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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
Canção do Exílio
Minha terra tem palmeiras
Tem Josué e tem Gullar
Tem o Gonçalves de outros Dias
Dias de sol, lençóis de mar
Minha terra tem palmeiras
Tem cuxá e sarnambis
Tem bacuri e babaçu
Turiaçu e o mais doce dos abacaxis
Minha terra tem palmeiras
Tem cultura popular
No São João, bumba meu boi
Gira menina no cacuriá
Minha terra tem palmeiras
Sangue indígena, negras veias
É portuguesa em suas correias
E quase nada tem da França
Minha terra tem palmeiras
Tem cantaria e casario
Azulejado azul anil
Com amarelo de Bragança
E ainda que noutras ladeiras
Eu cantarolo e anuncio
Das trincheiras de criança
Escancarado o meu baú:
A minha terra tem palmeiras!
Foi a Ilha que me pariu!
Em qualquer canto do Brasil
Sou filha de Upaon-Açu!
Pois no sotaque e nas lembranças derradeiras
Vida é manha e abastança passageiras
E onde eu danço, giro e chio
Teu "você" será meu "tu".
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Saudade
Meu primo, Telinho, nosso pequeno bon vivant,
vai com Deus e descanse em paz...
vai com Deus e descanse em paz...
Cuidaremos dos seus.
Não há lugar mais vazio no mundo que um cemitério.
Nem toda dor, que preenche até transbordar os corações dos presentes
Nem o semblante tranquilo, que ao olhar descuidado - e ao esperançoso, incrédulo -
até parece dormir, de quem se vai
Nem as coroas de flores que emolduram e amontoam-se pelas paredes
Nem a lágrima, nem o grito, nem o silêncio
Nem a tristeza embalada a vácuo
Nada, nada, nada…
Não há lugar mais vazio no mundo que um cemitério
Porque ele todo é feito de ausências...
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Para Ju
Que ainda não sabe ler
(Mas é sabida que só!)
"É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr
E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter"
[Vinícius de Moraes - O filho que eu quero ter]
Recostada ela cochila em meu ventre
Com dedos passeio nos cabelos seus
Quisera restar aqui para sempre
Na doce companhia - e macia! - destes camafeus.
Admirada suspiro tranquila
Quase esqueço a hora do adeus
Inebriada pela camomila
Que exala e enfeitiça nobres e plebeus.
És do mundo a oitava maravilha
Perfeita obra prima de Deus.
Te chamo, meu bem, quase filha
Te amo muito mais do que eu...
domingo, 8 de janeiro de 2012
Bodas de prata
(A pedidos, aqui vai a mensagem que falei aos meus pais na missa de bodas de prata, no último dia 6).
Boa noite a todos os amigos aqui presentes. Boa noite pai, mãe.
Eis que recebi a importante tarefa de falar sobre os 25 anos de casamento de meus pais. Em princípio pensei, bom, destes 25 anos, vivenciei e testemunhei 22, quase a totalidade. Isso deveria me dar alguma tranquilidade e muita propriedade para tratar do assunto. Rapidamente, porém, com alguma reflexão, os 22 passaram a ser apenas 10, cujas lembranças eram mais vívidas e quando a minha idade não tão tenra já me permitia de fato apreender, em lições diárias, o que torna esse casamento tão especial... Lembro que uma vez perguntei pra mamãe a receita, ao que ela me respondeu: "Ahh minha filha, só o que sustenta uma relação por tanto tempo é respeito, admiração e muito amor".
Mas ora! Amor é o tipo da coisa que criança talvez saiba bem melhor que adultos. E amor eu conheço desde o comecinho da vida. Salva pelo gongo!
Há alguns anos foi feita uma pesquisa com crianças de 4 a 8 anos sobre a definição de amor. Uma das respostas mais interessantes foi que amor é quando você fala para alguém algo ruim sobre si mesmo e sente medo que essa pessoa não venha a te amar por saber disso, aí você se surpreende, porque a pessoa não só continua te amando, como agora te ama mais ainda. Pois já há algum tempo venho achando que a gente se apaixona não pelas qualidades das pessoas, mas pelos defeitos. É quando as falhas, que todos temos, tornam-se toleráveis, admissíveis e até engraçadinhas, encantadoras, que o amor floresce.
Sinto decepcionar aqueles que ainda estão em busca de seu par perfeito, mas, cada vez mais, parece-me que amores perfeitos não existem. Primeiro porque somos todos imperfeitos. Depois, o amor, para dar certo, é sempre incompleto, pois demanda que sejam depositadas novas doses de amor todos os dias; e é assim, nesse permanente e constante processo de completar-se, que se revela pleno.
Há 25 anos, meus pais se amam todos os dias. Amam e admiram as inúmeras qualidades que saltam aos olhos em um e outro e aquelas mais escondidas, que requerem segundos, terceiros, vigésimos quintos olhares... E amam e respeitam as pequenas falhas que vez por outra despontam. Amam-se na imperfeição que nos torna humanos. Amam a imperfeição que torna o próprio amor possível.
Mas aos meus olhos de filha, apaixonada aprendiz, eles ainda são um casal de super-heróis, um romântico par shakespeariano, um casal protagonista de comédias românticas ou novelas das nove... E eu os amo, admiro e respeito, absolutamente.
domingo, 25 de setembro de 2011
Saudades, vô
* http://canteirosdemim.blogspot.com/2011/02/vo_28.html
Há 1 mês, o Cara lá de cima nos levou nosso Rei Daniel.
Quando nos confrontamos com uma perda de tal magnitude - no meu caso, uma das primeiras - é difícil encarar o caminho à frente, é difícil aceitar a triste conjuntura do Universo, que simplesmente leva e traz pessoas para as nossas vidas, em um compasso incerto e, certamente, nunca justo. Simplesmente porque o valor de cada pessoa será sempre incompensável.
Sinto saudades, vô. Assim mesmo, no plural. Saudades do seu sorriso, da sua carequinha branca e achatada de cearense teimoso, das suas dores que me faziam sentir tão besta reclamando das minhas costas, dos almoços na casa de praia, de dormir com o maiô por baixo do pijama para não perder tempo quando o senhor nos chamasse de madrugada para assistir ao nascer do sol na praia, de subir a duna enorme que divide até hoje o Olho D`Água do Calhau - e a realidade da fantasia -, dos índios que nunca existiram nos buracos dessa mesma duna, de lhe pedir a benção… Sinto saudades.
Saudade é um sentimento velho conhecido nosso, desde que em 2003 nos mudamos para esse Planalto, sem dunas, índios e casas da praia. Mas com a distância, aos poucos, depois de várias despedidas tão dolorosas que mais pareciam nos cortar um pedaço do coração, enquanto subíamos a escada rolante da sala de embarque, fomos aprendendo que saudade é diferente de tristeza. Deus nos fez tão incríveis, que conseguimos aprender a viver com a saudade, esse sentimento tão salgado, quanto as lágrimas que vêm aos olhos quando nos recordamos; quanto a água do mar batendo nos pés do senhor, que nos esperava dar o primeiro mergulho do dia, de que tanto nos recordamos.
Ele lhe levou há 1 mês, no dia do aniversário de papai; e hoje é o dia do aniversário de vovó. Parece que até nisso, Ele pensou, para que tivéssemos motivos de nos lembrar do senhor não com tristeza, mas com saudades e até alguma alegria.
Há um mês, foi-se nosso Rei Daniel, mas ficou nossa Rainha Oneide, para que dela cuidemos com todo o nosso coração. Dele, nós nos lembraremos sempre com toda a saudade do mundo...
"A saudade, descida no coração do tempo para resgatar
o tempo - o nosso, pessoal ou coletivo -, é como uma
lâmpada que recusa apagar-se no meio da Noite.
Talvez nos torne estranhos e mesmo complascentes com
essa estranheza, mas esse sentimento é puramente ilusório.
Sob outros nomes ou sem nomes, a saudade é universal,
não apenas como desejo de eternidade, mas como
sensação e sentimento vividos de eternidade.
Ela brilha sozinha no coração de todas as ausências."
[Eduardo Lourenço - Mitologia da Saudade]
Há 1 mês, o Cara lá de cima nos levou nosso Rei Daniel.
Quando nos confrontamos com uma perda de tal magnitude - no meu caso, uma das primeiras - é difícil encarar o caminho à frente, é difícil aceitar a triste conjuntura do Universo, que simplesmente leva e traz pessoas para as nossas vidas, em um compasso incerto e, certamente, nunca justo. Simplesmente porque o valor de cada pessoa será sempre incompensável.
Sinto saudades, vô. Assim mesmo, no plural. Saudades do seu sorriso, da sua carequinha branca e achatada de cearense teimoso, das suas dores que me faziam sentir tão besta reclamando das minhas costas, dos almoços na casa de praia, de dormir com o maiô por baixo do pijama para não perder tempo quando o senhor nos chamasse de madrugada para assistir ao nascer do sol na praia, de subir a duna enorme que divide até hoje o Olho D`Água do Calhau - e a realidade da fantasia -, dos índios que nunca existiram nos buracos dessa mesma duna, de lhe pedir a benção… Sinto saudades.
Saudade é um sentimento velho conhecido nosso, desde que em 2003 nos mudamos para esse Planalto, sem dunas, índios e casas da praia. Mas com a distância, aos poucos, depois de várias despedidas tão dolorosas que mais pareciam nos cortar um pedaço do coração, enquanto subíamos a escada rolante da sala de embarque, fomos aprendendo que saudade é diferente de tristeza. Deus nos fez tão incríveis, que conseguimos aprender a viver com a saudade, esse sentimento tão salgado, quanto as lágrimas que vêm aos olhos quando nos recordamos; quanto a água do mar batendo nos pés do senhor, que nos esperava dar o primeiro mergulho do dia, de que tanto nos recordamos.
Ele lhe levou há 1 mês, no dia do aniversário de papai; e hoje é o dia do aniversário de vovó. Parece que até nisso, Ele pensou, para que tivéssemos motivos de nos lembrar do senhor não com tristeza, mas com saudades e até alguma alegria.
Há um mês, foi-se nosso Rei Daniel, mas ficou nossa Rainha Oneide, para que dela cuidemos com todo o nosso coração. Dele, nós nos lembraremos sempre com toda a saudade do mundo...
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quarta-feira, 6 de julho de 2011
Espelho (ou Meus Onze Anos)
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!"
[Oswald de Andrade - Meus oito anos]
Ao me olhar no espelho
Tenho a impressão
De que meu corpo inteiro
Está em transformação.
Já não sei se sou eu
Já não tenho a mesma aparência
Mudei e não percebi ?
Ou então não mudei, apenas cresci.
Pergunto-me o que pensam de mim
Será que todos ficam assim?
O que já foi não será de novo
Ou será que voltará em lembranças
Do meu tempo de criança?
Estou pulando etapas
Ainda não cheguei na adolescência.
Se continuar assim
Vou passar minha vida sonhando...
Ainda sou criança
Minha infância ainda não chegou ao fim.
Porém, temos que lembrar
Que o que passou não voltará
Pois o tempo passa,
Infelizmente...
Ou será que para o bem da gente?
Que o que passou não voltará
Pois o tempo passa,
Infelizmente...
Ou será que para o bem da gente?
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quarta-feira, 22 de junho de 2011
Sobre Júris e Pais Chicos
"Escutou-se, de repente, um disparo. Parecia mais um
relâmpago, mas um segundo tiro não nos deixou dúvidas.
Razão tinha o nosso militar:
perante o tiro, certo ou falhado, toda a gente sempre morre".
perante o tiro, certo ou falhado, toda a gente sempre morre".
[Mia Couto - Antes de nascer o mundo]
Mas esses dias outro Chico me tomou a mente e, desde então, sinto-me como na obrigação de retratar sua história. Essa que não tem melodia e muito menos o brilho e as cores das fitas do bumba-meu-boi. Essa estória com h.
Pai Chico matou o boizinho. Chico matou alguns. Pai Chico matou pra alimentar a mulher grávida. A motivação íntima do outro Chico se desconhece por inteiro, mas diz-se revestida por torpeza. E parece que uma vez assim qualificado o ato, desqualifica-se o acusado na mesma proporção...
Chico não ostentava chapéu, tampouco paetês. Só uma camisa branca surrada, com um colarinho que teimava em virar pra fora, disforme, de tão velho que estava. E pensar que o colarinho branco em outros tem sentido e consequências completamente distintas... Talvez porque melhor lavado. Talvez porque o caso fosse de lavagem, mesmo.
Pai Chico recorreu a pajés, índios e caboclos para ressuscitar o boizinho precioso. Chico tinha a seu lado estudantes e advogados confiantes na sua inocência. Pai Chico lutava contra vaqueiros. Chico precisava convencer 7 cidadãos do povo, de notória idoneidade, de que apesar de não ser tão "idôneo", aquele crime não fora ele quem cometera.
Mas a dança do júri é mais cruel que o bumba-boi e segue a um triste compasso em que uma vez condenado, para sempre culpado, para sempre bandido, para sempre marginal... Ainda mais se traficante, ainda mais se homicida, ainda mais se preto, ainda mais se pobre, ainda mais se lá da estrutural...
Ê boi...Pai Chico matou o boizinho. Chico matou alguns. Pai Chico matou pra alimentar a mulher grávida. A motivação íntima do outro Chico se desconhece por inteiro, mas diz-se revestida por torpeza. E parece que uma vez assim qualificado o ato, desqualifica-se o acusado na mesma proporção...
Chico não ostentava chapéu, tampouco paetês. Só uma camisa branca surrada, com um colarinho que teimava em virar pra fora, disforme, de tão velho que estava. E pensar que o colarinho branco em outros tem sentido e consequências completamente distintas... Talvez porque melhor lavado. Talvez porque o caso fosse de lavagem, mesmo.
Pai Chico recorreu a pajés, índios e caboclos para ressuscitar o boizinho precioso. Chico tinha a seu lado estudantes e advogados confiantes na sua inocência. Pai Chico lutava contra vaqueiros. Chico precisava convencer 7 cidadãos do povo, de notória idoneidade, de que apesar de não ser tão "idôneo", aquele crime não fora ele quem cometera.
Mas a dança do júri é mais cruel que o bumba-boi e segue a um triste compasso em que uma vez condenado, para sempre culpado, para sempre bandido, para sempre marginal... Ainda mais se traficante, ainda mais se homicida, ainda mais se preto, ainda mais se pobre, ainda mais se lá da estrutural...
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Vô
pelos seus 82 anos
e outros tantos que virão.
São feitos de uma substância
Que tem um quê de querência
Um susto de sustância
E sopro de pura infância
Contra o tique besta do relógio.
Presença de muita relevância
Dos idos tempos de criança
Em dunas, castelos de almofada e varianças
E nas danças do colégio.
Com uma firmeza que não se encerra
E uma grandeza que não se toca
Conquistou uma rainha, mundos, fundos e corações.
Ele veio lá da Meruoca
Casinha humilde meio à serra
Longe que nem um impropério.
Pois o meu vô é um caso sério
Matéria de sonhos e canções
Por tudo isso e o que não sei...
Márrapaz...
Que descoberta!
Capaz de num ser vô, mas rei!
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Cantaria
fontes, cantarias
torres e mirantes
igrejas, sobrados.
Nas lentas ladeiras
que sobem angustias
sonhos do futuro
glórias do passado."
[Louvação a São Luís - Bandeira Tribuzzi]
São pedras de cantaria
Ao pé dos casarios azulejados
E os braços de mar sitiados
Por mangues e pobres palafitas
Que carregam teus filhos
Esquecidos pelos donos da terra
Para onde ainda cantem os sabiás.
São dias de santos e tradições
Em que palhoças abrigam
Quitutes, não filhos,
E mesas de gente sorrindo admiram
As mulheres a girar com graça
No cordão de cacuriá.
São toadas e sotaques
Em largas e abertas praças
Que gritam contra o esquecimento
E fazem dançar teus mesmos filhos
Ao som ritmado dos maracás.
Aguarda-se o desfecho da saga da língua roubada do boi que alimentou os desejos de Catirina. A ansiedade nervosa sempre inédita ante seguidos, já quase incontáveis, anos da mesma história. Capatazes se sucedem numa sequência de opressões roucas que tensionam até os cazumbás useiros de risos por trás de suas máscaras. Índios e caboclos dançam e obedecem aos vaqueiros na busca do rebelde Chico. Pobre Chico achou que poderia roubar o amo e matar-lhe o novilho mais querido para agradar a mulher e o filho que esperavam. Onde já se viu mulher de Chico ter desejo?! Resta confiar nos pajés para ressuscitar o boizinho e voltar a dançar. Nos pajés, a esperança de Chico e da dança. E agora, Chico? Chico, até quando?! Até quando o José?!
E assim suportam calados a sina.
Entretido na dança o espírito
E amortecida a barriga,
Uns poucos de camarão e cuxá
Ao resto, farinha com água.
Mal sentem falta da outra língua
Que lhes foi roubada
Pelos donos do mar.
Mas são as pedras de cantaria
Que hoje eu canto.
Destoutra jovem terra
Destas ruas que não têm teus nomes
Nem tua poesia, nem teus filhos,
Nem tuas esquinas que viveram tanto.
Sinto-me um daqueles fidalgos desterrados
A me doutorar nas leis do Império
E viver no conforto da Corte
Enquanto a minha terra tem doutores
Que desafinam os sabiás.
Na minha língua cortada do cerrado,
Secura, impotência e o gosto saudoso salgado:
Daqui amargo a distância das palmeiras de lá.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Tinha uma muriçoca sugando meu sangue embaixo da mesa
Não nego que senti a ardência, desde o comecinho, mas deixei que a bandida prosseguisse no seu ato instintivo, animalesco, de roubar algumas gotas de meu sangue. De fato, assim se sucedeu, numa catarse meio masoquista mesmo. Paralisada de sentidos por breves segundos, eu suportei aquela coceira com uma solidariedade admirável para com o pobre inseto que, coitado, só estava a se alimentar. Sempre simpática com as coisas da natureza, herança de alguém criada por um ambientalista, alfabetizada numa escola que organizava passeatas para revitalização de parques e recolhimento de lixo nas praias. Ah, bons tempos aqueles! Quantas muriçocas me morderam naquela terra quente e úmida que me gestou. Quem hoje me encontra nessas bandas secas e retorcidas do Planalto, saiba que sou filha do manguezal, areada, úmida, lamacenta, meio suja até. É que eu trago de berço a capacidade de fincar raízes até mesmo na lama. E nem tente desqualificá-las por frágeis que porventura sejam, ainda assim, serão raízes... Em terra de mangue, desde cedo se aprende que andar caranguejando não quer dizer andar pros lados sem seguir adiante, mas sim seguir sempre olhando pra frente, nem que seja pra enfiar a cara inteira, mas ela todinha mesmo, de frente, na lama. Hoje eu ando devagar porque eu tenho pressa e não gosto de voltar atrás pra perceber que errei o caminho, que caminho certo a gente inventa. E, às vezes, eu caranguejo na lama – aí é que faço uma festa! O mangue fica pelas beiradas, gosta de margens, de reentrâncias. É lá que se instala, no meio do caminho entre a terra e a água, a salobra, de preferência. Sujeito ao regime das marés, numa obediência lerda, ciente de sua coadjuvância ou sabedora presunçosa da fartura da biodiversidade que tem escondida na sua sujeira, na pobreza do seu solo, na deficiência de seu oxigênio. Também me falta o ar, recorrentes vezes inclusive, mas é de hipereficiência da minha expiração. Nisso tenho que admitir dever ao mangue em aprendizado... Em mim fala mais forte o ímpeto das marés, essa sanha de ser arrebatadora a cada quebrar de ondas, violenta força erosiva de encostas, de formações rochosas, e, sem querer, de castelos de areia... Mas é que sou filha também do litoral. Na amplidão das praias onde desde cedo me vi brincar, munida de minhas armas imbatíveis – baldinho, protetor solar e uma curiosidade saliente –, eu desnudo dunas e esconderijos de índios imaginários, e caminho encarando o vento só pelo sabor sem igual que me chega à língua pelo nariz irritado, pelos poros abertos de sol, pelos pés afundados na terra. É um gosto de salmoura que, desde que fui transportada pra esse outro ecossistema donde hoje me derramo nessa catarse, identifico como sendo o (dis)sabor da saudade. Essa salmoura corre nas minhas veias abertas e escancaradas como a praia do Araçagi, que pulsam em volume máximo na balbúrdia dominical do Meio; um sangue familiar, nostálgico de eras douradas e esperançoso de glórias vindouras como o Olho d`Água. A saudade, pra mim, é salgada. E ela corre nas minhas veias! É um tempero que, com tamanha presença, caprichado, dizem fazer mal à saúde, por indigesto e comprometedor da pressão. Aos que não têm costume, de fato, tem pleno cabimento a advertência... Mas eu o trago nas veias, pulsante, costeiro, lamacento, frágil feito mangue, impetuoso feito maré, irrigando cada pedaço de mim!
Pobre muriçoca atrás de sangue doce...
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Retorno
O mofo, a traça, o cupim, o cheiro de guardado.
O cloro, o sujo na água, o gramado crescido, o mato,
O canto escondido, o ferrolho quebrado, o pé encardido,
O livro querido guardado com esmero esperando um retorno que não vinha mais.
A salmoura da água, a salmoura do choro,
A brancura do sal, a brancura da cal que ornava as palmeiras erguidas ali.
Os latidos felinos, as batidas de porta, os copos coloridos de requeijão,
alguns meio trincados, virados pro chão.
À meia-luz, na imensidão dos cômodos um incômodo vazio tilintava em mim.
Os versos rimados decorados com mímicas para o jogral.
O medo do escuro,
a farda do colégio,
o doce sonho cor-de-rosa,
as fotos desbotadas no mural...
Sobre a bancada de muitas notas
Pimenta,_____acerola,_____manga,
______pitomba,_____bacuri,_____cupu
Saudade, família, amigos,
______________________côco babaçu.
O mudo reflexo do tempo mudado no espelho
Era o mesmo primeiro adeus, com um quê de déjà vu.
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