segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Bailarina


Era uma vez uma menina qualquer.

Apaixonada, desiludida,
Chorosa, carente,
Que se achava bastante mulher.
Só se via, se era,
Vivia ao seu lado.
Só dançava seu fado.
Privada da sua convivência,
Aguardaria com toda a paciência
E seu jeito doce meio abnegado
Virgem sem um pingo de pecado
Outra chance de lhe deslumbrar.

Olhe como ela equilibra franzina esse fardo!
Enquanto rodopia nas pontas dos dedos do pé
Tamanho 33 -
Diga como Bandeira trinta e três... trinta e três... trinta e três...
E respire. E suspire.
Não parece mulher o bastante
Não passa outra vez
De só uma menina qualquer.
Mas como ela nos fascina!
Enquanto se aproxima
Nessa tenra pantomina
Com essa suave timidez...

É jovem moça e de belos traços dourados praianos.
Ou será cachoeira, ou mesmo piscina,
Ou rio Paranoá represado em lago
Na falta que faz oceano...
Mas quanta languidez!
Plácida, ora embota, até que flutua na lama.
Sem nascente, sem curso, sem rumo,
Segue sem desembaraço
Em seu encalço
Em lentos e tristes passos
Em errantes e lazarentos passos
Em certeiros e apaixonantes tropeços
Em direção ao tormento da foz.

Eis que serelepe ela rodopia
Rodopia, rodopia...
É mais uma vez uma linda bailarina!
Não há palavra que exprima
Tamanha beleza traquina
Façanha que faz a intensa menina
Que ensaia transbordar-se na densa mata
Formando igapós...

Ela desce, ela dança, ela flutua acima 
Com todos os possíveis compassos
E domina cada pedaço do palco
Tomando pra si também o aeroespaço
Sem que causasse qualquer estardalhaço
Ainda que risse mais risos do que todos nós.

Então sói soltarem-se os laços
Então desce a cortina feroz
Ao que os mortais
Mortificados em transe
Timidamente aplaudimos
Sem voz...

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ode a Picasso



"Hace falta mucho, mucho tiempo para ser joven"
Pablo Picasso

Pequeno Picasso
Achado no passo cadente do tempo
Criado no laço ardente da arte
Reinventada, desfeita, imperfeita disfarça?!
Que faço pequeno, pequeno, Picasso
Com a vida que passa ao largo do Passo
Com a falta de graça que, por mais que faça,
Não me larga de mão?!
Resta que te pegue emprestado
Por hoje teus traços
Teus tortos e ousados embaraços
Os parcos pedaços de insanidade em cubos
Que nos fazem, em verdade, tão sãos.

domingo, 25 de setembro de 2011

Saudades, vô

http://canteirosdemim.blogspot.com/2011/02/vo_28.html

"A saudade, descida no coração do tempo para resgatar 
o tempo - o nosso, pessoal ou coletivo -, é como uma 
lâmpada que recusa apagar-se no meio da Noite. 
Talvez nos torne estranhos e mesmo complascentes com 
essa estranheza, mas esse sentimento é puramente ilusório. 
Sob outros nomes ou sem nomes, a saudade é universal, 
não apenas como desejo de eternidade, mas como 
sensação e sentimento vividos de eternidade.
Ela brilha sozinha no coração de todas as ausências."
[Eduardo Lourenço - Mitologia da Saudade]



Há 1 mês, o Cara lá de cima nos levou nosso Rei Daniel.

Quando nos confrontamos com uma perda de tal magnitude - no meu caso, uma das primeiras - é difícil encarar o caminho à frente, é difícil aceitar a triste conjuntura do Universo, que simplesmente leva e traz pessoas para as nossas vidas, em um compasso incerto e, certamente, nunca justo. Simplesmente porque o valor de cada pessoa será sempre incompensável.

Sinto saudades, vô. Assim mesmo, no plural. Saudades do seu sorriso, da sua carequinha branca e achatada de cearense teimoso, das suas dores que me faziam sentir tão besta reclamando das minhas costas, dos almoços na casa de praia, de dormir com o maiô por baixo do pijama para não perder tempo quando o senhor nos chamasse de madrugada para assistir ao nascer do sol na praia, de subir a duna enorme que divide até hoje o Olho D`Água do Calhau - e a realidade da fantasia -, dos índios que nunca existiram nos buracos dessa mesma duna, de lhe pedir a benção… Sinto saudades.

Saudade é um sentimento velho conhecido nosso, desde que em 2003 nos mudamos para esse Planalto, sem dunas, índios e casas da praia. Mas com a distância, aos poucos, depois de várias despedidas tão dolorosas que mais pareciam nos cortar um pedaço do coração, enquanto subíamos a escada rolante da sala de embarque, fomos aprendendo que saudade é diferente de tristeza. Deus nos fez tão incríveis, que conseguimos aprender a viver com a saudade, esse sentimento tão salgado, quanto as lágrimas que vêm aos olhos quando nos recordamos; quanto a água do mar batendo nos pés do senhor, que nos esperava dar o primeiro mergulho do dia, de que tanto nos recordamos.

Ele lhe levou há 1 mês, no dia do aniversário de papai; e hoje é o dia do aniversário de vovó. Parece que até nisso, Ele pensou, para que tivéssemos motivos de nos lembrar do senhor não com tristeza, mas com saudades e até alguma alegria.

Há um mês, foi-se nosso Rei Daniel, mas ficou nossa Rainha Oneide, para que dela cuidemos com todo o nosso coração. Dele, nós nos lembraremos sempre com toda a saudade do mundo...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Dos romances findos


E quando escutar um samba-canção.
Assim como: "Eu preciso aprender a ser só".
Reagir e ouvir o coração responder:
"Eu preciso aprender a só ser."
[Gilberto Gil - Eu preciso aprender a só ser]

Com o tempo e alguma experiência,
Constata-se que romance encerrado
É processo arquivado:
Só serve de jurisprudência.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Cordelzinho

"Palava poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria"

"Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes."
[Manoel de Barros]

João sorridente
Vivia na loja
Atraindo cliente.
O patrão lhe chamava
E agradecia
A freguesia só aumentava
De noite ou de dia.

Com rimas infantis
Ou com balas de anis
Anunciava à multidão.
E seu carisma atiçava
Quem por ali perto passava,
Que entrava na loja
E comprava um botão.

Um dia comum
João e mais um
Foram chamados pelo patrão
Disse-lhes ele que não
Mais poderia lhes empregar:
- Muitas contas a pagar,
O dinheiro é escasso e
tenho muito cansaço.
Estava velho e fecharia a loja
Iria plantar soja
Num interior qualquer,
com os filhos e a mulher.

Apossou-se de João,
Nosso vendedor exemplar,
O desespero e o medo.
Era mais um na rua,
A vagar sob a luz fraca da lua
Com destino a lugar
Bem...
Com destino a lugar nenhum.

Passavam os carros,
Passavam pessoas.
Não queria nem saber
Se eram más
Se eram mais
Se eram, mas
E se fossem boas...

Andando errante,
Pensamento distante,
Avistou a solução!
Atirou-se no mar.

Só que alguém importante,
Um desconhecido,
Pulou em seguida
[valiosa era a vida!!!]
E conseguiu lhe salvar.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Tentativa de suicídio qualificado por chocolate

Por detrás do arco-íris
Além do horizonte
Há um mundo encantado
Feito pra você
Onde um sonho colorido
Mora atrás do monte
Quero te levar comigo
Quando amanhecer

Vou te mostrar que é de chocolate
De chocolate o amor é feito
De chocolate
Choco, choco, chocolate
Bate o meu coração

Choco, choco, choco, choco, choco, choco, chocolate....
Choco, choco, choco, choco, choco é de chocolate.
[Trem da Alegria - É de chocolate]


Entre qualificadoras e causas de aumento de pena
A temperatura até que está amena
Senão vejamos: era mais um vício
Que eu teria que apontar.

Isso porque sigo na investida esdrúxula
Para excluir a minha culpabilidade
Pela tentativa de suicídio
Com dolo eventual
Por múltiplas ingestões de chocolate
Com medo das nulidades
Do sistema recursal
E da prova de domingo.

Mas se deus quiser me vingo
Ultrapasso essa prejudicialidade
E, ato contínuo, eu mato quem inventou
Que chocolate aliviava ansiedade.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Dor de amor de um desalmado


Ah, meu coração quem nunca amou 
Não merece ser amado 
Vai meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade 
Quem semeia vento, diz a razão 
Colhe sempre tempestade 
[Vinícius e Tom - Insensatez]


Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risadas do grande amor
MENTIRA
[Chico - Samba do Grande Amor]



- Mas é claro que eu sei que toda dor de amor, como tudo, um dia passa...

                                                                       ...acontece que eu não gosto de passar.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Pulsões


"Eu não
Eu não vou desesperar
Eu não vou renunciar
Fugir
Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir"
[Chico Buarque - Cordão]
Meu peito pulsa
Bem urgente
Bem intransigente
Bem decisivo
E aí eu grito

E aí eu calo
Bem plangente
Bem tangente
Bem intempestivo

E passa
E passo também
E viva!
Eu vivo
Tão bem...

domingo, 31 de julho de 2011

Canção pra minhas irmãs

O post de hoje, no dia em que o blog completa 1 ano, é em homenagem às minhas irmãs, Nicole e Daniela. Além de um poema antigo, resgatado do arquivo, achei uma Procuração feita pra ambas, para que pudessem me ajudar a conquistar o direito de voltar de uma festa mais tarde, lá nos idos tempos de 2004... 
Do tanto argumentarem para convencer papai e mamãe, eles perguntaram se, por acaso, elas tinham Procuração para defender meus interesses. 
Fomos pegas de surpresa, mas, naquela mesma noite, protocolamos por debaixo da porta do quarto deles essa Procuração abaixo, rs. Muito engraçado encontrar essas coisas hoje, nas vésperas da minha própria formatura em Direito...

Ainda me lembro
Dos seus risos inocentes
Minhas chaves e correntes
O amor tal qual chocolate meio amargo
Interessante, incoerente
Meus pequenos bem-quereres
Sombras de quintal e sopas de aspargo,
Às vezes.

Viriam a ser as defensoras prediletas
E as oposições mais petulantes
E estragariam meus planos
E traçariam outras metas
Levemente estressantes, de fato
Essas peças em segundo e terceiro ato.

Mas minhas irmãs queridas
Teus poucos anos me ensinaram
Que não há que ter receio:
Quando a vida é só da gente
Ela terá sempre um leve ar adolescente
E estar com vocês é tudo o que anseio.





PROCURAÇÃO



OUTORGANTE:
NATÁLIA ALBUQUERQUE DINO DE CASTRO E COSTA, brasileira, solteira, estudante, residente nesta cidade no Ed. Roberto Valadares Gontijo, apto. 302 – Superquadra 300, Quarto Laranja, Setor Sudoeste, Brasília/DF, portadora do CPF n° 226 cala-a-boca-e-não-chateia.

OUTORGADAS:
NICOLE ALBUQUERQUE DINO DE CASTRO E COSTA, DANIELA ALBUQUERQUE DINO DE CASTRO E COSTA e QUEM-MAIS-POSSA-INTERESSAR, brasileiras, solteiras, advogadas inscritas na ONODIMV [Ordem Não Oficial das Defensoras de Irmãs Mais Velhas] respectivamente sob os nºs 224, cala a boca e come o pato, n° 228, cala a boca e come biscoito e n° 222, cala a boca e come arroz, todas com escritório na Av. Quarto Verde, número 119, xerife Ivanize Carvalho Brito, Ed. Pelé Hipólito dos Santos, varanda primeira à direita e depois segue reto.

PODERES:
Para o foro em geral e os decorrentes da cláusula “Ad Festia & Formaturia”, a fim de praticarem todos os atos do processo, perante o STF [Supremo Tribunal Familiar], podendo ainda transigir, desistir, passar recibos e dar quitação, firmar compromissos, receber, recorrer e  variar de recursos, e praticar, in sozinhum ou separadamentium, tudo o mais que se fizer necessário ao fiel cumprimento deste mandato em defesa do outorgante, inclusive substabelecer.

Brasília, 27 de Novembro de 2004.


NATÁLIA ALBUQUERQUE DINO DE CASTRO E COSTA



Aniversário de 1 ano


Hoje os Canteiros completam 1 ano. Nesse período, muito me ajudaram a pôr pra fora angústias, anseios ou simples pedaços de pensamento... Também acredito que cumpriram o papel essencial de me fazer voltar a escrever, objetivo que tracei quando decidi retomar um "cantinho de cantos". 
E que assim continue! 

Agradeço a todos pelo carinho, pelo apoio, pelas críticas e sugestões! Espero continuar fazendo jus aos acessos, que já somam quase 6000 entradas únicas, em 22 países, 185 cidades, Brasília, São Luís, São Paulo, Fortaleza, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Balsas, Salvador, Recife, Ribeirão Preto, Goiânia, Floripa, Pelotas, João Pessoa, Campinas, Porto, Lisboa, etc. etc.

domingo, 24 de julho de 2011

Crônica de uma alvorada atrasada


"Chora
A nossa Pátria
Mãe gentil!
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil...
Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente!
A esperança..."
[João Bosco e Aldir Blanc - O Bêbado e a Equilibrista]

Era o próprio equilibrista!!!
Sem roupa de carlitos,
Sem cobertura jornalística.
Maltrapilho sob o céu sem brilho 
De fins de abril no planalto,
Ele olha pro chão - que é o seu astrolábio -
E tenta passar despercebido
Incólume, anônimo, resignado.
Mas falha em desviar das câmeras
Poluindo as visões turísticas:
Exercício fracassado de logística.
Completa o quadro a esplanada
Tão mais jovem, 
O mesmo tanto ensimesmada...
Muda pouco, quase sempre nada.
Essas tais coisas de política...

terça-feira, 19 de julho de 2011

Que ser poeta às vezes tem um pouco de mentir
Pra si mesmo
A fim de ser verdadeiro
Com o mundo.

... e vice-verso.

sábado, 16 de julho de 2011

Forrozeado


"Óia eu aqui de novo, xaxando
óia eu aqui de novo, para xaxar
vou mostrar pr'esses cabras
que eu ainda dô no couro
isso é um desaforo
que eu não posso levá
óia eu aqui de novo, xaxando
óia eu aqui de novo, cantando
óia eu aqui de novo, mostrando
como se deve xaxar"
[Luiz Gonzaga - Óia eu aqui de novo]

É no rala e rola
Do rala coxa
Do embola e bola
Da dança frouxa
Que tu me dás bola
Com a boca roxa
Te agarro a gola
Te jogo na colcha
Mas se me enrolas
Me fazes de trouxa
Eu te mando embora
Teu lugar é fora
Não me vem com poxa

É no rala coxa
Do rala rola
Da dança frouxa
Do embola e bola
Que tu me namoras
Com a boca xoxa
E tu me adoras
Quando eu digo poxa
Mas se me esfolas
Eu te mando embora
Teu lugar é fora
Pega a tua trouxa.

domingo, 10 de julho de 2011

Desmedida

"Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea
Seu par, sua irmã
Eu sou seu incesto
Sou igual a você
Eu nasci pra você
Eu não presto
Eu não presto"
[Chico Buarque - Sob medida]

Verdade que te deixo com vontade 
E um gostinho de sempre quero
E por mais que queira
Nem sempre supro
E por mais que arda
Nem sempre sopro
E quando o corpo reclama
A boca retrai, e ai! 
Mordo a língua
E nem dói tanto
O frio bate
E nem tem manto
Sou ser humano
Não sou santo! 
Quanto mais te quero
Mais te afasto
E te busco
E me escondo
Eu maltrato
Te cuidando 
Eu te aprovo
Não falando
Eu te testo

Não sei se te amo
Sei bem que eu não presto.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Espelho (ou Meus Onze Anos)



"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!"
[Oswald de Andrade - Meus oito anos]

Vasculhando no arquivo, encontrei essa pérola, escrita quando estava na 6a série, lá pelos meus 11 anos! Como esse blog tem também a função de me ajudar a guardar os escritos, aqui vai! Divirtam-se, rs!

Ao me olhar no espelho
Tenho a impressão
De que meu corpo inteiro
Está em transformação.

Já não sei se sou eu
Já não tenho a mesma aparência
Mudei e não percebi ?
Ou então não mudei, apenas cresci.

Pergunto-me o que pensam de mim
Será que todos ficam assim?
O que já foi não será de novo
Ou será que voltará em lembranças
Do meu tempo de criança?

Estou pulando etapas
Ainda não cheguei na adolescência.
Se continuar assim
Vou passar minha vida sonhando...
Ainda sou criança
Minha infância ainda não chegou ao fim.
                 
Porém, temos que lembrar
Que o que passou não voltará
Pois o tempo passa,
Infelizmente...
Ou será que para o bem da gente? 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Caminhada




"My heart is like an open highway
Like Frankie said
I did it my way
I just wanna live while I'm alive
It's my life."
[Bon Jovi - It's my life]

"Amanhã!
Está toda a esperança
Por menor que pareça
Existe e é pra vicejar
Amanhã!
Apesar de hoje
Será a estrada que surge
Pra se trilhar
Amanhã!
Mesmo que uns não queiram
Será de outros que esperam
Ver o dia raiar
Amanhã!"
[Guilherme Arantes -  Amanhã]


tão gostoso afã
com o sol quase posto
no oposto da via
ao agosto do dia
pois suposto havia
que já era amanhã
quando vi que ainda tinha
muitos metros de via
muitos rastros de dia
muita vida bravia
muita melodia pagã

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Segundas-feiras



"Monday has come around again
I'm in the same old place
With the same old faces always watching me 
(...)
Soon be like a man that's on the run
And live from day to day
Never needing anyone
Play hide and seek, 
Throughout the week"
[Supertramp - From now on]


Manhã que amanhece fria
Mais cedo, bem antes do que deveria

Neblina que se dissipa lenta
Bocejos com gosto recente de menta

Trabalho que se multiplica grosso
Cochilo de praxe depois do almoço

Dívidas que aguardam o próximo mês
Compasso diário de sonho com as seis

Começa tudo de novo
É segunda-feira outra vez...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sobre Júris e Pais Chicos

"Escutou-se, de repente, um disparo. Parecia mais um
relâmpago, mas um segundo tiro não nos deixou dúvidas.
Razão tinha o nosso militar: 
perante o tiro, certo ou falhado, toda a gente sempre morre".
[Mia Couto - Antes de nascer o mundo]

É semana de São João. Na minha terra, São João é época de Pai Chico e sua saga para saciar o desejo da amada Catirina, grávida e sedenta pela língua do boizinho preferido do dono da fazenda. Essa estória é recontada todos os anos em diversos sotaques, zabumba, orquestra, pandeirão, ao som dos maracás. Dançamos todos encantados, índios, pajés, vaqueiros, e os meros entusiastas como eu.  Em festa enfeitada por fogueira, bandeirinhas, barracas de palha e paetês...
Mas esses dias outro Chico me tomou a mente e, desde então, sinto-me como na obrigação de retratar sua história. Essa que não tem melodia e muito menos o brilho e as cores das fitas do bumba-meu-boi. Essa estória com h.
Pai Chico matou o boizinho. Chico matou alguns. Pai Chico matou pra alimentar a mulher grávida. A motivação íntima do outro Chico se desconhece por inteiro, mas diz-se revestida por torpeza. E parece que uma vez assim qualificado o ato, desqualifica-se o acusado na mesma proporção...
Chico não ostentava chapéu, tampouco paetês. Só uma camisa branca surrada, com um colarinho que teimava em virar pra fora, disforme, de tão velho que estava. E pensar que o colarinho branco em outros tem sentido e consequências completamente distintas... Talvez porque melhor lavado. Talvez porque o caso fosse de lavagem, mesmo.
Pai Chico recorreu a pajés, índios e caboclos para ressuscitar o boizinho precioso. Chico tinha a seu lado estudantes e advogados confiantes na sua inocência. Pai Chico lutava contra vaqueiros. Chico precisava convencer 7 cidadãos do povo, de notória idoneidade, de que apesar de não ser tão "idôneo", aquele crime não fora ele quem cometera.
Mas a dança do júri é mais cruel que o bumba-boi e segue a um triste compasso em que uma vez condenado, para sempre culpado, para sempre bandido, para sempre marginal... Ainda mais se traficante, ainda mais se homicida, ainda mais se preto, ainda mais se pobre, ainda mais se lá da estrutural...
Ê boi...

terça-feira, 21 de junho de 2011

Da sabiádoria



"Veja lá meu bem
Um sabiá cantou
Um cego foi quem viu
Um mudo repetiu
Um surdo me ouviu
Só você que não sentiu

Por amor se vive
Por amor se morre
Por amor se mata
Por amor se é
Por amor eu canto
Choro, sofro, danço
Suo e não me canso
Alivia a dor
Por amor eu sigo
No que acredito
Não me nego e digo
Assim que eu sou
Por amor eu vou."
[Gonzaguinha - Um sabiá contou]

O sabichão olhou e viu de novo,
E revirou com atenção.
Amargos segundos se passaram,
E ele disse lamentoso:
- O assunto é complicado,
Posso estar meio enganado,
Mas o tempo é apertado,
Acho eu que não dá, não.

Mal sabia o sábio homem
Que estava e muito errado
Um sabiá intrometido,
Que se viu interessado,
Outra hora havia ouvido
O joão-de-barro asseverar
Que não há lugar impróprio
Para quem queira trabalhar.

Rebole longe o tal do ópio
E vê se larga desse ócio:
Aqui quem manda é o joão-de-barro
Aqui quem sabe é o sabiá.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Noite


"Se não existisse o sol, como seria pra Terra se aquecer?
E se não existisse o mar, como seria pra natureza sobreviver?
E se não existisse o luar, o homem viveria na escuridão.
E se não existisse o luar, o homem viveria na escuridão...
E como existe tudo isso, ô meu povo
Eu vou guarnecer o meu batalhão de novo..."
[Boi da Maioba - Se não existisse o sol...]

Ah noite... 
A noite dos enamorados
Dos apaixonados
Dos encantados 
Mesma noite dos desiludidos 
Dos mal-amados 
Dos solitários corações.

Noite ainda das crianças
Do sono tranquilo
Da inocência
Do aconchego dos edredons.

É também noite dos maltrapilhos
Marginais
Violentados
Atormentados pelo frio
Pelo silêncio 
E pelo vazio
Da vida
Da noite
Do amanhã que demora demais.

Ah, noite! 
E minhas
Vívidas e 
Lívidas 
Dúvidas
Duma vida ainda pouco
Vivida
Intrépidas e
Tépidas
Dívidas
Duma vida inda há pouco
Vivida.

Noite paradoxal
Que ameaça e une
Acalenta e assusta
No descanso, tão curta
No desalento, abissal.

Pois que o dia some.
À noite, sou-me.

Desponta a luz mais nítida
Na escuridão a esmo...
Se na calada da noite
Ninguém é de ninguém
Que se seja, então, de si mesmo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Boquiaberta


"Como santo me revele como sinto como passo
Carne viva atrás da pele aqui vive-se à mingua
Não tenho papas na língua
Não trago padres na alma
Minha pátria é minha íngua
Me conheço como a palma da platéia calorosa
Eu vi o calo na rosa eu vi a ferida aberta
Eu tenho a palavra certa pra doutor não reclamar
Mas a minha mente boquiaberta
Precisa mesmo deserta
Aprender aprender a soletrar
"
[Zeca Baleiro - Piercing]

Na minha boca há
Cordas vocais inflamadas,
Gritos gritados, outros contidos,
Sussurros, gemidos e
Algumas amigdalites mal curadas.
Tem lábios rachados
De descuido, nervoso e cerrado,
Língua sem papas, igrejas, nem freios,
24 dentes remanescentes corrigidos à força,
Um beijo guardado pra ti
E um sorriso infindo.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sabiamente


Gonçalves Dias não sabia da verdade.
Pois minha Terra tem palmeiras, meu senhor
Mas tem também bem-te-vi e beija-flor.

Saberá só o curioso sabiá
E tal e coisa, e coisa e pá.

Encurto a história pra não gastar.

Passa a semana
No contratempo
Intervalo do sempre mesmo pensamento
E eu não passo.

Mais mais mais
E faz, traz, gás
Enlaça-me como lençóis no teu abraço...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Basta


   "Estou cansado, é claro,
   Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
   De que estou cansado, não sei:
   De nada me serviria sabê-lo,
   Pois o cansaço fica na mesma.
   A ferida dói como dói
   E não em função da causa que a produziu.
   Sim, estou cansado,
   E um pouco sorridente
   De o cansaço ser só isto —
   Uma vontade de sono no corpo,
   Um desejo de não pensar na alma,
   E por cima de tudo uma transparência lúcida
   Do entendimento retrospectivo…
   E a luxúria única de não ter já esperanças?
   Sou inteligente; eis tudo.
   Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
   E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
   Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."

[Álvaro de Campos - Estou cansado]

A minha única pretensão é o fim.

Nada mais além de mim
Mas que nada além do mais
Além do que, que sou eu senão nada
E um grande nódulo de tensão no meio das costas se não nado
Falta de tesão e um velho calção de banho
Inútil deixado de lado
Uma velha canção de ninar
Que desafina e encontra seu destino junto à prateleira dos ursinhos aposentados da menina
Ora moça.

Ora, ora, moça
Desenganada, desnuda, um nada.
Fracasso até em chegar à condição de destroçada.
Não viveu desastres, não viu causas,
Só esse troço mesmo mal explicado.
E um caroço que se diz garganta e faz um barulho agravado
Dando à voz do nada um quê de rouquidão.

A voz que se dá ao nada
Que já não articula palavras
É só dor e pigarro.
(e também, com o perdão do palavreio xulo e do assunto sujo, um bocado de catarro)
Constrangimento não há
E, do contrário, se fingiria.
Só o nojinho do catarro
O entojo do pigarro
O cansaço da dor
E a vontade de reaver a voz havida um dia
Parece que faz tanto tempo...

Bom é quando a boca não serve nem pra falar!
Melhor dizendo, até serve
A gente que não se serve dela só pra esse mundano ofício de falar
Um sorriso basta
Um sorriso sempre deveria bastar.
Só que quando o beiço teima em se arquear em meia-lua pra baixo
E não adianta o quanto se tente fazer ele se virar
Sobra o que além de frustração?
O que resta é poetar
Ou calar a boca num belo de um beijo.

Pois bem,
Por bem eu falo
E falo, falo, falo
Me engasgo de tanto falar
E continuo falando
Até que a minha própria voz se trai
Se irrita de si mesma
Se enche de tamanha falação
Se esvai...

E fica só o sopro
Só o engodo
Só o trago quente e rápido de alguma bebida à mão
Sem muito esforço
Descendo em movimentos peristálticos prum intestino repleto de m
Digestão difícil e lerda
Como o nosso próprio processo de fagocitose
Digo, viver.

Dá raiva de pensar
Que tanto bom poeta
Já sofreu mais
E antes de mim!
Que não tenho nem doença daquelas incuráveis
Com algum nome bacana, polissílabo
Ou desilusão conhecida e compartilhada
Pelas mentes mais sensíveis
Mal do século
De gente seleta
De artista, de esteta
Nem que fosse só pelo modismo.

Mas é mesmo tão limitada a minha capacidade
Medíocre, até tosca toda essa tradução
Em versos que, mesmo sentidos,
Nunca serão lidos e relidos
No máximo reproduzidos por algum adolescente desesperado
Malgrado a frouxidão desse coração escangalhado
E o meu leve toque de cinismo...

Daí que da imortalidade desisti há muito
Pois imortalidade não é desse tempo
Quando a eternidade dura no máximo um "atualizar"...
Que me joguem fora então dobrada em origami!
Ou a folha bem aberta
Como são as entranhas de um poeta
Amador.

Bem que eu podia criar um pseudônimo
Talvez outro de mim
Sob outro nome autônomo
Conseguisse algum sucesso
Na tarefa que jamais se encerra
De ser palavras
E desmaterializar-se pouco a pouco
Até que não reste nada além de um toco
De árvore de tronco largo e raízes expostas sobre a terra
Atrapalhando o caminho público.

A troco de quê?
Um sorriso bobo e tosco
Bastante.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

DRs I - O conceito


"Fere de leve a frase ... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita".
[Mário Quintana - Do Estilo] 


Discutir a relação...
...descurtir a relação.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Pá de cal



"Ah, meu coração, quem nunca amou
Não merece ser amado."
[Tom Jobim e Vinícius de Moraes - Insensatez]

Feito cal jogada no breu
Na calada da noite
Tanto calando-se-nos
Disse ele e, então, eu...

Agora me falta-lhe o fôlego.

Desfeitos nesse mudo açoite
De verborrágicos suspiros
Trôpegos
Desconfiados descortinam-se todos
Dando vazão a um sinestésico grito.

Que na ausência das palavras 
Certezas críveis e estruturadas
Sobra o inexprimível.

E, por hora, com ele me deito.

sábado, 19 de março de 2011

Tosado

"Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo
Em mim"
[Caetano - Coração Vagabundo]


eu 
queria 
uma
vez
viver
um
amor
em
prosa
,
mas
o
danado
me
vem
em
versinho
:
pelado
magrinho
e se
achando
tal
.
sabe
cãozinho
de
madame
na
volta
da
tosa
?
pois
bem
-
igual
!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Musicado


Jazz jazz jazz
Martela minha cabeça
Faz tum tum tum tum
Coração no descompasso
Mercy mercy mercy
Fly me to the moon
Que ela azul me viu sozinha
Eu e minhas coisas favoritas
Em um tom sentimental
Eu e meu sentimentalismo
In a mellow tone
Cantando roucos sob a chuva
Jazz jazz jazz
Night and day, in my solitude
Só danço samba, só faço samba
E me entrego em transe ao improviso
Aiaiaiai
Muito riso, pouco siso
I won't dance, don’t ask me
Só se for de rosto colado maçãs com maçãs
Como estranhos numa noite
Então tenha um breve sonho comigo
Então esqueça tudo, só sinta o ritmo
A cadência, a mais absoluta incoerência,
Ardente latência da língua e dos pés
Tensos e trêmulos, gigolôs efêmeros
Desesperados por jazz jazz jazz...

terça-feira, 15 de março de 2011

Sobre a amizade feminina


"(...)
Um bicho igual à mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com meu próprio engano. 
(...)"
[Vinícius de Moraes - Soneto do Amigo]
 
Dentre as tantas coisas que não se entende,
Desponta altiva a amizade feminina.
Dos risos vividos aos choros sentidos,
À presença cativa da língua ferina.

Assim somos eu e as minhas:
Das festas às fossas,
Às brigas e às troças,
Certas de nosso tesouro.

Brindando aos anos passados,
Passantes, vindouros,
Que, se aos poucos nos deixam menos meninas,
Nos fazem ainda mais nossas.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


Ao meu vô Daniel, 
com toda a minha saudade 
e admiração
pelos seus 82 anos
e outros tantos que virão.
 

Os avôzinhos
São feitos de uma substância
Que tem um quê de querência
Um susto de sustância
E sopro de pura infância
Contra o tique besta do relógio.

Presença de muita relevância
Dos idos tempos de criança
Em dunas, castelos de almofada e varianças
E nas danças do colégio.

Com uma firmeza que não se encerra
E uma grandeza que não se toca
Conquistou uma rainha, mundos, fundos e corações.
Ele veio lá da Meruoca
Casinha humilde meio à serra
Longe que nem um impropério.

Pois o meu vô é um caso sério
Matéria de sonhos e canções
Por tudo isso e o que não sei...

Márrapaz...
Que descoberta!
Capaz de num ser vô, mas rei!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Adomingando Descartes


Consta que o filósofo calculista disse
Penso, logo existo.
Mas logo?
Não dá pra ser só daqui a pouco?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Delírios


"Uma parte de mim
pesa, pondera
outra parte
delira.
(...)
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?"
[Ferreira Gullar - Traduzir-se]

Sobe no meu colo e grita alto.
Aperta, forte, não larga,
Encosta perto, afasta, sai coberto de razão.
Molha meu rosto com teu choro,
Mela meu corpo, me olha torto,
Me deixa louca de paixão.

Esquece o barulho dos carros, esquece os problemas vários.
Concentra na minha voz rouca gritando ais.
Supera o vazio dos loucos, degusta a loucura em tragos.
Suspira contrários, acende pavios, descumpre contratos.
Concentra na minha voz fraca te pedindo mais.

Morde minha boca, arranha minhas costas,
Me olha e me agarra como se eu fosse faltar.
Me toca com as pontas dos dedos, me puxa pelos cabelos,
Me deixa assaltada com falta de ar.

E baixinho, ao pé do ouvido,
Mais pelo gosto quente que sai de ti
Que pelas sílabas tão desalinhadas,
Cheias de peso e de marra que eu nunca engoli.
Diga que me quer e me aqueça,
Me faça mulher e perder a cabeça.

Até que a tensa cobiça que nos apavora reste por um fio
E o contexto se esqueça de nos despertar.
Até que o clímax impeça a razão de tentar intervir
E o pretexto não seja desculpa pra te maltratar.
Até que impregne teu cheiro em mim,
Não distinga contornos, não consiga falar,
Não tenha mais onde me esconder, pra onde fugir, o que alegar
E me entregue de vez.

Até que o peito ofegue alto, frouxo, manso, drogado, carente de ar,
E sucumbamos, sôfregos, num riso bobo...
Gotas de suor e delírio na tez.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Balzaquiana


Cantava tão bem
Subiam-lhe oitavas
Tantas tão claras
Na garganta alva
Que toda vizinhança
Passou a invejá-la.
(As mulheres, eu digo,
porque os maridos
às pampas excitados
de lhe ouvir os trinados,
a cada noite
em suas gordas consortes
enfiavam os bagos).
Curvadas, claudicantes
De xerecas inchadas
Maldizendo a sorte
Resolveram calar
A cantora gritante.
Certa noite... de muita escuridão
De lua negra e chuvas
Amarraram o jumento Fodão a um toco negro.
E pelos gorgomilos
Arrastaram também
A Garganta Alva
Pros baixios do bicho.
Petrificado
O jumento Fodão
Eternizou o nabo
Na garganta-tesão... aquela
Que cantava tão bem
Oitavas tão claras
Na garganta alva.

Moral da estória:
Se o teu canto é bonito,
Cuida que não seja um grito.
[Hilda Hilst - A Cantora Gritante]


Daí chegou o momento de conhecer a casa
Finamente decorada, muito estilo e bom gosto
Com toques pessoais, rústicos, cults e um ou outro santo
Da viajante madura e independente
Perfeita materialização da mulher moderna
Que aquela noite era nossa anfitriã.
No quarto, qual a surpresa dos convidados!
Sobre a cama, nas prateleiras, na mesinha da varanda
Inúmeros bichos de pelúcia amontoados.
Tantos que diante da inusitada cena,
Um curioso impertinente logo soltou:
Bichos de pelúcia han! Quem diria!
Não sabia que eras fã!
A mulher então irrompeu em colérico pranto.
Falava como uma autêntica adolescente,
Rejuvenescida em dois atos:
São todos presentes do meu ex-namorado...
Encheu o lugar com esses fofinhos, que encanto.
Entupiu o quarto e debandou, o desgraçado
Em cinco anos nunca percebeu que eu tinha alergia!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Art. 135 c/c art. 29 do Código Penal



"Pensem nas crianças mudas, telepáticas

Pensem nas meninas cegas, inexatas
Pensem nas mulheres rotas, alteradas
Pensem nas feridas como rosas cálidas
Mas so não se esqueça da rosa, da rosa
Da rosa de Hiroxima, rosa hereditária
A rosa radioativa estúpida e inválida
A rosa com cirrose a anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume sem rosa, sem nada"
[Vinicius de Moraes - A rosa de Hiroxima]

"Mas as pessoas na sala de jantar
Essas pessoas na sala de jantar
São as pessoas da sala de jantar
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer"
[Caetano Veloso e Gilberto Gil - Panis et circenses]

O cruzamento era perigoso e já passava das onze,
Tive que parar
Vi um menino se aproximar do carro
Bem franzino ele era...
Mas subi os vidros,
Por segurança.
Ele bateu os dedos magros na janela,
Pedindo um trocado, "qualquer coisa" falou
Mantive os vidros fechados,
Por segurança.
Ou foi medo.
Ele então se afastou maltrapilho,
Cambaleante.
De fome ou talvez fosse droga,
Quem vai saber.
O sinal abriu e eu arranquei.
Já estou em casa,
Em segurança.
Mas tanta miséria não permite que rime.
Tampouco eu.

Tão pouca, eu,
Solteira estudante residente e domiciliada,
Ré omissa flagrante e continuada,
Ante o exposto,
Denuncio-me partícipe desse diuturno crime.


Art. 135 - Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública.

Art. 29 - Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade.

*A menção aos referidos dispositivos normativos é meramente simbólica, não técnica.

domingo, 23 de janeiro de 2011

UMDIADEPOISDOOUTRODIA

Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser...
[Gonzaguinha - O que é, o que é?]

Concretar a ideia abstrata para absorvê-la



Abstrair para concretizá-la.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Vamos dançar um tango argentino?

"Mandou chamar o médico: 

- Diga trinta e três. 
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três... 
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. 
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? 
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. "
[Manuel Bandeira - Pneumotórax] 

Tem pra febre amarela e varicela
E a pior de todas: BCG -
Aquela que deixa a marca feiosa
No bracinho gordo do bebê

Da secular variola vaccinia
Agora tem até pra HPV
Inda inventaram a tal gotinha
Pra ver se parava de doer

Tem tríplices contra vírus
E outras contra polio e hepatite
No meu cartão tem proteção
Desde gripe a meningite

Mas me diga seu doutor
Onde que eu acho uma vacina contra o amor?

(variação do mesmo tema, v. Diagnóstico: paixonite)