quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Delírios


"Uma parte de mim
pesa, pondera
outra parte
delira.
(...)
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?"
[Ferreira Gullar - Traduzir-se]

Sobe no meu colo e grita alto.
Aperta, forte, não larga,
Encosta perto, afasta, sai coberto de razão.
Molha meu rosto com teu choro,
Mela meu corpo, me olha torto,
Me deixa louca de paixão.

Esquece o barulho dos carros, esquece os problemas vários.
Concentra na minha voz rouca gritando ais.
Supera o vazio dos loucos, degusta a loucura em tragos.
Suspira contrários, acende pavios, descumpre contratos.
Concentra na minha voz fraca te pedindo mais.

Morde minha boca, arranha minhas costas,
Me olha e me agarra como se eu fosse faltar.
Me toca com as pontas dos dedos, me puxa pelos cabelos,
Me deixa assaltada com falta de ar.

E baixinho, ao pé do ouvido,
Mais pelo gosto quente que sai de ti
Que pelas sílabas tão desalinhadas,
Cheias de peso e de marra que eu nunca engoli.
Diga que me quer e me aqueça,
Me faça mulher e perder a cabeça.

Até que a tensa cobiça que nos apavora reste por um fio
E o contexto se esqueça de nos despertar.
Até que o clímax impeça a razão de tentar intervir
E o pretexto não seja desculpa pra te maltratar.
Até que impregne teu cheiro em mim,
Não distinga contornos, não consiga falar,
Não tenha mais onde me esconder, pra onde fugir, o que alegar
E me entregue de vez.

Até que o peito ofegue alto, frouxo, manso, drogado, carente de ar,
E sucumbamos, sôfregos, num riso bobo...
Gotas de suor e delírio na tez.

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