domingo, 15 de abril de 2012

Ficar com certeza maluco beleza

"Misturarei anáguas de viúva
Com tampinhas de pepsi e fanta uva
Um penico com água da última chuva,
Ampolas de injeção de penicilina

Desmaterializando a matéria
Com a arte pulsando na artéria
Boto fogo no gelo da Sibéria
Faço até cair neve em Teresina
Com o clarão do raio da silibrina
Desintegro o poder da bactéria"
[Zeca Baleiro - Bienal]

Acho que chega de ensaio. O início de toda prosa requer a conjugação violenta de aquecimento e impulso. Calor, pulsão. Tanto que larguei a temperatura amena da varanda por mangas compridas e algum abafamento. Que me abafasse por fora e liberasse por dentro toda essa calefação. Autores amadores - e amantes, e atores - compartilham esse quê de firme indecisão. Começaria, assim, com uma frase de efeito ou um título curioso que pouco tivesse a ver com o conteúdo do restante. Como uma cantada perfeita ou a entrada contundente no palco a calar a audiência ou lhe arrancar palmas. Ou almas, com sorte.

Fato é que estas mal traçadas linhas vêm sendo maturadas já há alguns dias. Desde que, andando sozinha, a céu aberto, de repente ouço tilintar e vejo semi-quicar no chão um parafuso preto de cerca de cinco centímetros que realmente não tinha de onde ter saído. O puro retrato da ironia escancarada. Eu, caminhando, a céu aberto, e um parafuso. Do nada. No chão.

Olhei para baixo com surpresa e rindo da inusitada situação. Então para cima. Para baixo. Para os lados. De fato não havia sinais de onde o parafuso tivesse se desprendido. Salvo da minha cabeça, claro, essa conclusão infame também me veio de imediato.

Mas, de onde? A que porca cerebral corresponderia aquele pequeno pedaço de metal fundido e levemente enferrujado? Todos esses dias essa indagação estúpida e levemente nerd vez por outra despontava.

Diz que o principal hemisfério cerebral, em quase todos os seres humanos, é o esquerdo, que controla o pensamento lógico e a competência comunicativa, enquanto o simbolismo e a criatividade ficariam a cargo do lado direito do cérebro. Pois pronto. A completa incapacidade de narrar o dia em que um parafuso caiu da minha cabeça poderia ser explicada por uma pane geral em qualquer um dos meus dois hemisférios. E isso sem falar nos córtex, no hipotálamo, nos lobos, na amígdala... A ironia só aumentava.

Só que nada disso mais importa. Porque há cerca de vinte e sete minutos, quando finalmente me sentei, de mangas compridas listradas cor de rosa, morta de calor, em frente ao computador, decidida a filosofar sobre o famigerado parafuso, achei que estivesse chegado a alguma frase de efeito bacana para iniciar esse texto, levantei para pegar o parafuso - que obviamente havia guardado (para a posteridade ou alguma intervenção cirúrgica que vai que fosse necessária)-, este havia se desintegrado. Sumiu. Tomodoriu. Escafedeu-se.

Pois pronto. Fui condenada a ficar com um parafuso a menos pro resto da vida. 

Um comentário:

  1. Não poderia o parafuso ser do próprio chão?

    Ou ter passado por uma jornada mais incrível que a sua até esse momento, pra te encontrar, te fazer pensar, e depois terminar o caminho dele, sem dar pistas desse destino final, que pelo que bem se sabe pode até envolver ter sido carregado por gnomos?

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