domingo, 12 de dezembro de 2010

Vade Vida Vã



(...)"Ela lua pequenininha
não tem batom, planeta, caneta,
diário, hemisfério,
Sem entender seu mistério,
ela luta até dormir
mas é menina ainda;
chupa o dedo
E tem medo
de ser estuprada
pelos bêbados mendigos do Aterro
tem medo de ser machucada, medo.
Depois menstrua e muda de medo
o de ser engravidada, emprenhada,
na noite do mesmo Aterro.
Tem medo do pai desse filho ser preso,
tem medo, medo
Ela que nunca pôde ser ela direito,
ela que nem ensaiou o jeito com a boneca
vai ter que ser mãe depressa na calçada
ter filho sem pensar, ter filho por azar"(...)
[Elisa Lucinda - Lua Nova Demais] 

Eu e a mulher do outro lado
Mãe das iniciais no processo
De fora do carro, de longe do plano
Temos tanta coisa em comum
E tanto que nos separa...

A sua tristeza é desespero
A minha é distúrbio psicológico
Combatida com chocolates e divã
Vida dissecada e destrinchada:
Perto da vida dela, seca nas trincheiras
Tão pequena, tão mesquinha e vã
Que envergonha e dói.

Mas a minha dor não é pneumonia de resfriados não tratados
Nem fome no estômago vazio de qualquer coisa de comer
É fibromialgia de tensão e descompasso
De nervos tensos, frescos e irritantemente exagerados
Produção de endorfina insuficiente?!?!
Como pode eu e ela sermos assim tão diferentes?

Dia após dia, com meu Vade Mecum, eu luto por igualdade
Subjetivar direitos, justiça social e mais oportunidades
Só que a minha violência de gênero
É ter que usar terno, falar grosso e afirmar minha sexualidade
Ela busca proteção, eu desejo liberdade
Eu tenho até direito de querer um homem que me agrade!
Ela perdeu cedo o hímen, apanha do homem, apanha do filho
E eu aqui procurando algo que rime com gênero...

Vida destrinchada e seca nas trincheiras
Esperando e construindo... e esperando um amanhã
Vã, vida... Vade vida vã...

Um comentário:

  1. O eu-lírico foi profundo e íntimo. Sem fôlego pra comentários públicos. hehee

    diLi

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