quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Cantaria


"Quero ler nas ruas
 fontes, cantarias
 torres e mirantes
 igrejas, sobrados.
 Nas lentas ladeiras
 que sobem angustias
 sonhos do futuro
 glórias do passado."
[Louvação a São Luís - Bandeira Tribuzzi]

São pedras de cantaria
Ao pé dos casarios azulejados
E os braços de mar sitiados
Por mangues e pobres palafitas
Que carregam teus filhos
Esquecidos pelos donos da terra
Para onde ainda cantem os sabiás.

São dias de santos e tradições
Em que palhoças abrigam
Quitutes, não filhos,
E mesas de gente sorrindo admiram
As mulheres a girar com graça
No cordão de cacuriá.

São toadas e sotaques
Em largas e abertas praças
Que gritam contra o esquecimento
E fazem dançar teus mesmos filhos
Ao som ritmado dos maracás.

Aguarda-se o desfecho da saga da língua roubada do boi que alimentou os desejos de Catirina. A ansiedade nervosa sempre inédita ante seguidos, já quase incontáveis, anos da mesma história. Capatazes se sucedem numa sequência de opressões roucas que tensionam até os cazumbás useiros de risos por trás de suas máscaras. Índios e caboclos dançam e obedecem aos vaqueiros na busca do rebelde Chico. Pobre Chico achou que poderia roubar o amo e matar-lhe o novilho mais querido para agradar a mulher e o filho que esperavam. Onde já se viu mulher de Chico ter desejo?! Resta confiar nos pajés para ressuscitar o boizinho e voltar a dançar. Nos pajés, a esperança de Chico e da dança. E agora, Chico? Chico, até quando?! Até quando o José?!

E assim suportam calados a sina.
Entretido na dança o espírito
E amortecida a barriga,
Uns poucos de camarão e cuxá
Ao resto, farinha com água.
Mal sentem falta da outra língua
Que lhes foi roubada
Pelos donos do mar.

Mas são as pedras de cantaria
Que hoje eu canto.
Destoutra jovem terra
Destas ruas que não têm teus nomes
Nem tua poesia, nem teus filhos,
Nem tuas esquinas que viveram tanto.
Sinto-me um daqueles fidalgos desterrados
A me doutorar nas leis do Império
E viver no conforto da Corte
Enquanto a minha terra tem doutores
Que desafinam os sabiás.

Na minha língua cortada do cerrado,
Secura, impotência e o gosto saudoso salgado:
Daqui amargo a distância das palmeiras de lá.

Um comentário:

  1. Ei, tá lembrada do seu noivo de slz (Red Club)? Talvez vc nem lembre, e talvez eu já tenha perdido meu posto, quem sabe?! Mas,olha,vc tá de parabéns! Entrei nesse canto por um bom acaso e gostei muito do que li.E legal a homenagem à nossa terra, geralmente as pessoas só lembram que o dia é feriado.
    É isso. Até +.

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