quinta-feira, 1 de março de 2012

Capítulo XXII: Queda e ascensão do Império Humano


"Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?"
[Paulinho Moska - A Seta e o Alvo]

Controle-se, controle-se, controle-se. 

A sensação que eu tenho é que boa parte do tempo, nos últimos tempos (ou em todos os tempos dessa vida curta), a gente perde um bom tempo ouvindo essa autosequência mandona, teimosa e semipsicótica ordenando que se controle. 
Controle impulsos, controle pulsões, controle, sobretudo, qualquer ímpeto vagabundo de achar que se vive num mundo panda repleto de flores onde você finalmente pode se deixar descontrolar, um pouco, aos poucos, aos muitos, que lindo!
Tem algo mais bonito que isso de saltar rumo ao nada?! 
Exceto quando você pára pra pensar que... pera, o que diabos você tá pensando? Rumo ao NADA. 
Se não tem nada lá, por que diabos você vai saltar?! Só porque você não é mais um pré-adolescente desengonçado, eventualmente com óculos de lentes fotocromáticas, aparelho ortodôntico, canelas finas e/ou uma pochete térmica da Sadia na cintura, não significa que você virou uma borboleta e ganhou asas! Não, querido. Você pode até ter saído do casulo, mas asas tendo levemente a achar que ainda não desenvolveu… Você esqueceu que aquela mesma música lá do começo (aquela mesma que faz você se sentir pseudorevolucionário e destemido por postar no facebook) traz já nos primeiros versos "eu falo de amor à vida".
Você quer cair, por acaso? Então, quer saltar por que mesmo?
A verdade é que ninguém salta pela queda. Pelo menos não ninguém normal. Tudo bem. Pelo menos não ninguém que eu ache normal. E eu acho que eu tenho uns achismos bem certeiros (mamãe também!).
Parece-me mais razoável que a gente salte pela chegada ao chão. Ou uma cama elástica que nos permita ficar indefinidamente saltando e voltando ao chão, instável, mas chão. Ou - e aí vou soar eu agora como aquela pré-adolescente ingênua e romântica que ainda acha que um dia virará borboleta - pela esperança de por algum motivo mágico cósmico ficar flutuando no ar…
Quem salta pela queda, desculpem leitores que acreditam na beleza da incerteza dos caminhos, é suicida. Mesmo porque não há nada de incerto em cair. O fim é bem certo, óbvio e inarredável: dar de cara no chão.

(Mas aí controle-se. E, pelo amor, não faça corpo mole e se levante logo pra começar o quanto antes a subir de novo rumo aos futuros saltos.)

Um comentário:

  1. A mamada primeira nos persegue. Olha isso, de uma colega, Ornela Fortes e seu querido filho:

    "Diálogo da experimentação em pássaro:

    - Tudo que voa precisa de chão, né Mãe?
    - Como assim, filho?
    - É, eu percebi. É assim, tudo que voa tem chão, ou pra dar impulso ou pra pousar. Ninguém voa pra sempre, só na foto ou no faz de conta."

    Que gostoso ver um comentário teu no meu blogue. Tive em Brasília durante todo o carnaval e mais um pouco e até pensei em fazer contato... Mas não fiz. Nosso terreno é virtual, poesia.

    Fique bem!

    ResponderExcluir