domingo, 7 de novembro de 2010

Insolação


Uma noite de lua pálida e gerânios 
ele viria com boca e mãos incríveis 
tocar flauta no jardim. 
Estou no começo do meu desespero 
e só vejo dois caminhos: 
ou viro doida ou santa. 
Eu que rejeito e exprobro 
o que não for natural como sangue e veias 
descubro que estou chorando todo dia, 
os cabelos entristecidos, 
a pele assaltada de indecisão. 
Quando ele vier, porque é certo que vem, 
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? 
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos 
— só a mulher entre as coisas envelhece. 
De que modo vou abrir a janela, se não for doida? 
Como a fecharei, se não for santa?
(Adélia Prado - A serenata)


Não via o sol há muito tempo
Mas ali livre estava
Cabelos voando nas
Rasas rajadas de vento.

Impune insanidade
Serva, amante, sedenta
Salobra impiedade
Moça, nada sacra, nada santa
Abafando gritos, afogando mitos
Me bebo, embebo, então bêbada
Me fumo, me puno, recupero e reperco meu rumo.

Fagulhas, agulhas, agruras barrocas
Contrastes, trocados, bordados...
Inchar toda essa coisa pouca
Preencher toda essa vida oca
E de repente é preciso amar o vão para se renascer - louca!

Eis que desmaia o sol
Esvai-se de minha pele
E deixa apenas a vermelhidão...

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