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sábado, 27 de abril de 2013

Um soneto de amor



"O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo
(...)"
Gregório de Matos - Ao braço do Menino Jesus quando apareceu
Eu te dizia 'te adoro' no começo
Se bem me lembro caçoavas
Muito teísta, reconheço, e
Incompatível com o furor que me causavas.

Se encarcerado o sentimento,
Pela impropriedade das palavras,
Incontido, rebelou-se no momento
Em que tornaste a questionar-me se dançava.

Desde então, contigo danço
Os mais doces leves passos
Rodopiando pelas toadas.

Enfim, descanso nos teus braços
E religiosamente me declaro
Por ti inteira apaixonada.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Bailarina


Era uma vez uma menina qualquer.

Apaixonada, desiludida,
Chorosa, carente,
Que se achava bastante mulher.
Só se via, se era,
Vivia ao seu lado.
Só dançava seu fado.
Privada da sua convivência,
Aguardaria com toda a paciência
E seu jeito doce meio abnegado
Virgem sem um pingo de pecado
Outra chance de lhe deslumbrar.

Olhe como ela equilibra franzina esse fardo!
Enquanto rodopia nas pontas dos dedos do pé
Tamanho 33 -
Diga como Bandeira trinta e três... trinta e três... trinta e três...
E respire. E suspire.
Não parece mulher o bastante
Não passa outra vez
De só uma menina qualquer.
Mas como ela nos fascina!
Enquanto se aproxima
Nessa tenra pantomina
Com essa suave timidez...

É jovem moça e de belos traços dourados praianos.
Ou será cachoeira, ou mesmo piscina,
Ou rio Paranoá represado em lago
Na falta que faz oceano...
Mas quanta languidez!
Plácida, ora embota, até que flutua na lama.
Sem nascente, sem curso, sem rumo,
Segue sem desembaraço
Em seu encalço
Em lentos e tristes passos
Em errantes e lazarentos passos
Em certeiros e apaixonantes tropeços
Em direção ao tormento da foz.

Eis que serelepe ela rodopia
Rodopia, rodopia...
É mais uma vez uma linda bailarina!
Não há palavra que exprima
Tamanha beleza traquina
Façanha que faz a intensa menina
Que ensaia transbordar-se na densa mata
Formando igapós...

Ela desce, ela dança, ela flutua acima 
Com todos os possíveis compassos
E domina cada pedaço do palco
Tomando pra si também o aeroespaço
Sem que causasse qualquer estardalhaço
Ainda que risse mais risos do que todos nós.

Então sói soltarem-se os laços
Então desce a cortina feroz
Ao que os mortais
Mortificados em transe
Timidamente aplaudimos
Sem voz...

sábado, 16 de julho de 2011

Forrozeado


"Óia eu aqui de novo, xaxando
óia eu aqui de novo, para xaxar
vou mostrar pr'esses cabras
que eu ainda dô no couro
isso é um desaforo
que eu não posso levá
óia eu aqui de novo, xaxando
óia eu aqui de novo, cantando
óia eu aqui de novo, mostrando
como se deve xaxar"
[Luiz Gonzaga - Óia eu aqui de novo]

É no rala e rola
Do rala coxa
Do embola e bola
Da dança frouxa
Que tu me dás bola
Com a boca roxa
Te agarro a gola
Te jogo na colcha
Mas se me enrolas
Me fazes de trouxa
Eu te mando embora
Teu lugar é fora
Não me vem com poxa

É no rala coxa
Do rala rola
Da dança frouxa
Do embola e bola
Que tu me namoras
Com a boca xoxa
E tu me adoras
Quando eu digo poxa
Mas se me esfolas
Eu te mando embora
Teu lugar é fora
Pega a tua trouxa.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Caminhada




"My heart is like an open highway
Like Frankie said
I did it my way
I just wanna live while I'm alive
It's my life."
[Bon Jovi - It's my life]

"Amanhã!
Está toda a esperança
Por menor que pareça
Existe e é pra vicejar
Amanhã!
Apesar de hoje
Será a estrada que surge
Pra se trilhar
Amanhã!
Mesmo que uns não queiram
Será de outros que esperam
Ver o dia raiar
Amanhã!"
[Guilherme Arantes -  Amanhã]


tão gostoso afã
com o sol quase posto
no oposto da via
ao agosto do dia
pois suposto havia
que já era amanhã
quando vi que ainda tinha
muitos metros de via
muitos rastros de dia
muita vida bravia
muita melodia pagã

quinta-feira, 17 de março de 2011

Musicado


Jazz jazz jazz
Martela minha cabeça
Faz tum tum tum tum
Coração no descompasso
Mercy mercy mercy
Fly me to the moon
Que ela azul me viu sozinha
Eu e minhas coisas favoritas
Em um tom sentimental
Eu e meu sentimentalismo
In a mellow tone
Cantando roucos sob a chuva
Jazz jazz jazz
Night and day, in my solitude
Só danço samba, só faço samba
E me entrego em transe ao improviso
Aiaiaiai
Muito riso, pouco siso
I won't dance, don’t ask me
Só se for de rosto colado maçãs com maçãs
Como estranhos numa noite
Então tenha um breve sonho comigo
Então esqueça tudo, só sinta o ritmo
A cadência, a mais absoluta incoerência,
Ardente latência da língua e dos pés
Tensos e trêmulos, gigolôs efêmeros
Desesperados por jazz jazz jazz...

sábado, 2 de outubro de 2010

Chico pelas tabelas**

Veja as coisas como elas são: a carroça, a dama, o louco, o trunfo, a mão, o enforcado, a dançarina, numa cortina, o encarnado, a dançarina... E existe pecado do lado de cá do Equador! Foi um sonho medonho desses que às vezes a gente sonha e não tem linhas sua palma! E a muralha ecoa e incomodada estou, num corpo estranho: um galeão no lodo, jogada num quintal, enxuta, a concha que guarda o mar. Sou sem nome, sem lar, sou aquela. Filha da rua, escura onde a dura perdura e não dura muito se cansa e vai chorar atrás da porta. E peito o querubim chato que decretou que eu estava predestinada a ser errada assim. Mas não, não choro ainda não porque a medida do bonfim não me valeu, trocando em miúdos posso guardar que algum futuro amante tenha um violão e nós vamos cantar. A felicidade é de samba e fica por aqui mesmo, de todas as maneiras que há de amar, com açúcar, com afeto, com meus doces prediletos. Agora já passa da hora, meu caro amigo, me perdoe por favor, se eu falo muda, palavras sutis, se gosto de senhas, sussurros ardis. Eu trago no bolso a contravenção e deixo o dito e redito por não dito. Pois é... Tira as mãos de mim, põe as mãos em mim! Meu caro amigo, eu bem queria lhe escrever e mesmo com o correio andando arisco, me arrisco nessa noite de mascarados. Quem é você? Adivinha se gosta de mim. Tão menina, tão menina, entre colombinas, pierrôs. Mas é carnaval! Não me diga mais quem é você, sei que vai querer cantar, e na cantiga talvez um novo amigo vá bater um samba antigo pra você rememorar. Mas a gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando essa gema! Imagina, imagina, hoje a noite a gente se perdeu! E assim adentro a casa amanhecida caminhando na ponta dos pés, como quem pisa nos corações. E assim me vou sumindo por aí, e a cidade não passa de um vão, os letreiros, o colorir, o embaraço da minha visão. Frouxa, frouxa de rir. Tinha cá pra mim que agora sim é fatal que o faz de conta termine, enfim. Mentira... É que pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz. Quem te viu, quem te vê: olha a morena sambando em paz! Cantando e sambando na lama de sapato branco. Olê, olê, olê, olá! Faz samba e amor até mais tarde e tem muito sono de manhã.  E de close em close foi perdendo a pose e até sorriu feliz. Daquela vez como se fosse a última, com seu passo tímido, como se fosse máquina, no meio do passeio náufrago, feito um pacote bêbado, como se fosse sábado...


**Todo esse texto foi construído com recortes de canções de Chico Buarque. Tratam-se, nessa ordem de aparição, das seguintes: As Cartas, Não existe pecado ao sul do Equador, Não sonho mais, Sonhos sonhos são, A ostra e o vento, Sob medida, Atrás da porta, Até o fim, Olê, Olá, Trocando em miúdos, Futuros AmantesDe todas as maneirasCom açúcar, com afetoMeu caro amigoHino de DuranPois éTira as mãos de mimNoite dos MascaradosVai levandoImaginaA volta do malandroAs vitrinesSamba do grande amorJoão e MariaQuem te viu, quem te vêDeixa a meninaCantando no toróSamba e amorA história de Lily BraunConstrução.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Um bemol por que não?!


Aqueles olhos que me encantaram
Em outros cantos há muito passados
E a tantas outras decerto cantaram
E já me encheram de música
E me abarrotaram de tantos
Quando éramos tantos 
Quantos fôssemos ambos
E me bastavas até me cansar
Hoje me pedem em franco retorno
Que lhes compartilhe uma leda canção
Queda-me pois morno o peito calado
Ante tamanho furor da amiga surpresa
Assim repentina sem preambular
Que eis-me sem jeito qual desacordado violão
A buscar adequar os trejeitos
Após tantos outros cantos
Ao ritmo próprio de teus dedilhados
E revelo-me tão logo e perdida presa
Já vazia de bastas e esquecida de prantos
Repetindo instigada por que não?!
Embevecida no azul bemol de teu olhar.

sábado, 7 de agosto de 2010

Pas de deux


Me tira pra dança.
Me roda, me gira, me lança.
Me puxa, me joga, me larga, me enlaça.
Me dita o compasso.
Me mede em esquadro.
Me rege em escuro.
Me descompassa.

Me compra, me ganha, me faz uma manha.
Me rende, me entende, me vende.
Me testa, me atenta, me tenta.
Me resta, me nino, me tido.
Me roga, me droga, me molda.
Me sente, me mente, me lê a mente.
Me esconde, me prostra, meu mestre, me mostra.

Me deixa, me busca, me leva.
Me ludibria, me chama.
Me noite, me dia.

Me esconde, me acha, me cansa.
Me tira da dança.
Mentira.