segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Entre resoluções de ano novo e ter a vida resolvida

"Eu canto porque o instante existe."
[Cecília - Motivo]

O ano de dois mil e dezesseis começou há quarenta e seis dias.

Esse foi o tempo que eu precisei para cumprir a primeira das resoluções deste novo ano que consistia, basicamente, em escrever sobre as resoluções do ano novo. Resoluções que, na verdade, começaram a ser maturadas, como de costume, no final do ano passado, mais especificamente no dia de meu aniversário: a minha virada de ano particular. Setenta e um dias, pois. Check.

Há alguns anos, por muitos anos, as resoluções de uma menina excessivamente metódica e exigente consigo mesma perpassavam uma premissa subliminar de que aos vinte e seis anos ela já estaria com "a vida resolvida". Essa foi a idade em que mamãe me deu à luz. Já estaria formada há três anos, já teria ultrapassado a linha média dos vinte, rumando convictamente em direção aos trinta, aquela idade mítica. Ora, nada mais razoável supor e se propor a resolver a vida até os vinte e seis anos.

Chegado o fatídico marco autoimposto, percebi finalmente: nada razoável supor e se propor a resolver a vida até os vinte e seis anos. Nada razoável supor e se propor a resolver a vida em nenhuma idade, para ser precisa. Pois o que se resolvem são problemas e não me parece razoável encarar a vida, esse maravilhoso absurdo, como um problema equacionável, se sua riqueza reside exatamente na mais absoluta imprecisão. Mais ainda, o que mesmo restaria de vida uma vez que se lhe resolvesse?

Eis a grande virada que os vinte e tantos me proporcionaram: resolvi fazer um esforço consciente para parar de buscar tantas resoluções.

Por certo, não será tarefa de um dia, ou mesmo de um ano sequer. Inauguro, assim, a lista das resoluções de ano novo que precisam de mais que um ano para serem cumpridas. Quiçá de uma vida inteira... Desejo que eu tenha ainda muito tempo, que enfrente inúmeros contratempos, que trace algumas tantas resoluções, mas que persista no compromisso de não encarar a vida como algo a ser resolvido.

Ao final, viver apenas é sempre a definitiva resolução.



2 comentários:

  1. Tenho passado pelo mesmo processo há algum tempo, ainda que por vezes veja só como autoindulgência. Um dia desses, num jantar com o Luís Augusto Cassas, ele me perguntou sobre a vida, eu lhe contei planos e ele me questionou a idade. 23, respondi à época. Depois de isso dito, ele me olhou com muita calma e disse - Ah, ainda está tudo aberto. E isso pra mim tem feito cada vez mais sentido.

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