Aguardaria com toda a paciência
E seu jeito doce meio abnegado
Virgem sem um pingo de pecado
Outra chance de lhe deslumbrar.
Olhe como ela equilibra franzina esse fardo!
Enquanto rodopia nas pontas dos dedos do pé
Tamanho 33 -
Diga como Bandeira trinta e três... trinta e três... trinta e três...
E respire. E suspire.
Não parece mulher o bastante
Não passa outra vez
De só uma menina qualquer.
Mas como ela nos fascina!
Enquanto se aproxima Nessa tenra pantomina
Com essa suave timidez...
É jovem moça e de belos traços dourados praianos.
Ou será cachoeira, ou mesmo piscina,
Ou rio Paranoá represado em lago
Na falta que faz oceano...
Mas quanta languidez!
Plácida, ora embota, até que flutua na lama.
Sem nascente, sem curso, sem rumo,
Segue sem desembaraço
Em seu encalço
Em lentos e tristes passos
Em errantes e lazarentos passos
Em certeiros e apaixonantes tropeços
Em direção ao tormento da foz.
Eis que serelepe ela rodopia
Rodopia, rodopia...
É mais uma vez uma linda bailarina!
Não há palavra que exprima
Tamanha beleza traquina
Façanha que faz a intensa menina
Que ensaia transbordar-se na densa mata
Formando igapós...
Ela desce, ela dança, ela flutua acima
Com todos os possíveis compassos
E domina cada pedaço do palco
Tomando pra si também o aeroespaço
Sem que causasse qualquer estardalhaço
Ainda que risse mais risos do que todos nós.
Então sói soltarem-se os laços
Então desce a cortina feroz
Ao que os mortais
Mortificados em transe
Timidamente aplaudimos
Sem voz...
Veja as coisas como elas são: a carroça, a dama, o louco, o trunfo, a mão, o enforcado, a dançarina, numa cortina, o encarnado, a dançarina... E existe pecado do lado de cá do Equador! Foi um sonho medonho desses que às vezes a gente sonha e não tem linhas sua palma! E a muralha ecoa e incomodada estou, num corpo estranho: um galeão no lodo, jogada num quintal, enxuta, a concha que guarda o mar. Sou sem nome, sem lar, sou aquela. Filha da rua, escura onde a dura perdura e não dura muito se cansa e vai chorar atrás da porta. E peito o querubim chato que decretou que eu estava predestinada a ser errada assim. Mas não, não choro ainda não porque a medida do bonfim não me valeu, trocando em miúdos posso guardar que algum futuro amante tenha um violão e nós vamos cantar. A felicidade é de samba e fica por aqui mesmo, de todas as maneiras que há de amar, com açúcar, com afeto, com meus doces prediletos. Agora já passa da hora, meu caro amigo, me perdoe por favor, se eu falo muda, palavras sutis, se gosto de senhas, sussurros ardis. Eu trago no bolso a contravenção e deixo o dito e redito por não dito. Pois é... Tira as mãos de mim, põe as mãos em mim! Meu caro amigo, eu bem queria lhe escrever e mesmo com o correio andando arisco, me arrisco nessa noite de mascarados. Quem é você? Adivinha se gosta de mim. Tão menina, tão menina, entre colombinas, pierrôs. Mas é carnaval! Não me diga mais quem é você, sei que vai querer cantar, e na cantiga talvez um novo amigo vá bater um samba antigo pra você rememorar. Mas a gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando essa gema! Imagina, imagina, hoje a noite a gente se perdeu! E assim adentro a casa amanhecida caminhando na ponta dos pés, como quem pisa nos corações. E assim me vou sumindo por aí, e a cidade não passa de um vão, os letreiros, o colorir, o embaraço da minha visão. Frouxa, frouxa de rir. Tinha cá pra mim que agora sim é fatal que o faz de conta termine, enfim. Mentira... É que pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz. Quem te viu, quem te vê: olha a morena sambando em paz! Cantando e sambando na lama de sapato branco. Olê, olê, olê, olá! Faz samba e amor até mais tarde e tem muito sono de manhã. E de close em close foi perdendo a pose e até sorriu feliz. Daquela vez como se fosse a última, com seu passo tímido, como se fosse máquina, no meio do passeio náufrago, feito um pacote bêbado, como se fosse sábado...