Corro enquanto passam
A semana o mês o ano
Passam horas
Passam vidas
Passam planos
Escorrem forasteiros
Realmente passageiros
Quantos sonhos
Fantasias
Transcorrem pelos dias
Corriqueiras
Agonias
Pelos anos que percorro
Cordilheiras
Utopias
Vasculhando no arquivo, encontrei essa pérola, escrita quando estava na 6a série, lá pelos meus 11 anos! Como esse blog tem também a função de me ajudar a guardar os escritos, aqui vai! Divirtam-se, rs!
Ao me olhar no espelho
Tenho a impressão
De que meu corpo inteiro
Está em transformação.
Já não sei se sou eu
Já não tenho a mesma aparência
Mudei e não percebi ?
Ou então não mudei, apenas cresci.
Pergunto-me o que pensam de mim
Será que todos ficam assim?
O que já foi não será de novo
Ou será que voltará em lembranças
Do meu tempo de criança?
Estou pulando etapas
Ainda não cheguei na adolescência.
Se continuar assim
Vou passar minha vida sonhando...
Ainda sou criança
Minha infância ainda não chegou ao fim.
Porém, temos que lembrar
Que o que passou não voltará
Pois o tempo passa,
Infelizmente...
Ou será que para o bem da gente?
"Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dóicomodói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa." [Álvaro de Campos - Estou cansado]
A minha única pretensão é o fim.
Nada mais além de mim
Mas que nada além do mais
Além do que, que sou eu senão nada
E um grande nódulo de tensão no meio das costas se não nado
Falta de tesão e um velho calção de banho
Inútil deixado de lado
Uma velha canção de ninar
Que desafina e encontra seu destino junto à prateleira dos ursinhos aposentados da menina
Ora moça.
Ora, ora, moça
Desenganada, desnuda, um nada.
Fracasso até em chegar à condição de destroçada.
Não viveu desastres, não viu causas,
Só esse troço mesmo mal explicado.
E um caroço que se diz garganta e faz um barulho agravado
Dando à voz do nada um quê de rouquidão.
A voz que se dá ao nada
Que já não articula palavras
É só dor e pigarro.
(e também, com o perdão do palavreio xulo e do assunto sujo, um bocado de catarro)
Constrangimento não há
E, do contrário, se fingiria.
Só o nojinho do catarro
O entojo do pigarro
O cansaço da dor
E a vontade de reaver a voz havida um dia
Parece que faz tanto tempo...
Bom é quando a boca não serve nem pra falar!
Melhor dizendo, até serve
A gente que não se serve dela só pra esse mundano ofício de falar
Um sorriso basta
Um sorriso sempre deveria bastar.
Só que quando o beiço teima em se arquear em meia-lua pra baixo
E não adianta o quanto se tente fazer ele se virar
Sobra o que além de frustração?
O que resta é poetar
Ou calar a boca num belo de um beijo.
Pois bem,
Por bem eu falo
E falo, falo, falo
Me engasgo de tanto falar
E continuo falando
Até que a minha própria voz se trai
Se irrita de si mesma
Se enche de tamanha falação
Se esvai...
E fica só o sopro
Só o engodo
Só o trago quente e rápido de alguma bebida à mão
Sem muito esforço
Descendo em movimentos peristálticos prum intestino repleto de m
Digestão difícil e lerda
Como o nosso próprio processo de fagocitose
Digo, viver.
Dá raiva de pensar
Que tanto bom poeta
Já sofreu mais
E antes de mim!
Que não tenho nem doença daquelas incuráveis
Com algum nome bacana, polissílabo
Ou desilusão conhecida e compartilhada
Pelas mentes mais sensíveis
Mal do século
De gente seleta
De artista, de esteta
Nem que fosse só pelo modismo.
Mas é mesmo tão limitada a minha capacidade
Medíocre, até tosca toda essa tradução
Em versos que, mesmo sentidos,
Nunca serão lidos e relidos
No máximo reproduzidos por algum adolescente desesperado
Malgrado a frouxidão desse coração escangalhado
E o meu leve toque de cinismo...
Daí que da imortalidade desisti há muito
Pois imortalidade não é desse tempo
Quando a eternidade dura no máximo um "atualizar"...
Que me joguem fora então dobrada em origami!
Ou a folha bem aberta
Como são as entranhas de um poeta
Amador.
Bem que eu podia criar um pseudônimo
Talvez outro de mim
Sob outro nome autônomo
Conseguisse algum sucesso
Na tarefa que jamais se encerra
De ser palavras
E desmaterializar-se pouco a pouco
Até que não reste nada além de um toco
De árvore de tronco largo e raízes expostas sobre a terra
Atrapalhando o caminho público.
Se tenho uma certeza é do quanto conversar é bom. O quanto o diálogo enriquece o canto, o quanto cantar junto é bem mais divertido que um solitário à capela. Com isso em mente, pensei nos quadrinhos que se situam abaixo de cada texto, como formas de saber como os meus sentimentos, as minhas lembranças, as minhas vontades, que aqui busco traduzir, afetam você que gentilmente escuta o meu canto (e muitas vezes, meu desafinamento, meu grito, minha tagarelice ou meu desejo desesperado de calar a boca). Muita gente escreve para se fazer ouvir. Eu escrevo para me fazer calar um pouco, para transbordar isso tudo que me preenche, expulsar das entranhas, antes que eu morra afogada e rouca. E eu escrevo também para conversar.
Assim, esteja sempre à vontade para comentar, criticar, sugerir, falar de algo nada a ver que veio à mente, algo que aconteceu no dia, algo parecido que viveu... As coisas que planto aqui nos meus canteiros são, para mim, como mudinhas que precisam da atenção de um jardineiro para que vinguem e, quem sabe até, com sorte, um dia floresçam. Os quadrinhos "No seu canteiro foi..." servem de mera sugestão e provocação, sendo uma opção para os dias mais corridos. Semente, se despertarem algo novo; adubo, se contribuírem para que algum sentimento/idéia pré-existente, pré-conhecido, tome forma e se desenvolva; flor, se enfeitarem algo que já está pleno e consolidado dentro de você; praga, se fizerem mal, machucarem, contaminarem o seu "jardim interior". É meio brega, eu sei, quase ridículo. Mas "todas as cartas de amor são ridículas". E todo lirismo é de amor.
Pediram para eu conversar com os leitores. Aliás, qual a minha gratíssima surpresa ao descobrir que caramba! Em que ponto chegamos?! Até eu agora tenho leitores! Mas é que esse blog não é um blog-blog. Era pra ser um blog-repositório. Ou supositório, dependendo da sua intenção... Fato é que eu falo demais e sou meio rouca por isso. Ou talvez não tenha qualquer relação. Enfim, no fundo é que se eu começar a falar, as pessoas vão descobrir que eu sou chata. E não passo dum projeto tosco e mal-acabado de literatura, lutando dia após dia pra continuar assim...
Sinto que minha arte carece de maturação.
Qual fruto caído precoce da árvore,
qual infante amor entalhado - prematuro - na árvore,
falta-lhe decerto alguma maturação.
Se fosse outra de mim
e tivesse vazio o estômago,
tivesse uma úlcera, um câncer, um pneumotórax, uma convulsão.
Se tivesse vazio o estômago
ou cheio de mágoa esse coração,
e meus precoces amores talhados na árvore
agonizassem caídos e apodrecessem no chão.
E se doesse o coração por vazio,
o estômago ulcerado de raiva ou decepção,
mas não.
Se tivesse uma casa na árvore
e lá entulhasse as infantes lembranças
de frutos caídos precoces
e dores talhadas no estômago
os guardasse a salvo do esquecimento
e de toda resignação...
Se saqueasse
os casais
que talham
seus nomes
na árvore
lhes roubasse
um vintém
de paixão
e do poeta
absorto
na sombra
da árvore
alguma
inspiração...
E se tivesse vazio o estômago!
Me fizesse
vermelha
e pregasse
na árvore
chamados pra
revolução
ou me fizesse
beata
e pregasse
da árvore
a ressurreição...
Nem que entornasse
o orvalho
das folhas,
nem que roubasse
dos pintassilgos
nos galhos
toda a composição,
ou virava poema
ou virava canção.
Se me restasse
alguma imaginação
e tivesse vazio o estômago.
Pois que me falta maturação,
me entalho no tronco
da árvore:
iniciais erodidas
em um só coração.
Pois que quero vazio o estômago
lanço aos canteiros
o fruto do âmago
ainda em gestação.
Aos canteiros,
os frutos
e a úlcera
do estômago
talhada
por toda essa
insatisfação.
Se tivesse vazio o estômago
e o coração houvesse
caído no chão,
haveria de restar
de tal falta de fôlego
alguma respiração.
Haveria de restar
de tal falta de fôlego
mesmo alguma razão,
se tivesse uma casa na árvore
ou encrustada uma úlcera no coração.
E caberia na arte todo lirismo,
os protocolares puristas,
quiçá o parnasianismo,
pois que vazio o estômago,
liberto até da libertação.