quarta-feira, 8 de junho de 2016

Ponte para o futuro



Ah, democracia, querida
Eu pensava ter sorte de
Conhecer-te de berço
Filha da queda do muro
E da carta cidadã

Porém, leda criança
Nem ventura, fortuna
Ou quinhão de herança
Pra seguro amanhã
Democracia, és pura
E plural construção

Sabes que minha geração
Do futuro e da pressa
No afã de viver a promessa
Da nova constituição
Deixou a hora por fazer
Inerte no peito a revolução

Teve os olhos useiros de
Avanços alvissareiros
Que há pouco chegaram
A poucos alcançaram
Mas já tão ligeiro se vão
Confundindo esperar com saber
Sem atentar pra lição da canção

Esquálidos herdeiros é o que somos
Não cumprimos a nossa missão
E assististe ao colosso impávido
Apenas sorver seu legado
Sem universalização

Daí que quando o calar da noite
Subvertia o alvorecer do planalto
Na quinta antessala da superstição
Pensamos inda ter algum tempo
Ao menos uma fração de momento
Antes que o retrocesso incauto
Tomasse de assalto a nação

Contudo logo
Se escancararia
Que hoje é mesmo
um
novo
dia 
de
um
novo
tempo
E o passado 
Que a gente temia
Já começou

Mostraste-me, todavia
Que uma geração é tecida
Da partilha aguerrida 
De lutas e sonhos
Não de anos a fio
E que não serias sem luta
Tragada a retorno tão vil
Nem nos livraríamos
Sem perdas do fardo
De um futuro que
Não te garantiu

À minha geração
Então só caberia
Pedir não perdão
Mas licença tardia
Pra seguir com quem
Não nos seguiu 
E hoje ocupa as escolas 
E assume o Brasil

Pois se tal transgeração se unisse
Das escolas às ruas
Campos, construções
Não ia ter quem não visse
Que vamos juntas e iguais
Compor novas e bravas canções

Então vem
Não vamos embora
Que esperançar é não temer
Quem se lembra de outrora
Não irá esmorecer

Então vem
Não vamos embora
Bem se vê sem demora
Que agora só vamos 
Além

Nenhum comentário:

Postar um comentário