terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Balzaquiana


Cantava tão bem
Subiam-lhe oitavas
Tantas tão claras
Na garganta alva
Que toda vizinhança
Passou a invejá-la.
(As mulheres, eu digo,
porque os maridos
às pampas excitados
de lhe ouvir os trinados,
a cada noite
em suas gordas consortes
enfiavam os bagos).
Curvadas, claudicantes
De xerecas inchadas
Maldizendo a sorte
Resolveram calar
A cantora gritante.
Certa noite... de muita escuridão
De lua negra e chuvas
Amarraram o jumento Fodão a um toco negro.
E pelos gorgomilos
Arrastaram também
A Garganta Alva
Pros baixios do bicho.
Petrificado
O jumento Fodão
Eternizou o nabo
Na garganta-tesão... aquela
Que cantava tão bem
Oitavas tão claras
Na garganta alva.

Moral da estória:
Se o teu canto é bonito,
Cuida que não seja um grito.
[Hilda Hilst - A Cantora Gritante]


Daí chegou o momento de conhecer a casa
Finamente decorada, muito estilo e bom gosto
Com toques pessoais, rústicos, cults e um ou outro santo
Da viajante madura e independente
Perfeita materialização da mulher moderna
Que aquela noite era nossa anfitriã.
No quarto, qual a surpresa dos convidados!
Sobre a cama, nas prateleiras, na mesinha da varanda
Inúmeros bichos de pelúcia amontoados.
Tantos que diante da inusitada cena,
Um curioso impertinente logo soltou:
Bichos de pelúcia han! Quem diria!
Não sabia que eras fã!
A mulher então irrompeu em colérico pranto.
Falava como uma autêntica adolescente,
Rejuvenescida em dois atos:
São todos presentes do meu ex-namorado...
Encheu o lugar com esses fofinhos, que encanto.
Entupiu o quarto e debandou, o desgraçado
Em cinco anos nunca percebeu que eu tinha alergia!

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