Marcha - Cecília Meireles

As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebraram as formas do sono
com a idéia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns vivos pela tona,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
-- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga,
é tudo que tenho,
entre o sol e o vento:
meu vestido, minha musica,
meu sonho, meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudades;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos tristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento...
Não há lagrima nem grito:
apenas consentimento.

33 comentários:

  1. Natália, caí aqui por acaso, procurando a poesia "Marcha" de Cecília Meirelles. Depois que vi seu nome, a referência a São Luís-Brasília e o blog do Aureo nos seus preferidos, tive certeza de que já nos trombamos em algum ENPR. Eu também vivo entre incisos e versos. Boa sacada!

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  2. Bom dia gostaria de deixar isso aqui

    Um lugar, Um só lugar,
    Que seja o lugar,
    Que eu queira estar.

    Que não haja cercas,
    Que não haja portas,
    Que não tenha brigas,
    Que não tenha nada,
    Que me faça chorar.

    Esse lugar existe,
    E é real.
    Mas é preciso aqui ficar,
    Para merecer ir para lá.
    E para isto,
    Tenho que a minha “cruz” carregar.

    Neste lugar não existem sonhos.
    Pois tudo lá é real.
    Pesadelos não existem por lá,
    Pois a bonança mora por lá.

    As minhas malas não estão prontas,
    Nem posso me apressar,
    Pois quem tem pressa não chega lá.

    É o único que existe que só entra,
    Quem não espera entrar.
    Pois lá é a mansão dos humildes,
    A morada dos justos,
    O repouso do trabalhador cansado.

    Por isto não devo ter pressa de chegar!
    Desejo, mas não posso me antecipar.
    Se não, num lugar muito ruim vou morar.


    Estas palavras afloraram em minha mente durante o mês de setembro de 2005.
    Foi uma época de muita luta espiritual, onde a depressão tentava ser maior do que eu.

    Rogerio da Silva Garcia

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  3. Essa poesia pode ser cantada na melodia de 'faltando um pedaço' do Djavan.

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  4. Belos versos, tenha pressa não para que sua utopia não caia em fragmentação. Viva a vida sem pensar nela assim como um rio há de ter com o mar... Paz e bem Rogério!!!

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  5. alguem sabe quando esse poema foi escrito?

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  6. Lindo poema, foi desse poema que saiu a musica canteiros de fagner.. lindo ..

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  7. Adoro poesia e me considero um romântico inveterado. Também caí nesse blog por acaso e adorei. Peço permissão pra deixar meus versos que escrevi pra minha neta linda de viver: Preludio para os olhos da Karol (um soneto ao seu olhar). A luminescência dos seus olhos parece/ Duas pérolas recém-colhidas do fundo do mar. Ao coração sentido daqueles que sabem olhar,/ São como pedras gêmeas que aquece. // Com todo o seu brilho intenso e cintilante, / Como a brincar tateando nos raios do sol,/ Cavalga em seu ultimo clarão do arrebol,/ E projeta seus reflexos na agua ondulante. // Entende o sol, conforma o mar, contorna as aguas,/ Que o que vem dos seus olhos é brilho próprio,/ Por isso combinam os astros, não guardar mágoas.// Porem para o ego humano, quanto mais sóbrio,/ Mais preso sente como um náufrago dessas aguas,/ Como um Prometeu acorrentado ao seu opróbrio.

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    1. jedmarjlima@gmail.com Desculpe Unknowm postei erradamente no seu comentário.

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  8. procurando a Marcha, encontrei mais poesias e como sem elas eu não vivo, aportei nesse lugar sagrado....

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  9. Paulo Tarso de Carvalho.
    procurando a Marcha, encontrei mais poesias e como sem elas eu não vivo, aportei nesse lugar sagrado....

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  10. Vim aqui para perceber o pseudo plágio entre o poema" Marcha" e a letra da música"Canteiros" existe de fato uma semelhança, porém, não vi o plágio em sua totalidade.

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    1. Não é pseudo plágio. É plágio. Ele deveria ter dado crédito a grande poetisa.

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    2. Ele deu: https://www.youtube.com/watch?v=SHzLe74hNdQ&t=2s&ab_channel=MPBBossa

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    3. Fagner coloca Cecília Meirelles como coautora, nunca deixou de recolher os direitos autorais pertencentes a ela, a família perdeu o processo movido contra ele.
      Sem plágio, apenas desinformação...

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    4. Isso não é o fato, a co-autoria estaria registrada num encarte que nunca saiu - ninguém sabe - ninguém viu. Não só ele foi condenado como as gravadoras, também. 100 e poucos mil cruzeiros na época...

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  11. O Fagner é uma pessoa dificil mas na minha opiniao ele fez uma referença a este poema com a musica canteiro e reconheceu isso públicamente assim como o Belchior com o poema de Bilac via lactea onde ele na musica divina comedia gumana cita um trecho. Eu mesmo me interessei em conhecer a poesia da Cecilia Meireles por causa da gmusica canteiro.

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  12. SOU FÃ.......GRANDE CECÍLIA MEIRELES.....👏🤝🏼👍

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  13. Poesia maravilhosa. A música tb é. Deveria ter reconhecido o uso dos versos de Cecília Meireles.

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  14. Marcha. poema que retarata o nosso cotidiano.

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