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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Felicidade: substantivo feminino

@ladrilha

Uma atitude política
Uma bicha perigosa
Uma empreitada alvissareira
Uma promessa
Uma bandeira
Uma trincheira
Uma revanche

Uma avalanche que faz das pedras atravancadas uma montanha de sonhos

Não é caminho.
É caminhada - no feminino - que somos.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Sororidade

"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. 
Nenhum destino biológico, psíquico, econômico 
define a forma que a fêmea humana assume no 
seio da sociedade; é o conjunto da civilização que 
elabora esse produto intermediário entre o macho 
e o castrado que qualificam de feminino".
[Simone de Beauvoir - O Segundo Sexo]

A menina que ouvia Elis entoar e
pensava
nunca cantará como ela

A menina que lia Cecília compor e
pensava
nunca versará como ela

A menina que via Frida colorir e
pensava
nunca voará como ela

A menina que descobria Olga a lutar e
pensava
nunca resistirá como ela

A menina que sentia Simone libertar e
pensava
nunca se tornará como ela

As meninas
enfim
se iriam

E a mulher então

restaria

Sendo e seguindo
inúmeras
como elas

Mas pensava e crescia

E à mulher então

restaria

Seguir sendo
infinita
como ela

Mais pensava e crescia

E sendo, seguiu
braços dados
com elas.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Ponte para o futuro



Ah, democracia, querida
Eu pensava ter sorte de
Conhecer-te de berço
Filha da queda do muro
E da carta cidadã

Porém, leda criança
Nem ventura, fortuna
Ou quinhão de herança
Pra seguro amanhã
Democracia, és pura
E plural construção

Sabes que minha geração
Do futuro e da pressa
No afã de viver a promessa
Da nova constituição
Deixou a hora por fazer
Inerte no peito a revolução

Teve os olhos useiros de
Avanços alvissareiros
Que há pouco chegaram
A poucos alcançaram
Mas já tão ligeiro se vão
Confundindo esperar com saber
Sem atentar pra lição da canção

Esquálidos herdeiros é o que somos
Não cumprimos a nossa missão
E assististe ao colosso impávido
Apenas sorver seu legado
Sem universalização

Daí que quando o calar da noite
Subvertia o alvorecer do planalto
Na quinta antessala da superstição
Pensamos inda ter algum tempo
Ao menos uma fração de momento
Antes que o retrocesso incauto
Tomasse de assalto a nação

Contudo logo
Se escancararia
Que hoje é mesmo
um
novo
dia 
de
um
novo
tempo
E o passado 
Que a gente temia
Já começou

Mostraste-me, todavia
Que uma geração é tecida
Da partilha aguerrida 
De lutas e sonhos
Não de anos a fio
E que não serias sem luta
Tragada a retorno tão vil
Nem nos livraríamos
Sem perdas do fardo
De um futuro que
Não te garantiu

À minha geração
Então só caberia
Pedir não perdão
Mas licença tardia
Pra seguir com quem
Não nos seguiu 
E hoje ocupa as escolas 
E assume o Brasil

Pois se tal transgeração se unisse
Das escolas às ruas
Campos, construções
Não ia ter quem não visse
Que vamos juntas e iguais
Compor novas e bravas canções

Então vem
Não vamos embora
Que esperançar é não temer
Quem se lembra de outrora
Não irá esmorecer

Então vem
Não vamos embora
Bem se vê sem demora
Que agora só vamos 
Além

terça-feira, 31 de março de 2015

O que separa os meninos dos homens

Autoproclamam-se eles
Vestidos em ternos
Os homens de bem

Os homens de bem
Vociferam uma cólera eterna
Travestidos de defensores
Mas de quem?

Dizem deles
Os meninos mal vestidos
Vieram direto do inferno

Dizem
Longe deles
O mais longe possível deles

Bradam
- Instrumentos do mal!
- Não são mais crianças!
- Redução da maioridade penal!
- Não são mais crianças!
- São monstros!
- Não são mais crianças!

Os meninos duvidam
Resistem à certeza medonha
Resistência é sina
Desconfiar, esperança

Se lhes fosse dada a palavra
Talvez perguntassem
- Senhor homem de bem
Que dia foi esse
Que a gente era criança?

terça-feira, 2 de julho de 2013

haikai #cansei

Na Política de twitter, pra cada hashtag #cansado 
de desgosto, sempre surge um arroba mais disposto
e menos bem intencionado.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Teoria da surdez deliberada







                     A lei não muda o mundo,
                     O mundo que muda a lei.
                     Mas e quando o mundo é mudo
                     Ou é surda a lei?









* Imagens de autoria desconhecida. Se você for o titular dos direitos de imagem ou conhecer a autoria, favor entrar em contato.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Índio: que é índio?!




"Índio que é índio
Anda pelado
Ou veste tanga
Mora na floresta
Em casa de palha
Tem cara pintada
Não sai do mato
Come mandioca
Usa cocar e apito
Caça de arco e flecha
E se chama Iracema
Ou Guaraci".
Já que branco que é branco
Anda de carruagem
Viaja de caravela
Se comunica por carta
Ou pombo correio
Mora em castelo
Defende seu rei
O enviado de Deus
Usa ceroula
E fala vosmecê.

Mas índio que é índio
Anda aqui do lado
Nem tem mais floresta
Que agora é clarão
Pasto, soja ou favela
Morre de grilagem
De fome, abandono
Desespero e de guerra
Quando não consegue
Nem um pedaço de terra
Que sempre é demasiada
Pra tão pouco índio
(Se morrerem mais rápido
Dá pra economizar?!)

Pois desde 1500
Quando o branco descobriu
O Brasil varonil
Lugar de índio
- "índio de verdade" -
É bem longe no mato
No museu, nos romances
Na peça do colégio 
Nas novelas da Globo
E no 19 de abril.

No resto do tempo
Nada lhe resta
Do direito de ser índio
- Leia-se de sobreviver
Já que o que é ser índio
Pelo visto quem diz
É você.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Esplanada

Eu sou surfista do Lago Paranoá
Eu sei que o Havaí não é aqui, que o mar está longe daqui
Mas pra quê que eu quero o mar se tenho o lago pra mim
[Natiruts - Surfista do Lago Paranoá]


Faz sol
Na
Esplanada

Daqui do alto
Do nono andar
Do primeiro prédio
Do lado esquerdo
De quem olha de frente
Para o Congresso
Vê-se o mar

Que no Planalto
É represado
Meio poluído
Quase restrito
Aos bem nascidos
Da capital
Mas brilha azul
E tem jacaré

Corre o burocrata
Com a pasta debaixo do braço
A coragem vai dentro da pasta
Será?

Corre que hoje é quarta
E tem sessão
Desabotoa o paletó
Que tá calor

Faz

Na
Ex
Pra
Nada

domingo, 24 de julho de 2011

Crônica de uma alvorada atrasada


"Chora
A nossa Pátria
Mãe gentil!
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil...
Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente!
A esperança..."
[João Bosco e Aldir Blanc - O Bêbado e a Equilibrista]

Era o próprio equilibrista!!!
Sem roupa de carlitos,
Sem cobertura jornalística.
Maltrapilho sob o céu sem brilho 
De fins de abril no planalto,
Ele olha pro chão - que é o seu astrolábio -
E tenta passar despercebido
Incólume, anônimo, resignado.
Mas falha em desviar das câmeras
Poluindo as visões turísticas:
Exercício fracassado de logística.
Completa o quadro a esplanada
Tão mais jovem, 
O mesmo tanto ensimesmada...
Muda pouco, quase sempre nada.
Essas tais coisas de política...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ver sem ver

Após a (não) decisão histórica de ontem, me lembrei dessa poesia antiga, de 2006, premiada no Festival Marista daquele ano, cujo tema era "Fraternidade e pessoas com deficiência"...
Pena que a rouquidão da Política e o pouquismo da Justiça ainda estejam tão atuais!



Fui batizada de Esperança e, como minha irmã Justiça, eu sou cega.

Desde a mais tenra infância
Não sei a expressão que antecede o desmaio
Mas a cara da ignorância
Ou do hipócrita negando, eu sei.

Eu não enxergo a cor do filé mignon.
Não vi organização no 1° de maio.
Mas vi os fogos no Reveillon
e o arco-íris da parada gay.

Eu não vejo nada.
Mas vi o rombo dos cofres públicos,
Vi o estouro da última guerra
E o escândalo da ideologia negada.

Eu gritei quando invadiram o Iraque
E eu reclamo da politicagem discriminatória
E da igualdade excludente
Da incipiente solidariedade
E da falta de acesso
E da lentidão dos processos
E da burocracia, da carnificina, da violência
E da desesperança, da impavidez do colosso que se destrói.
Eu condeno o assassinato da inocência
E a falsa independência
E a grosseira incoerência.
Como dói.

Eu cuspo na cara de quem se faz mudo.
Que muito me enoja toda essa desfaçatez
De revoltas mainardianas e cultura descartável:
Inenarrável insensatez,
Impressionável eterno ídolo da vez.
Admirável próxima desilusão no fim do mês.
E preconceito das oito ao meio dia, e então até as seis.

Eu cuspo na cara de quem se faz surdo.
Do prepotente que desconhece ser ele inválido.
Dele que, ainda estando ávido por mudança,
Observa distante e pálido de espanto
O canto do último pássaro entornado em pranto.
E depois se acha no direito de apontar,
Cínico, vil, reclamar do país que não avança.

Do alto de escombros precoces
D’uma justiça de doses poucas
D’uma política de vozes roucas
Uno minhas mãos em prece.
Que não há paciência, ou milagre ou ciência
Que me impeça de dizer
Que há real deficiência em quem se declara são.

Em meio a essa névoa turva, quanto lirismo há
Na incompreensão dos outros,
Na insegurança que a cegueira dá
E no dia-a-dia que não nos vê, que nem se importa
É pura necessidade isso de lutar
E passa o tempo, passatempo, contratempo
Não interessa se é jargão
Vale muito o "mais respeito, menos discriminação,
Cuidado com o outro, tenha amor no coração".

Às vezes, é mais útil sentir que entender
Que sentir podemos todos,
Os gênios, os mortais e os chefes da nação
O menino na pré-escola, os pais e os artistas da TV
O surdo, o cego, o mudo,
Ele, ela, eu, você.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Mãos atadas


"Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro."
[Mãos Dadas - C.D.A.]

Os barcos ressurgem
Calada da noite
Balaios vazios
Já curtos pavios
Um mudo açoite.

A maré chora,
O homem chora,
E fica tudo assim:
Salgado.

(alguém avisa aí que os companheiros dos taciturnos ainda nutrem grandes esperanças)