quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Atrevimento

Daí que estava no trânsito, concentrada em remoer o nada, ouvindo os últimos acordes de um samba de João Gilberto antes de o locutor anunciar que iria começar a Voz do Brasil. Tocou aquela musiquinha característica, algo entre uma pretensa fusão de vários ritmos e expressão de coisa nenhuma. Aliás, permita-me registrar que acho que falta é muita brasilidade nessa vinheta. Podia ser um sambinha, mais animado, algo como, vem aí, vem aí, a voz do Brasil, olha que ela vem aí, abre a roda pra ela entrar, olha que ela vem, não se vá, pararaticutum! Acho que Carlos Gomes não ia se importar.

Mas sim, lá me encontrava, por trás do volante, pés descalços do salto de todo dia, um de lado, à toa, o outro parado sobre o freio, também à toa. Já tinha deixado o carro à toa no ponto morto e levantado o freio de mão. Estava, pois, completamente à toa naquele engarrafamento que não ia andar nunca mesmo. Notícias da Câmara dos Deputados: projeto de lei aprovado à toa no plenário e etc. e tal. Tudo bem à toa como pede uma véspera de sexta-feira.

Começou como uma troca de olhares. Daqueles meio de relance, uma balançada de cabeça, uma expressão mais séria para disfarçar. Mulheres sempre fazem isso, procurando defeitos, obviamente. Mas sempre com o cuidado de ser sutil, pra que reste à outra algum espaço de achar que, na verdade, foi sua bolsa nova que chamou atenção e ficar se sentindo bestamente orgulhosa. Coisas da cumplicidade feminina.

Foi quando eu percebi que a desgraçada estava era rindo de mim! E não era um riso escrachado, nããão. Tinha aquele tom de cinismo, ar de superioridade fajuta, como quem quer te convencer de que tua cara é mesmo muito da risível. A filha da puta estava rindo cinicamente na minha cara! E ali, no meio da rua, pra todo mundo ver. Logo, logo, iam todos perceber a piada e começar a rir de mim também. O que era que tinha de tão cômico? Nem alface, nem feijão eu comi hoje. Minha maquiagem também não estava borrada. Sempre fecho a braguilha da calça e com certeza o cofrinho não estava aparecendo - era de cintura alta. O carro estava limpo, passei hoje mesmo no lava-jato e dei um grau, foram-se todas as obras de pombos e a carinha dando língua ao lado do dizer: LAVE-ME PELO AMOR DE DEUS. Então de que diabos ela ria?

Aliás, quem ela achava que era pra rir de mim assim? Também estava sozinha ali no escuro, também não ia fazer nada demais no resto da noite e tampouco nos dias que se seguissem. Ia continuar ali, bestando, prostrada, com sua solidão escancarada pra qualquer um enxergar. No fim de semana inteiro e se duvidar ainda em alguns dias da semana que vem.

E esse engarrafamento que não anda?! Já está quase nas notícias do Poder Judiciário e, sinto muito, mas chega de trabalho por hoje. Não tinha nenhum CD, nenhuma revista pra folhear, nenhuma propaganda de concurso ou de empreendimentos-imobiliários-seu-sonho-realizado-pronto-pra-morar e a bateria do celular havia acabado em uma ligação que também não deu em nada. Nem pra aparecerem aqueles malabaristas de rua com uma roupa engraçada, brincando com suas bolinhas e derrubando uma e outra no chão, só pra que a gente sinta mais pena e dê alguns trocados a mais. Nem isso. Também, não tinha trocado algum pra dar mesmo.

Espiei pelo retrovisor e a vagabunda continuava ostentando seu sorriso desavergonhado pra cima de mim. Foi quando eu me enchi de tamanha petulância e resolvi revidar. Só que a minha vingança nunca teve espaço pra pouquismos. Soltei-lhe logo foi uma gargalhada, forçada, declaradamente falsa mesmo, e apontei com o dedo pra fora do vidro:

- RÁ-RÁ-RÁ-RÁ-RÁ! Sua minguante, você está torta!

2 comentários:

  1. O Guarani em samba eu nunca vi, mas tem o Ska da Orquestra Brasileira de Música Jamaicana que é muito legal. http://www.myspace.com/obmjska

    Hoje eu super vibro quando vejo a palavra 'desgraça' e suas derivadas. Na minha época de guri era proibido falar isso em casa, então, não fazia parte do meu vocabulário até eu conhecer melhor o Tom Zé. Ver ele se chamando de desgraçado, filho da puta, feio, nordestino(...)é hilário demais e me fez achar 'desgraça' bonita, enfática.

    Sobre a história em si, que hei de dizer?

    MULHERES! :)

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  2. você é simplesmente brilhante! hahaha...adorei especialemnte a surpresa final.

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