sábado, 2 de outubro de 2010

Chico pelas tabelas**

Veja as coisas como elas são: a carroça, a dama, o louco, o trunfo, a mão, o enforcado, a dançarina, numa cortina, o encarnado, a dançarina... E existe pecado do lado de cá do Equador! Foi um sonho medonho desses que às vezes a gente sonha e não tem linhas sua palma! E a muralha ecoa e incomodada estou, num corpo estranho: um galeão no lodo, jogada num quintal, enxuta, a concha que guarda o mar. Sou sem nome, sem lar, sou aquela. Filha da rua, escura onde a dura perdura e não dura muito se cansa e vai chorar atrás da porta. E peito o querubim chato que decretou que eu estava predestinada a ser errada assim. Mas não, não choro ainda não porque a medida do bonfim não me valeu, trocando em miúdos posso guardar que algum futuro amante tenha um violão e nós vamos cantar. A felicidade é de samba e fica por aqui mesmo, de todas as maneiras que há de amar, com açúcar, com afeto, com meus doces prediletos. Agora já passa da hora, meu caro amigo, me perdoe por favor, se eu falo muda, palavras sutis, se gosto de senhas, sussurros ardis. Eu trago no bolso a contravenção e deixo o dito e redito por não dito. Pois é... Tira as mãos de mim, põe as mãos em mim! Meu caro amigo, eu bem queria lhe escrever e mesmo com o correio andando arisco, me arrisco nessa noite de mascarados. Quem é você? Adivinha se gosta de mim. Tão menina, tão menina, entre colombinas, pierrôs. Mas é carnaval! Não me diga mais quem é você, sei que vai querer cantar, e na cantiga talvez um novo amigo vá bater um samba antigo pra você rememorar. Mas a gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando essa gema! Imagina, imagina, hoje a noite a gente se perdeu! E assim adentro a casa amanhecida caminhando na ponta dos pés, como quem pisa nos corações. E assim me vou sumindo por aí, e a cidade não passa de um vão, os letreiros, o colorir, o embaraço da minha visão. Frouxa, frouxa de rir. Tinha cá pra mim que agora sim é fatal que o faz de conta termine, enfim. Mentira... É que pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz. Quem te viu, quem te vê: olha a morena sambando em paz! Cantando e sambando na lama de sapato branco. Olê, olê, olê, olá! Faz samba e amor até mais tarde e tem muito sono de manhã.  E de close em close foi perdendo a pose e até sorriu feliz. Daquela vez como se fosse a última, com seu passo tímido, como se fosse máquina, no meio do passeio náufrago, feito um pacote bêbado, como se fosse sábado...


**Todo esse texto foi construído com recortes de canções de Chico Buarque. Tratam-se, nessa ordem de aparição, das seguintes: As Cartas, Não existe pecado ao sul do Equador, Não sonho mais, Sonhos sonhos são, A ostra e o vento, Sob medida, Atrás da porta, Até o fim, Olê, Olá, Trocando em miúdos, Futuros AmantesDe todas as maneirasCom açúcar, com afetoMeu caro amigoHino de DuranPois éTira as mãos de mimNoite dos MascaradosVai levandoImaginaA volta do malandroAs vitrinesSamba do grande amorJoão e MariaQuem te viu, quem te vêDeixa a meninaCantando no toróSamba e amorA história de Lily BraunConstrução.

4 comentários:

  1. Bacana!
    Isso me lembra uma idéia que tive com as músicas do Chico. ;)

    ResponderExcluir
  2. Agora descobri: teus textos são pra mim tal qual uma música de Chico interpretada por Roberta Sá.

    "Quando vi a galera aplaudindo de pé as tabelas..."

    Igual eu te aplaudo agora.

    ResponderExcluir