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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Escarlate tropicália


"Como amar esposa
Disse ele que agora
Só me amava como esposa
Não como star
Me amassou as rosas
Me queimou as fotos
Me beijou no altar

Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz"
[Chico - A história de Lily Braun]

Foi de vermelho
Que pintou-lhe as unhas
Despudorada que só ela
Com as longas garras afiadas
Cravadas no casco d'uma Stella.

Escarlate cor nos lábios
Rente ao copo, rente ao corpo
Estes pequenos grandes lábios
Levemente arroxeados
Os dentes brancos
A língua rija
Molhando os dedos que folheiam os alfarrábios
E lhe percorrem entumecidos rumo ao inferno
Ou ao interno astrolábio.

São dedos de baixista
Tocam rock dum dum dum
Geram da cevada mais o vinho
Nem borboletas, nem pirilampos
Senão relâmpagos que despencam no estômago
Explodem em choque anafilático
Percorrem todo o âmago e inda
Desbravam sem que matem na batalha
A mata atlântica tropicália
Que é vermelha
Ela também!
Quente e úmida
Quente e úmida...

Vão rumo ao estreito sul
Onde, entocada, a muralha
Segue impávida-pálida
Intocada pelo sol
E sobre as faces,
Essas rubras,
Resta o disfarce
Da dissimulada da Amália
Puro, casto e angelical.

Quente e úmida
            Quente e úmida....

domingo, 10 de julho de 2011

Desmedida

"Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea
Seu par, sua irmã
Eu sou seu incesto
Sou igual a você
Eu nasci pra você
Eu não presto
Eu não presto"
[Chico Buarque - Sob medida]

Verdade que te deixo com vontade 
E um gostinho de sempre quero
E por mais que queira
Nem sempre supro
E por mais que arda
Nem sempre sopro
E quando o corpo reclama
A boca retrai, e ai! 
Mordo a língua
E nem dói tanto
O frio bate
E nem tem manto
Sou ser humano
Não sou santo! 
Quanto mais te quero
Mais te afasto
E te busco
E me escondo
Eu maltrato
Te cuidando 
Eu te aprovo
Não falando
Eu te testo

Não sei se te amo
Sei bem que eu não presto.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Delírios


"Uma parte de mim
pesa, pondera
outra parte
delira.
(...)
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?"
[Ferreira Gullar - Traduzir-se]

Sobe no meu colo e grita alto.
Aperta, forte, não larga,
Encosta perto, afasta, sai coberto de razão.
Molha meu rosto com teu choro,
Mela meu corpo, me olha torto,
Me deixa louca de paixão.

Esquece o barulho dos carros, esquece os problemas vários.
Concentra na minha voz rouca gritando ais.
Supera o vazio dos loucos, degusta a loucura em tragos.
Suspira contrários, acende pavios, descumpre contratos.
Concentra na minha voz fraca te pedindo mais.

Morde minha boca, arranha minhas costas,
Me olha e me agarra como se eu fosse faltar.
Me toca com as pontas dos dedos, me puxa pelos cabelos,
Me deixa assaltada com falta de ar.

E baixinho, ao pé do ouvido,
Mais pelo gosto quente que sai de ti
Que pelas sílabas tão desalinhadas,
Cheias de peso e de marra que eu nunca engoli.
Diga que me quer e me aqueça,
Me faça mulher e perder a cabeça.

Até que a tensa cobiça que nos apavora reste por um fio
E o contexto se esqueça de nos despertar.
Até que o clímax impeça a razão de tentar intervir
E o pretexto não seja desculpa pra te maltratar.
Até que impregne teu cheiro em mim,
Não distinga contornos, não consiga falar,
Não tenha mais onde me esconder, pra onde fugir, o que alegar
E me entregue de vez.

Até que o peito ofegue alto, frouxo, manso, drogado, carente de ar,
E sucumbamos, sôfregos, num riso bobo...
Gotas de suor e delírio na tez.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Poerótica

"Face
Adulta
Adúltera
Famita
Lasciva
Nociva
Noctívaga
Que vaga
Perdida
Dentro de mim".

"Poemas e pecados. É disso que nos alimentamos no 
limbo da Terra. Do que sacia a vontade que a Igreja 
enterra. Pra gente como nós, todo verso é um grito, todo 
pecado, um rito. É a  passagem e a busca  da margem. 
O que dá aos atropófagos coragem.
[28 e 58, respectivamente- Paula Taitelbaum]

O que você fez com minhas rimas?
Meu raciocínio tá que só pensa num ritmo engraçado
De vem e vai, sobe e desce, morde e assopra.
O que será que sucedeu com as minhas meninas?
Agora são tão pobres, são toscas,
E só sabem falar de desejo...

Cadê as libélulas, as estrelas,
As palmeiras, os passarinhos,
Piu-pius, au-aus, bem-te-vis, pica-paus...
Cadê a quebrada das ondas, o silêncio das rondas
Não penso em problemas, firulas, quizombas...
Tanto menos em política, naquilo de ser canal indignado de transformação,
Senhora de mim, cheia de opinião.

Sequer me voltei para os ismos,
Cinismos, niilismos, parnasianismos, neologismos...
Onde foi parar minha enorme exigência de tempos atrás?
Meu método, minha métrica, meu jeito certinho,
Meus esquemas sonoros bem arquitetados de
"as" com "bês" e "cês" com "as"?
Só penso em morangos e champagne.
Hmm.. na curva das taças, na curva dos dedos, na curva das coxas,
E no aroma espumante que explode em um bocado de b
                          __________________________________________olh______as!
____________________________________________________________inh

Estou perdendo o foco, mais uma vez.
Então antes que pule pruma próxima estrofe cheia das mais desbocadas heresias
E desnude meus monstrinhos, minhas posições preferidas e ah... as minhas fantasias...
Assim que se recompor me diga
O que diabos você fez com as minhas rimas?