quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sobre Júris e Pais Chicos

"Escutou-se, de repente, um disparo. Parecia mais um
relâmpago, mas um segundo tiro não nos deixou dúvidas.
Razão tinha o nosso militar: 
perante o tiro, certo ou falhado, toda a gente sempre morre".
[Mia Couto - Antes de nascer o mundo]

É semana de São João. Na minha terra, São João é época de Pai Chico e sua saga para saciar o desejo da amada Catirina, grávida e sedenta pela língua do boizinho preferido do dono da fazenda. Essa estória é recontada todos os anos em diversos sotaques, zabumba, orquestra, pandeirão, ao som dos maracás. Dançamos todos encantados, índios, pajés, vaqueiros, e os meros entusiastas como eu.  Em festa enfeitada por fogueira, bandeirinhas, barracas de palha e paetês...
Mas esses dias outro Chico me tomou a mente e, desde então, sinto-me como na obrigação de retratar sua história. Essa que não tem melodia e muito menos o brilho e as cores das fitas do bumba-meu-boi. Essa estória com h.
Pai Chico matou o boizinho. Chico matou alguns. Pai Chico matou pra alimentar a mulher grávida. A motivação íntima do outro Chico se desconhece por inteiro, mas diz-se revestida por torpeza. E parece que uma vez assim qualificado o ato, desqualifica-se o acusado na mesma proporção...
Chico não ostentava chapéu, tampouco paetês. Só uma camisa branca surrada, com um colarinho que teimava em virar pra fora, disforme, de tão velho que estava. E pensar que o colarinho branco em outros tem sentido e consequências completamente distintas... Talvez porque melhor lavado. Talvez porque o caso fosse de lavagem, mesmo.
Pai Chico recorreu a pajés, índios e caboclos para ressuscitar o boizinho precioso. Chico tinha a seu lado estudantes e advogados confiantes na sua inocência. Pai Chico lutava contra vaqueiros. Chico precisava convencer 7 cidadãos do povo, de notória idoneidade, de que apesar de não ser tão "idôneo", aquele crime não fora ele quem cometera.
Mas a dança do júri é mais cruel que o bumba-boi e segue a um triste compasso em que uma vez condenado, para sempre culpado, para sempre bandido, para sempre marginal... Ainda mais se traficante, ainda mais se homicida, ainda mais se preto, ainda mais se pobre, ainda mais se lá da estrutural...
Ê boi...

Um comentário:

  1. Bendita hora que você nasceu nesse Maranhão, mais bendita a hora que decidiu ser pessoa importante.

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