sábado, 14 de agosto de 2010

Não

Então eu vivi um não e foi lindo. As palavras pequenas sempre me incomodaram, megalômana de imediatismos, de inteiros e de instintos que sempre me soube. Mas aquele não, definitivamente, foi lindo. Nele cabiam todas as negativas do mundo, a fragilidade da existência humana, a crise pós-moderna, a efemeridade das relações, a fadiga muscular, a fome, o sono, a cólica. Lindo. Foi um não assertivo, firme e quente, com gosto de saliva maturada, de noite mal dormida assombrada por fantasmas de outras e dessas mesmas vidas, com jeito de vida alguma, pouca morte e nenhuma ressurreição. Ou curta vida, morte nenhuma e futura ressurreição. Um sonho de não. Negativa a escapar pelos lábios entrefechados, fugindo das entranhas useiras de gestarem apenas sins, no máximo um gentil pois não, em que posso ajudá-lo, deixe comigo, por favor, e encaminhando-se furtivamente aos meus ouvidos encantados com tanta plenitude do que não poderia ser. Imenso em três letras sussurradas, subliminares, sublinguais. Era sublime aquele não. Sublimava e evaporava no ar e me sugava e me roubava o meu oxigênio todo, e de repente eu já estava ali, asfixiada, pairando insólita diante de tamanha impossibilidade, confrontada com as minhas urgências, minha semi-depressão, meu pós-sentir, minha ex-amargura. Não sentir, não pensar, não sofrer, não passar de um esforço dissimulado, frívolo, inútil e desperdiçado de não ser. Ou de ser demais, de gritar demais e espernear demais e transbordar todas essas adolescências tardias antes que morra afogada e rouca. Mas hoje eu não falei. Queimei, incendiária, eu incinerei todas as vísceras e os traços de encanto, e os sorrisos mais irresistíveis, e os olhares mais desesperadores e tudo aquilo que sabia nominar e não quis. Não poder, não bastar, não conseguir. Observei o pleno conflito, debatendo passados e explicações e injustificativas e vontades de retidões e condutas moralmente impecáveis e carinho, cuidado, fogo calmo no meu pretenso inverno meio cerrado, meio mangue, e não intervim. Só queimei infartada e admirei assaltada e quedei muda numa pequenez silente inédita, qualquer coisa de repartição, fragmentação de uma Natália qualquer, passada, adolescente, perdida e recuperada em tempo dentro de mim. Em tempo, senti o ardor em brasa dentro do meu peito e fora e ao lado, queimando tudo, pleno, sublime, rouco, frágil, efêmero, pós-moderno. E gritava, debatia-se, calmo, terno, suave, esgoelava-se e reafirmava-se todo em querer, sentir, cuidar, queimar, não agora, depois, queimar, queimar, inflamado, perder-se em cinzas, preservado, eterno, combustível cumpridor de seu destino, aquecedor de invernos interiores, destruidor de cerrados e mangues e florestas amazônicas, até, quem sabe, depois, não agora, um dia, talvez, certamente que sim... 
Mas hoje, naquele momento pedaço de sempre, para aqueles nós ainda não houve sim. Só um não lindo...

Um comentário:

  1. Algumas crianças batem pé depois de um não. Outras escrevem um texto desses. Um primor ?

    Acredite, ou não, esse texto me lembrou algo daquele fotolog preto, que nem sei se realmente era teu, mas era. São essas descrições múltiplas.

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