segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Sobre viver

Não há que procurar a esmo
Qualquer etimologia que defina
Se sobreviver, veja bem, não for mesmo
Algo além que viver acima.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Estações

desfolho-me
sinto frio
o cinza
sozinha
me cubro
espio
lá vem o sol
floresço
depressa
num beijo de
passarinho
aqueço
tanto que
até queimo
desfolho-me
descubro-me
despeço-me
despe-me
recomeço

domingo, 13 de novembro de 2016

Outono


"Quando se abriu um buraco nas nuvens, 
me pareceu que sobrevoávamos Budapeste, 
cortada por um rio, O Danúbio, pensei, era 
o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a
cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, 
os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, 
eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, 
mas Budapeste era amarela."
[Chico Buarque - Budapeste]

lá no topo da Citadella era tudo um amarelo só
e de vez em quando um alaranjado
mais queimado pelo tempo ou pelo sol

nestas bandas bastante esplanadas
tanto amarelo seria terra ou talvez fosse flor
colorindo o concreto discreto do eixão

porém lá era amarelo em proliferação
e dançavam balé saltitantes no vento
as folhas restantes em subversão

era tanto amarelo saltimbanco no olhar atento
que se punha a contento disposto em tantos
e tão penetrantes e já tão distantes tons

que no se pôr acizentado destes dias 
sem sombra de som nem de sol ou de sono
ainda resta um bom amarelo por cá

ainda resta se pondo e supondo
com quantos e quais amarelos
se faz um outono passar

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Jet lag

é um estômago embrulhado
quando você acha que o futuro já devia ter chegado
enquanto você dormia.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Florescência - parte II


se tivesse que esboçar
uma prece em
pleno inverno

seria chuva de verão
flores róseas pelo chão
e um poema diminuto

se possível apetece que
entornasse em temporal
esse cerrado enxuto

e então serenasse

florescesse
e serenasse
num minuto

relampeasse
aquiescesse
e desse fruto

mais não carece

só mesmo que fosse
absoluto

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Florescência - parte I


Pois qual Brasília
É na seca
Que floresço

Ave Marias

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
[Adélia Prado - Com licença poética]


Sangrar dias e dias
Contorcer o ventre latejante

Seguir bela e forte
estuporado o torso
supurada a pele
impregnado o cheiro de
          calor e juventude

Chorar um choro intenso
copioso das dores
todas juntas e das juntas
do corpo e da alma da gente
          fêmeas do mundo todo

Penso que é mesmo
um imenso poder
          a se apossar

E nesse passo
          mês a mês
Poder
          vis-à-vis
Gritar-lhe
          contorcida
Eis-me vida
          cheia de graça
Bela forte
          latejante
Quente
          estuporada

Eis-me
          sangue e criação
que vaza e dá vazão
à dor vermelha
          dessa prece
          desse peso
          dessa potência

Eis-me púrpura!

Profana e sagrada
que preza
reza
sangra
cria
pare
          e passa.

Penso que é mesmo
um poder imenso
esse nosso.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Transitoriedade


Contorno o vazio
Vezes seguidas
Como quem perde a saída
Da tesourinha

Estar no trânsito
Ou no caminho
É uma mera questão
De perspectivas

Retorno do transe
Às voltas do eixo
A L4 logo ali
Só minha

Então acelero
E me ultrapasso
Inteira minha

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Ponte para o futuro



Ah, democracia, querida
Eu pensava ter sorte de
Conhecer-te de berço
Filha da queda do muro
E da carta cidadã

Porém, leda criança
Nem ventura, fortuna
Ou quinhão de herança
Pra seguro amanhã
Democracia, és pura
E plural construção

Sabes que minha geração
Do futuro e da pressa
No afã de viver a promessa
Da nova constituição
Deixou a hora por fazer
Inerte no peito a revolução

Teve os olhos useiros de
Avanços alvissareiros
Que há pouco chegaram
A poucos alcançaram
Mas já tão ligeiro se vão
Confundindo esperar com saber
Sem atentar pra lição da canção

Esquálidos herdeiros é o que somos
Não cumprimos a nossa missão
E assististe ao colosso impávido
Apenas sorver seu legado
Sem universalização

Daí que quando o calar da noite
Subvertia o alvorecer do planalto
Na quinta antessala da superstição
Pensamos inda ter algum tempo
Ao menos uma fração de momento
Antes que o retrocesso incauto
Tomasse de assalto a nação

Contudo logo
Se escancararia
Que hoje é mesmo
um
novo
dia 
de
um
novo
tempo
E o passado 
Que a gente temia
Já começou

Mostraste-me, todavia
Que uma geração é tecida
Da partilha aguerrida 
De lutas e sonhos
Não de anos a fio
E que não serias sem luta
Tragada a retorno tão vil
Nem nos livraríamos
Sem perdas do fardo
De um futuro que
Não te garantiu

À minha geração
Então só caberia
Pedir não perdão
Mas licença tardia
Pra seguir com quem
Não nos seguiu 
E hoje ocupa as escolas 
E assume o Brasil

Pois se tal transgeração se unisse
Das escolas às ruas
Campos, construções
Não ia ter quem não visse
Que vamos juntas e iguais
Compor novas e bravas canções

Então vem
Não vamos embora
Que esperançar é não temer
Quem se lembra de outrora
Não irá esmorecer

Então vem
Não vamos embora
Bem se vê sem demora
Que agora só vamos 
Além

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Entre resoluções de ano novo e ter a vida resolvida

"Eu canto porque o instante existe."
[Cecília - Motivo]

O ano de dois mil e dezesseis começou há quarenta e seis dias.

Esse foi o tempo que eu precisei para cumprir a primeira das resoluções deste novo ano que consistia, basicamente, em escrever sobre as resoluções do ano novo. Resoluções que, na verdade, começaram a ser maturadas, como de costume, no final do ano passado, mais especificamente no dia de meu aniversário: a minha virada de ano particular. Setenta e um dias, pois. Check.

Há alguns anos, por muitos anos, as resoluções de uma menina excessivamente metódica e exigente consigo mesma perpassavam uma premissa subliminar de que aos vinte e seis anos ela já estaria com "a vida resolvida". Essa foi a idade em que mamãe me deu à luz. Já estaria formada há três anos, já teria ultrapassado a linha média dos vinte, rumando convictamente em direção aos trinta, aquela idade mítica. Ora, nada mais razoável supor e se propor a resolver a vida até os vinte e seis anos.

Chegado o fatídico marco autoimposto, percebi finalmente: nada razoável supor e se propor a resolver a vida até os vinte e seis anos. Nada razoável supor e se propor a resolver a vida em nenhuma idade, para ser precisa. Pois o que se resolvem são problemas e não me parece razoável encarar a vida, esse maravilhoso absurdo, como um problema equacionável, se sua riqueza reside exatamente na mais absoluta imprecisão. Mais ainda, o que mesmo restaria de vida uma vez que se lhe resolvesse?

Eis a grande virada que os vinte e tantos me proporcionaram: resolvi fazer um esforço consciente para parar de buscar tantas resoluções.

Por certo, não será tarefa de um dia, ou mesmo de um ano sequer. Inauguro, assim, a lista das resoluções de ano novo que precisam de mais que um ano para serem cumpridas. Quiçá de uma vida inteira... Desejo que eu tenha ainda muito tempo, que enfrente inúmeros contratempos, que trace algumas tantas resoluções, mas que persista no compromisso de não encarar a vida como algo a ser resolvido.

Ao final, viver apenas é sempre a definitiva resolução.