me chega à língua pelo nariz irritado, pelos poros abertos de sol, pelos pés afundados na terra. É um gosto de salmoura que, desde que fui transportada pra esse outro ecossistema donde hoje me derramo nessa catarse, identifico como sendo o (dis)sabor da saudade. Essa salmoura corre nas minhas veias abertas e escancaradas como a praia do Araçagi, que pulsam em volume máximo na balbúrdia dominical do Meio; um sangue familiar, nostálgico de eras douradas e esperançoso de glórias vindouras como o Olho d`Água. A saudade, pra mim, é salgada. E ela corre nas minhas veias! É um tempero que, com tamanha presença, caprichado, dizem fazer mal à saúde, por indigesto e comprometedor da pressão. Aos que não têm costume, de fato, tem pleno cabimento a advertência... Mas eu o trago nas veias, pulsante, costeiro, lamacento, frágil feito mangue, impetuoso feito maré, irrigando cada pedaço de mim!
Pobre muriçoca atrás de sangue doce...

3 comentários:

  1. Os teus amigos do Cerrado não compreenderão metade desse texto. A não ser que conheçam essas bandas de cá. Se não, no máximo a muriçoca...
    E se ela, atrás de sangue doce, encontrou o salgado, em compensação se esbaldou no lirismo da poeta.

    Quando chega no msn, um 'VOCÊÊ' ou um 'TUUU' - de quem não esquece o Maranhão -, eu sei que vem coisa boa. Mesmo que não diga logo.

    Parabéns ;)

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  2. Apesar de a saudade amargurar algumas vezes, ela traz consigo um dos melhores sentimentos: a própria saudade! Não conheço o Maranhão, mas tenho vontade! Conheço muriçocas - que, aqui, são conhecidos por pernilongos! Aliás, eu as odeio! Rs!

    Um beijão!

    Marquinhos

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  3. A saudade, pra mim, é salgada.

    Disseste tudo! tb sou de lá e moro em bsb!

    Luís Carlos Ramos

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