domingo, 25 de setembro de 2011

Saudades, vô

http://canteirosdemim.blogspot.com/2011/02/vo_28.html

"A saudade, descida no coração do tempo para resgatar 
o tempo - o nosso, pessoal ou coletivo -, é como uma 
lâmpada que recusa apagar-se no meio da Noite. 
Talvez nos torne estranhos e mesmo complascentes com 
essa estranheza, mas esse sentimento é puramente ilusório. 
Sob outros nomes ou sem nomes, a saudade é universal, 
não apenas como desejo de eternidade, mas como 
sensação e sentimento vividos de eternidade.
Ela brilha sozinha no coração de todas as ausências."
[Eduardo Lourenço - Mitologia da Saudade]



Há 1 mês, o Cara lá de cima nos levou nosso Rei Daniel.

Quando nos confrontamos com uma perda de tal magnitude - no meu caso, uma das primeiras - é difícil encarar o caminho à frente, é difícil aceitar a triste conjuntura do Universo, que simplesmente leva e traz pessoas para as nossas vidas, em um compasso incerto e, certamente, nunca justo. Simplesmente porque o valor de cada pessoa será sempre incompensável.

Sinto saudades, vô. Assim mesmo, no plural. Saudades do seu sorriso, da sua carequinha branca e achatada de cearense teimoso, das suas dores que me faziam sentir tão besta reclamando das minhas costas, dos almoços na casa de praia, de dormir com o maiô por baixo do pijama para não perder tempo quando o senhor nos chamasse de madrugada para assistir ao nascer do sol na praia, de subir a duna enorme que divide até hoje o Olho D`Água do Calhau - e a realidade da fantasia -, dos índios que nunca existiram nos buracos dessa mesma duna, de lhe pedir a benção… Sinto saudades.

Saudade é um sentimento velho conhecido nosso, desde que em 2003 nos mudamos para esse Planalto, sem dunas, índios e casas da praia. Mas com a distância, aos poucos, depois de várias despedidas tão dolorosas que mais pareciam nos cortar um pedaço do coração, enquanto subíamos a escada rolante da sala de embarque, fomos aprendendo que saudade é diferente de tristeza. Deus nos fez tão incríveis, que conseguimos aprender a viver com a saudade, esse sentimento tão salgado, quanto as lágrimas que vêm aos olhos quando nos recordamos; quanto a água do mar batendo nos pés do senhor, que nos esperava dar o primeiro mergulho do dia, de que tanto nos recordamos.

Ele lhe levou há 1 mês, no dia do aniversário de papai; e hoje é o dia do aniversário de vovó. Parece que até nisso, Ele pensou, para que tivéssemos motivos de nos lembrar do senhor não com tristeza, mas com saudades e até alguma alegria.

Há um mês, foi-se nosso Rei Daniel, mas ficou nossa Rainha Oneide, para que dela cuidemos com todo o nosso coração. Dele, nós nos lembraremos sempre com toda a saudade do mundo...

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