Marcha - Cecília Meireles

As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebraram as formas do sono
com a idéia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns vivos pela tona,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
-- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga,
é tudo que tenho,
entre o sol e o vento:
meu vestido, minha musica,
meu sonho, meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudades;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos tristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento...
Não há lagrima nem grito:
apenas consentimento.

2 comentários:

  1. Natália, caí aqui por acaso, procurando a poesia "Marcha" de Cecília Meirelles. Depois que vi seu nome, a referência a São Luís-Brasília e o blog do Aureo nos seus preferidos, tive certeza de que já nos trombamos em algum ENPR. Eu também vivo entre incisos e versos. Boa sacada!

    ResponderExcluir
  2. Bom dia gostaria de deixar isso aqui

    Um lugar, Um só lugar,
    Que seja o lugar,
    Que eu queira estar.

    Que não haja cercas,
    Que não haja portas,
    Que não tenha brigas,
    Que não tenha nada,
    Que me faça chorar.

    Esse lugar existe,
    E é real.
    Mas é preciso aqui ficar,
    Para merecer ir para lá.
    E para isto,
    Tenho que a minha “cruz” carregar.

    Neste lugar não existem sonhos.
    Pois tudo lá é real.
    Pesadelos não existem por lá,
    Pois a bonança mora por lá.

    As minhas malas não estão prontas,
    Nem posso me apressar,
    Pois quem tem pressa não chega lá.

    É o único que existe que só entra,
    Quem não espera entrar.
    Pois lá é a mansão dos humildes,
    A morada dos justos,
    O repouso do trabalhador cansado.

    Por isto não devo ter pressa de chegar!
    Desejo, mas não posso me antecipar.
    Se não, num lugar muito ruim vou morar.


    Estas palavras afloraram em minha mente durante o mês de setembro de 2005.
    Foi uma época de muita luta espiritual, onde a depressão tentava ser maior do que eu.

    Rogerio da Silva Garcia

    ResponderExcluir